Estudo Bíblico
O Parente Que Ficou Sem Nome
Na porta de Belém, diante de dez anciãos, um homem tinha o direito de resgatar a terra de Elimeleque e a chance de suscitar o nome de um morto. Ele recusou, e o narrador guardou o nome dele para si.
Texto bíblico Rute 4:1–12 · Rute 4:13–22 · Deuteronômio 25:5–10 · Levítico 25:23–28 · Jeremias 32:6–12 · Gênesis 38:8–30
Quem lê Rute 4 na Bíblia Livre encontra uma palavra que parece fora de lugar num texto sagrado. Boaz, sentado à porta da cidade, vê passar o parente de quem tinha falado e chama: “Ei, fulano, vem aqui e senta-te” (4:1).
Fulano. A tradução é mais fiel do que parece. O hebraico diz peloni almoni, expressão que não é nome de ninguém: é o que se diz quando, de propósito, não se quer dizer o nome.
O capítulo está cheio de nomes. Boaz, Noemi, Elimeleque, Quiliom e Malom. Raquel e Lia, Judá, Tamar e Perez. No fim, uma genealogia de dez gerações que termina em Davi. Um único homem fala, decide, tira o sapato e sai da história sem nome.
A pergunta do texto
Por que um homem que diz “Eu redimirei” no versículo 4 diz “Não posso redimir” no versículo 6? E por que o narrador, que na mesma cena registra o nome de três mortos, se recusa a registrar o dele?
Da eira para a porta
O capítulo 3 é noturno e escondido: Rute “desceu” à eira (3:6). O capítulo 4 começa com o movimento contrário: “Boaz subiu à porta da cidade” (4:1). A BLIVRE conserva aqui o verbo hebraico (ʿalah), que algumas traduções simplificam. A história sai da escuridão para a luz do dia, da conversa em voz baixa para o único lugar da cidade onde as coisas se resolviam na frente de todo mundo.
Boaz já tinha apontado para esse lugar. Na eira ele disse a Rute: “toda a porta de meu povo sabe que és mulher virtuosa” (3:11). A BLIVRE, de novo, segue o hebraico ao pé da letra: “a porta” é a cidade reunida para julgar, e ela já sabe quem Rute é. Boaz também jura: “se ele não te quiser redimir, eu te redimirei, vive o SENHOR” (3:13). Noemi, que conhecia o homem, fecha o capítulo dizendo que ele “não parará até que hoje conclua o negócio” (3:18).
A porta como tribunal
No Antigo Testamento, a porta é onde os anciãos se sentam e onde a lei vira assunto público. O filho rebelde é levado “aos anciãos de sua cidade, e à porta do lugar seu” (Deuteronômio 21:19). Amós resume a exigência de Deus assim: “praticai justiça na porta da cidade” (Amós 5:15). E o marido da mulher virtuosa de Provérbios “é famoso às portas da cidade”, onde “se senta com os anciãos da terra” (Provérbios 31:23).
A cena de Rute 4:1–2 é montada com cuidado de cartório. Boaz se senta. “Eis que passava aquele parente”: a mesma expressão, “eis que”, com que a BLIVRE anuncia em 2:4 a chegada de Boaz ao campo, justo quando Rute estava lá. Boaz manda o homem sentar, e ele senta. Toma dez anciãos e diz “Sentai-vos aqui”, e eles se sentam. Quando se fala de terra pela primeira vez, já há um tribunal formado.
Nenhuma lei da Torá exige dez. O Talmude Babilônico (Ketubot 7b) usaria depois Rute 4:2 para exigir dez homens nas bênçãos de casamento, o que é interpretação posterior, mas mostra como os antigos ouviam a cena: um ato público que precisava de testemunhas. Boaz diz duas vezes “Vós sois hoje testemunhas” (4:9, 4:10), e o povo responde: “Testemunhas somos”.
