Devocional
Três Vezes
Paulo pediu uma coisa específica e recebeu não. Ele conta a recusa e nunca conta sobre o que estava pedindo.
Texto bíblico 2 Coríntios 12:7–10 · 2 Coríntios 12:9
Três vezes eu orei ao Senhor por causa disso, para que isso se afastasse de mim.
Não sabemos o que era.
Isso não é descuido. Paulo escreve longamente sobre a própria vida nessa carta, e não tem problema em listar açoites, naufrágios, fome, noites sem dormir e um dia inteiro em mar aberto. Não é um homem preocupado com privacidade. Ele simplesmente se recusa a nomear essa única coisa, e a igreja vem tentando adivinhar desde então: uma doença, uma vista que falhava, uma tentação que voltava, alguém que não parava de se opor a ele.
As tentativas são compreensíveis e nenhuma delas é decidível. O que importa é que o silêncio produz um efeito. Como ele nunca dá nome, a passagem não pertence apenas a quem tem a aflição específica dele. Ela se assenta sobre o que você nomearia se alguém perguntasse.
As duas descrições
O versículo 7 diz duas coisas sobre a mesma realidade, e elas não convivem confortavelmente.
É um espinho na carne, um mensageiro de Satanás, para atormentá-lo. E foi dado a ele, numa construção que pressupõe alguém dando, com um propósito declarado: para que ele não ficasse arrogante.
Paulo não resolve a tensão. Não explica como algo pode ser instrumento do inimigo e dádiva com propósito ao mesmo tempo. Coloca as duas coisas na mesma frase e segue em frente.
Essa recusa a arrumar a bagunça merece atenção. Boa parte do ensino inútil sobre sofrimento nasce de escolher uma dessas metades e descartar a outra. Diga apenas que vem do inimigo, e toda aflição vira uma briga que você está perdendo. Diga apenas que foi dada, e Deus começa a soar como autor de crueldade. Paulo segura as duas, e não oferece um mecanismo.
Ele pediu três vezes
O número é pequeno o bastante para ser exato e grande o bastante para significar algo. Não foi um pensamento passageiro. Ele levantou o assunto, levantou de novo, e levantou uma terceira vez.
Quem já orou repetidamente pela mesma coisa conhece o constrangimento específico da terceira vez. A gente começa a se perguntar se pedir de novo é fé ou insistência, e se o silêncio até ali já não era a resposta.
Para Paulo não era. A resposta veio, e foi uma recusa.
“Minha graça te basta, porque meu poder se aperfeiçoa na fraqueza.”
Que tipo de não é esse
Repare que Paulo para de pedir. O texto vai direto da resposta para a conclusão dele, sem uma quarta tentativa e sem discussão. Ele trata o que recebeu como resposta de verdade, não como uma porta ainda entreaberta.
Isso diz alguma coisa sobre o que ele ouviu. Não foi silêncio, e não foi repreensão por ter pedido. Foi uma resposta que lhe deu outra coisa em vez do que ele havia solicitado, e que ele julgou suficiente.
Depois vem a frase fácil de citar e difícil de viver. Por isso, com muito prazer, eu me orgulharei nas minhas fraquezas, para que o poder de Cristo habite em mim.
Note o que a Bíblia Livre traz aqui: que o poder de Cristo habite nele. Não uma proteção por fora, mas uma presença por dentro, justamente no lugar que ele queria ver removido.
Ele não diz que o espinho ficou agradável. O versículo 10 lista insultos, necessidades, perseguições e angústias, e nenhuma dessas palavras é suave. Ele diz que encontrou no meio delas algo que não teria encontrado de outro jeito, e que prefere isso à remoção que pediu.
Para hoje
Se você está na terceira oração sobre alguma coisa e nada mudou, essa passagem não promete que a quarta resolve. Ela faz algo mais estreito e mais útil.
Diz que um não pode ser resposta, e não ausência; que Paulo nem sempre conseguia dizer que tipo de problema estava enfrentando; e que aquilo que ele finalmente recebeu não foi uma explicação, e sim uma suficiência.
Ele nunca chegou a dizer o que era o espinho. Disse o que aconteceu com ele enquanto ainda o tinha.
Oração
Deus, existe uma coisa sobre a qual eu já te perguntei mais de três vezes.
Se a resposta for a que Paulo recebeu, ensina-me a ouvi-la como resposta.
Amém.
Ele teve negada a remoção e recebeu a suficiência, e considerou isso ter sido respondido.
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