Devocional
Ele Ficou Mais Dois Dias
João diz que Jesus os amava. A frase seguinte diz que ele não foi.
Texto bíblico João 11:1–6 · João 11:17–21 · João 11:35
Enviaram pois suas irmãs uma mensagem a ele, dizendo: Senhor, eis que aquele a quem tu amas está doente.
Elas não pedem nada. Não há pedido na mensagem, nem instrução, nem um por favor venha. Elas dizem quem está doente e o que ele sente por aquele homem, e deixam o resto com ele. É uma das orações mais dignas da Bíblia, e quem já sentou ao lado de uma cama de hospital sem saber mais o que dizer já orou algo parecido.
Então João escreve duas frases que precisam ser lidas juntas, porque é evidente que foi assim que ele as escreveu.
E Jesus amava a Marta, e a sua irmã, e a Lázaro. Quando, pois, ele ouviu que estava doente, ficou ainda dois dias no lugar onde estava.
A palavra entre as duas
A ligação não é acidental e não é suavizada no grego. A frase da demora começa com um conectivo que significa portanto, por causa disso. João colocou o amor e a espera numa relação de causa e deixou assim, sem explicar.
Ele os amava. Portanto ficou.
Não é assim que a gente raciocina. A lógica inteira de pedir ajuda a alguém pressupõe que, se a pessoa se importa, ela vem; e que, se não veio, é porque não entendeu a gravidade. João fecha as duas saídas numa frase só. Jesus entendeu exatamente, e amava, e ficou onde estava.
Quando ele chega, Lázaro já está na sepultura há quatro dias.
As duas irmãs dizem a mesma frase
Marta o encontra primeiro. “Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido.”
Depois Maria sai ao encontro dele, cai a seus pés e diz palavra por palavra a mesma coisa. “Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido.”
Duas mulheres, separadamente, em estados de ânimo diferentes, chegando à frase idêntica. É o que o luto faz com uma ausência. Ele repassa a hipótese contrária tantas vezes que a frase fica lisa de tanto uso.
Repare que Jesus não corrige nenhuma das duas. Não diz que estão erradas quanto aos fatos, e elas não estão. Se ele estivesse ali, Lázaro não teria morrido. Isso é simplesmente verdade, e ele deixa a frase de pé.
Jesus chorou
O versículo mais curto da maioria das Bíblias fica no meio disso.
Ele está prestes a ressuscitar o homem. Ele sabe que está prestes a ressuscitá-lo; disse isso antes de sair. E, no meio de pessoas que choram por uma morte que ele vai reverter em minutos, ele chora também.
Vale segurar essa cena, porque ela elimina a leitura para a qual a gente mais corre. Não é que a demora não tenha importado, nem que o luto fosse desnecessário porque tudo ia ficar bem. Ele não trata a tristeza delas como um mal-entendido a ser esperado até passar. Ele entra nela.
Sejam lá para que serviram aqueles dois dias, não foram indiferença, e João não deixa a gente concluir outra coisa.
O que isso não responde
A passagem não diz quanto vai durar a sua espera, e não promete o mesmo final. Lázaro foi ressuscitado. A maioria das pessoas pelas quais oramos não é.
O que ela faz é retirar uma conclusão específica. Quando a ajuda demora, a dedução natural é que fomos esquecidos, ou que a situação não era urgente o bastante para mover alguém. João bloqueia essa dedução logo no começo do capítulo e nunca mais reabre. O amor foi estabelecido antes de a demora começar, e a demora foi por causa dele.
O que deixa a pergunta mais difícil e melhor. Não se você é amado durante a espera, porque isso já foi respondido. Mas para que serve a espera, coisa que João acaba contando e que as irmãs não tinham como saber enquanto ela acontecia.
Você provavelmente está na mesma posição delas, parado na parte do capítulo que ainda não foi explicada.
Oração
Deus, tenho lido o teu silêncio como ausência. Corrige-me onde eu estiver errado nisso.
E onde eu apenas estiver de luto, não me apresses.
Amém.
A demora não é prova contra o amor. João coloca os dois na mesma frase de propósito.
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