O paralelo bíblico mais próximo está em Jeremias 32. Hanameel oferece ao primo profeta a sua propriedade em Anatote, “pois tu tens o direito de resgate para comprá-la” (32:7). No versículo seguinte ele insiste, e as duas palavras hebraicas que usa, qeneh-lakh, “compra para ti”, são exatamente as que o parente diz a Boaz em Rute 4:8. A BLIVRE traduz uma vez com “compra” e outra com “Toma-o tu”, o que esconde a coincidência. Jeremias assina um documento selado, e o parente de Rute tira o sapato, mas nos dois casos há testemunhas e o que está em jogo é manter a terra na família.
Como eram essas portas, e o que não dá para afirmar
Em Dã, no extremo norte, as escavações de Avraham Biran revelaram um complexo de portas da Idade do Ferro, com porta externa, pátio pavimentado e porta interna. No pátio havia o que o escavador chamou de “banco dos anciãos”, ao lado de uma estrutura com dossel e de uma instalação com cinco pedras erguidas, em fases que Biran datou dos séculos IX e VIII a.C. Em Berseba, no sul, Ze’ev Herzog descreveu câmaras de porta abertas para a passagem e equipadas com bancos embutidos, junto a uma praça.
As ressalvas pesam tanto quanto as pedras. As grandes portas de seis câmaras de Megido, Hazor e Gezer já foram atribuídas com toda a confiança a Salomão, e essa datação é contestada há décadas; David Ussishkin, entre outros, defende que a porta de Megido é bem mais tardia. Há outro limite: Dã e Berseba eram centros administrativos. Belém era uma cidade pequena, e nenhuma porta da Idade do Ferro foi escavada lá. O que a região rendeu para esse período é sobretudo funerário, uma necrópole a sudeste da cidade documentada em escavações de salvamento da Universidade Sapienza de Roma com arqueólogos palestinos. Uma bula de argila, do fim do século VIII ou do VII a.C., anunciada em 2012 a partir de escavações em Jerusalém, é lida como menção a Belém enviando um carregamento ao rei.
A própria Bíblia dá uma porta a Belém: Davi deseja beber “da água da cisterna de Belém, que está à porta” (2 Samuel 23:15). Mesmo assim, a porta de Rute deve ser imaginada como a entrada de uma cidade pequena, com um lugar para sentar, e não como a portaria monumental de uma fortaleza real.
O narrador também escreve de longe. O versículo 7 apresenta o sapato como um costume que “havia já de longo tempo” em Israel, um aparte para leitores que já não o praticavam. A história se passa “nos dias que governavam os juízes” (1:1), mas foi contada a um público posterior; as propostas de data vão da monarquia ao período persa.
Leitura atenta: como Boaz conduz o caso
Boaz começa pela terra, não por Rute. “Noemi, que voltou do campo de Moabe, vende uma parte das terras que teve nosso irmão Elimeleque” (4:3). Frederic Bush defende que ela provavelmente cedia o direito de uso e de resgate, mais do que vendia a terra no sentido moderno.
Depois vem um eco que nenhuma tradução consegue manter inteiro. Onde a BLIVRE diz “decidi fazê-lo saber a ti” (4:4), o hebraico diz, ao pé da letra, algo como “pensei em descobrir o teu ouvido”. O verbo é galah, o mesmo de 3:4, quando Noemi diz a Rute que “descobrirás os pés” de Boaz, e de 3:7, quando ela “revelou os pés”. Na noite anterior, Rute descobriu Boaz. De manhã, Boaz descobre o assunto diante do homem que tem a precedência.
A resposta vem firme: “Eu redimirei”, com o pronome destacado no hebraico, como na boca de Boaz quando jurou a Rute (3:13). Por uma frase, parece que o herói do capítulo vai ser o outro.
O versículo 5 vira o jogo: “O mesmo dia que tomares as terras da mão de Noemi, hás de tomar também a Rute moabita, mulher do defunto, para que suscites o nome do morto sobre sua possessão.”
