Devocional
Quando Deus Muda a Rota
Paulo já estava na estrada quando o caminho se fechou, duas vezes. Lucas não conta como aconteceu, e em nenhum momento diz que Paulo parou de andar.
Texto bíblico Atos 16:6–10 · Atos 15:36 · Provérbios 16:9 · Isaías 30:21 · 2 Coríntios 2:12–13
E passando pela Frígia, e pela região da Galácia, foi-lhes impedido pelo Espírito Santo de falarem a palavra na Ásia. E quando eles vieram a Mísia, tentaram ir à Bitínia; mas o Espírito não lhes permitiu.
Quase todo mundo passa depressa por esses versículos, de olho na visão que vem depois. Só que é justamente aqui que muita gente vive: entre um plano que fazia sentido e uma porta que não abre.
Paulo tinha um bom plano
A viagem começou com Paulo dizendo a Barnabé, no capítulo anterior: “Voltemos a visitar a nossos irmãos em cada cidade onde tenhamos anunciado a palavra do Senhor, para ver como estão.” Ninguém chamaria isso de teimosia.
Depois ele quis pregar na Ásia, a província romana da costa oeste do que hoje é a Turquia, cuja grande cidade era Éfeso. Também um bom plano.
Foi impedido. Lucas não diz como. Pode ter sido uma palavra profética, uma circunstância, uma doença. O texto não conta, e é melhor não preencher esse silêncio com o jeito que a gente gostaria que Deus agisse.
Então eles tentaram a Bitínia, mais ao norte. Outra escolha razoável. E de novo o caminho se fechou.
Eles continuaram andando
Paulo não reagiu ao primeiro caminho fechado sentando na Galácia até ter certeza de tudo. Ele ajustou a rota e seguiu, usando o discernimento que tinha. A direção chegou a um homem que já estava em movimento.
Tem gente que não está confusa porque Deus está em silêncio. Está parada porque tem medo de escolher errado, e passou a chamar esse medo de “esperar no Senhor”. A Bíblia fala, sim, de uma espera santa, mas também existe uma paralisia que só tem cara de espiritualidade. O exemplo de Paulo sugere outra postura: tomar a decisão mais fiel que você consegue enxergar, e segurá-la com a mão aberta o bastante para Deus poder interromper.
Provérbios diz isso numa linha só: “O coração do homem planeja seu caminho, mas é o SENHOR que dirige seus passos.” O provérbio já supõe que a gente vai planejar.
Nem toda porta fechada é um não
Seria fácil transformar essa passagem numa regra: se ficou difícil, é Deus dizendo não. A vida de Paulo não permite essa leitura. Ele apanhou, naufragou e continuou. Há resistências que pedem perseverança, e não mudança de rota.
E porta aberta também não é automaticamente um sim. Anos depois, Paulo escreveu sobre a chegada a Trôade, o mesmo porto desta história, “abrindo-se porta para mim no Senhor”. Mesmo assim ele foi embora, porque não teve repouso em seu espírito e queria encontrar Tito na Macedônia.
As circunstâncias sozinhas, portanto, não resolvem a questão. E Atos 16 é um caso incomum: Lucas afirma com todas as letras que foi o Espírito que impediu, e depois veio uma visão. A maioria das nossas decisões não vai chegar com essa clareza, e é mais honesto admitir isso do que tratar cada contratempo como um recado.
O que a gente tem é simples e exigente ao mesmo tempo. A Escritura, lida com cuidado e no contexto. Uma oração que também escuta. Sabedoria. O conselho de gente madura o bastante para dizer o que a gente não quer ouvir. Um olhar honesto sobre as próprias motivações e o próprio caráter. E as circunstâncias, pesadas sem superstição.
A noite em Trôade
Depois de dois caminhos fechados, Paulo chegou a Trôade, um porto no Egeu, e naquela noite viu um homem macedônio rogando: “Passa à Macedônia, e ajuda-nos!”
Vale ler devagar a frase seguinte: “E quando ele viu a visão, logo procuramos partir para a Macedônia, concluindo que o Senhor estava nos chamando para anunciarmos o Evangelho a eles.” A palavra por trás de “concluindo” tem a ideia de juntar as peças. Mesmo com uma visão diante deles, o grupo pensou junto no que ela significava, e partiu logo em seguida.
Repare também no que aqueles caminhos fechados acabaram sendo. A Ásia não foi negada para sempre. Alguns anos depois Paulo passou dois anos em Éfeso, e Lucas registra que todos os que habitavam na Ásia tinham ouvido a palavra do Senhor Jesus. A Bitínia também não foi esquecida: a primeira carta de Pedro é endereçada a cristãos que viviam lá. A rota mudou; a missão não diminuiu.
A pergunta mais difícil
Por meio de Isaías, Deus prometeu a um povo que tinha escolhido o próprio caminho que um dia ouviria uma palavra atrás de si: “Este é o caminho; andai por ele.” A promessa supõe que a gente esteja disposto a andar depois de ouvir.
Pode ser que parte da nossa confusão não seja falta de direção. Pode ser que a direção esteja ficando clara, e não seja a que a gente queria. Um relacionamento que a gente esperava que continuasse. Um emprego que parecia garantido. Uma mudança de cidade sempre adiada. Um ministério em volta do qual a gente construiu a identidade.
Então fique um tempo, com honestidade, diante desta pergunta: se Deus deixasse o caminho totalmente claro hoje, e fosse diferente da resposta que você queria, você ainda chamaria isso de direção de Deus?
Paulo queria a Ásia. Ganhou uma travessia de mar até uma colônia romana que não estava nos planos, e a primeira igreja que Lucas registra do outro lado começou com algumas mulheres reunidas para orar fora da cidade de Filipos.
Para refletir
- Em que ponto eu chamo de espiritualidade o medo de escolher errado?
- Se Deus deixasse o caminho totalmente claro hoje, e fosse diferente da resposta que eu queria, eu ainda chamaria isso de direção de Deus?
Oração
Senhor, eu fiz planos, e acho que alguns são bons. Não me deixa ficar parado, e me mantém disponível para as tuas interrupções.
Onde o caminho está se fechando, me dá humildade para perceber. Onde ele só está difícil, me dá coragem para ficar.
Amém.
A direção de Atos 16 chegou a pessoas que já estavam na estrada, fazendo a coisa mais fiel que conseguiam enxergar.
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