É um dos versículos mais difíceis do livro. O texto hebraico, tal como foi transmitido, diz “e da parte de Rute”, como se a terra fosse comprada de Noemi e de Rute. A BLIVRE, como a Vulgata latina e muitas traduções modernas, lê “também a Rute”, o que pressupõe uma pequena correção; Raanan Eichler argumenta que um copista trocou uma única letra. O verbo tem outro problema. O texto escrito diz “eu adquiro”, e a leitura tradicional anotada na margem diz “tu adquires”. A maioria dos comentaristas fica com “tu adquires”, como a BLIVRE (“hás de tomar”). Uma minoria, entre eles D. R. G. Beattie e, mais recentemente, Gary Rendsburg, defende “eu adquiro”: Boaz estaria anunciando que ele mesmo tomaria Rute.
Em qualquer leitura, a terra agora vem com uma viúva e com um futuro filho que levaria o nome de um morto.
Por que ele recusou
“Não posso redimir por minha parte, porque lançaria a perder minha propriedade” (4:6).
A explicação moderna mais comum, defendida por Robert Hubbard e Frederic Bush, é econômica. O parente pagaria pelo campo de Elimeleque, sustentaria duas viúvas e geraria um filho que legalmente pertenceria à linhagem de Malom e levaria o campo consigo. O custo sairia do que os filhos dele mesmo iam herdar.
Os leitores antigos deram outras respostas. O Targum aramaico põe na boca dele que já tem mulher e não pode tomar outra, para não haver briga em casa. O midrash Rute Rabá o imagina com medo de casar com uma moabita, já que Deuteronômio 23:3 diz que “não entrará amonita nem moabita na congregação do SENHOR”, sem saber da regra, registrada na Mishná (Yevamot 8:3), de que a proibição valia só para os homens. Josefo, no século I d.C., fundiu a história com Deuteronômio 25 e pôs Rute desatando o sapato do homem e cuspindo no rosto dele, coisa que o texto bíblico não diz.
Nada no livro chama esse homem de perverso. Ele segue o rito e abre mão do direito em público. Mas o narrador deixa um verbo falar. Por trás de “lançaria a perder” está o hebraico shachat, arruinar, destruir. A mesma raiz aparece em Gênesis 38:9, onde Onã, sabendo “que a descendência não havia de ser sua”, “derramava em terra, para não dar descendência a seu irmão”. A BLIVRE traduz os dois lugares de formas bem diferentes, e com razão. Mas três versículos depois da recusa, os anciãos abençoam Boaz com “a casa de Perez, o que Tamar deu a Judá” (4:12), e o próprio livro nos manda de volta a Gênesis 38.
O parente não é Onã. Não engana ninguém. O raciocínio é que tem o mesmo formato: um filho que não vai contar como seu é prejuízo a evitar.
Rute 4 e a lei do cunhado
Na BLIVRE, a semelhança entre Rute 4 e Deuteronômio 25:5–10 salta aos olhos. Lá, a viúva vai “à porta aos anciãos” e diz: “Meu cunhado não quer suscitar nome em Israel a seu irmão” (25:7). Aqui, Boaz fala em “suscitar o nome do defunto” (4:10). Lá, a mulher descalça o homem e diz: “Assim será feito ao homem que não edificar a casa de seu irmão” (25:9). Aqui, os anciãos pedem que Rute seja como Raquel e Lia, “as quais duas edificaram a casa de Israel” (4:11). Lá, a família do que recusou passa a se chamar “A casa do descalço” (25:10); aqui, o parente “descalçou seu sapato” (4:8).
Nesse último ponto, porém, a BLIVRE aproxima os textos mais do que o hebraico. Deuteronômio usa o verbo chalats, e Rute usa outro, shalaf. A coincidência de “descalçar” é da tradução. As outras duas, “suscitar nome” e “edificar a casa”, estão de fato no hebraico.
As diferenças são maiores do que costumam aparecer nos sermões. Deuteronômio trata de irmãos que “estiverem juntos”; Boaz e o outro são parentes mais distantes. Lá, a viúva tira o sapato do homem e lhe cospe no rosto. Aqui, o próprio homem tira o sapato, ninguém cospe, Rute nem está presente, e a única marca que fica sobre ele é o silêncio do narrador. E em 4:7 o narrador não explica o sapato citando Moisés: diz que era um costume antigo “na remissão ou contrato”.
De Levítico 25 vem o resgate da terra, porque “a terra não se venderá definitivamente, porque a terra minha é” (Levítico 25:23). De Deuteronômio 25 vem a preocupação de que o nome de um morto não seja apagado. Nenhuma lei obriga quem resgata uma terra a casar com uma viúva. Elsie Stern lê o livro como reflexo de um direito costumeiro de parentesco, e não da letra de Deuteronômio; outros acham que foi Boaz quem juntou as duas obrigações ali na porta. O texto não resolve. Mas fica claro o que o parente estava disposto a fazer: resgatar um campo, não edificar uma casa.
A mesma palavra para Boaz e para Deus
Em português quase não se percebe que Boaz e Deus recebem, no hebraico, o mesmo título. A palavra é go’el. Em Rute, a BLIVRE a traduz quase sempre por “parente”: “Nosso parente é aquele homem, e de nossos remidores é” (2:20), “porquanto és parente próximo” (3:9), “há parente mais próximo que eu” (3:12), e “aquele parente” que passa pela porta (4:1). Em Levítico 25:25 a mesma palavra vira “resgatador”: “virá o resgatador, seu próximo, e resgatará o que seu irmão houver vendido”. Em Números 35:19 é “O parente do morto”, o vingador do sangue. E em Isaías 41:14 e Jó 19:25 vira “Redentor”, com maiúscula: “teu Redentor, o Santo de Israel”; “eu sei que meu Redentor vive”.
Não há erro nessas escolhas. Um go’el era mesmo o parente com o dever de agir quando alguém da família perdia a terra, a liberdade ou a vida. O hebraico só deixa ver melhor que profetas e poetas pegaram a palavra desse parente e a deram a Deus.
Há mais um eco na noite da eira. Rute pede: “estende a borda de tua capa sobre tua serva” (3:9). “Borda” traduz kanaf, a mesma palavra de 2:12, quando Boaz abençoou Rute por ter vindo “cobrir-te debaixo de suas asas”, as asas do SENHOR. Boaz tinha pedido que Deus a abrigasse. Rute pede que Boaz seja parte da resposta.
O que quase ninguém percebe
O marido de Rute só é nomeado na porta. O capítulo 1 conta que os filhos de Noemi se casaram com Orfa e Rute, mas não diz quem casou com quem. Só em 4:10 Boaz declara que toma “a Rute moabita, mulher de Malom”. O nome do morto é dito em público no exato momento em que está sendo preservado.
O último “parente” do livro é um bebê. Quando as mulheres dizem “Louvado seja o SENHOR, que fez que não te faltasse hoje parente” (4:14), a palavra hebraica é de novo go’el, e elas estão falando do recém-nascido Obede. Boaz resgatou a terra. É a criança que será “restaurador de tua alma, e o que sustentará tua velhice” (4:15).
Essa bênção responde à queixa de Noemi. No capítulo 1 ela disse: “Eu me fui cheia, mas vazia me fez voltar o SENHOR” (1:21). No hebraico, “fez voltar” vem do verbo shuv. E “restaurador” em 4:15 é uma forma do mesmo verbo: a criança é aquele que faz a vida voltar. O livro que começou com Noemi trazida de volta vazia termina com alguém que traz de volta a vida dela.
Rute e a mulher de Provérbios 31 têm o mesmo título. Boaz diz que Rute é “mulher virtuosa” (3:11), e Provérbios 31:10 abre com “Mulher virtuosa, quem a encontrará?”. A BLIVRE preserva a ligação, e no hebraico as duas expressões são idênticas, eshet chayil. No Códice de Leningrado, o manuscrito que serve de base às edições acadêmicas da Bíblia Hebraica, Rute vem logo depois de Provérbios: o poema da mulher virtuosa cujo marido “se senta com os anciãos” é seguido pela história da mulher virtuosa cujo resgatador se senta com os anciãos. O Talmude (Bava Batra 14b) conhecia outra ordem, então a sequência é tradição, não plano dos autores. Mas é uma tradição que leu bem.
“Fulano” é parente distante do hebraico. A expressão peloni almoni aparece em outros lugares quando alguém prefere não revelar algo: o “certo lugar” que Davi marcou com seus criados (1 Samuel 21:2), o “tal e tal lugar” onde o rei da Síria ia acampar (2 Reis 6:8). Boaz certamente chamou o homem pelo nome; quem decidiu não repassá-lo foi o narrador. E a escolha da BLIVRE tem uma graça a mais. O léxico de Brown, Driver e Briggs registra para peloni formas aparentadas em aramaico e em árabe, e o nosso “fulano”, segundo o dicionário Priberam, vem do árabe fulan. Tudo indica que as duas palavras são da mesma família. O homem que não quis suscitar o nome de um morto ficou, em português, com o nome de qualquer um.
O sentido teológico
Os personagens de Rute falam de Deus o tempo todo. Na voz do próprio narrador, porém, Deus age só duas vezes: no começo, quando “o SENHOR havia visitado a seu povo para dar-lhes pão” (1:6), e aqui, quando “o SENHOR lhe deu que concebesse” (4:13). Tudo o que acontece no meio passa por uma colheita, um plano de sogra, uma conversa de madrugada e uma audiência pela manhã.
Essa discrição é a teologia de Rute 4. A fidelidade de Deus chega a Noemi e a Rute por um procedimento legal conduzido por um homem disposto a arcar com o custo. Boaz não faz milagre na porta. Reúne testemunhas, expõe o caso com honestidade e aceita a despesa que o outro recusou. O hesed, o amor leal que o livro não se cansa de elogiar, tem muito de integridade em assunto público, a favor de gente que não pode agir por conta própria.
O final amplia o quadro. Uma mulher de Moabe, povo que Deuteronômio 23:3 exclui da congregação, é abençoada na porta de Belém para edificar uma casa como Raquel e Lia. O livro não discute com Deuteronômio. Conta uma história cuja última palavra é Davi e deixa o leitor pensar sobre quem pertence ao povo de Deus.
Conexão cristológica
Explícita. A genealogia de Mateus diz que “Boaz gerou de Rute a Obede” (Mateus 1:5), ao lado de Tamar e Raabe, e Lucas passa por “filho de Obede, filho de Boaz” (Lucas 3:32). O Novo Testamento põe a genealogia de Rute 4:17–22 na ascendência de Jesus, filho de Davi.
Canônica e tipológica. O Antigo Testamento dá a Deus o título de go’el, e Paulo escreve que Deus enviou o seu Filho “para redimir os que estavam sob a Lei” (Gálatas 4:5). Ver em Boaz a figura de um resgatador que assume o custo que outro recusou é uma analogia legítima, desde que seja chamada de analogia. O Novo Testamento nunca cita Rute 4 para explicar a obra de Cristo.
Não autorizada. Uma velha tradição alegórica transforma o parente sem nome em símbolo da Lei, que não pode redimir. Nada no texto sustenta essa leitura.
Para hoje
A maioria de nós se reconhece mais no parente sem nome do que em Boaz. Ele não é cruel. É prudente. Ajudaria, mas não à custa do que está construindo para os próprios filhos. É uma posição respeitável, e é justamente a que o livro se recusa a honrar com um nome.
Rute não aparece na porta. O futuro dela é decidido numa reunião a que ela não foi, entre homens discutindo um campo. O que a protegeu foi um homem que se importava com ela e aceitou agir em público, diante de testemunhas, e ficar preso ao que disse ali. Muita gente que precisa dessa fidelidade também não está na sala onde a própria vida é decidida.
Para quem se sente como a Noemi do capítulo 1, o livro guarda uma esperança sem alarde. A restauração dela veio como uma criança no colo, e como um nome que chegou até Davi.
Para refletir
- O parente não desrespeitou lei nenhuma. Em que ponto a minha prudência vira proteção do que é meu à custa de outra pessoa?
- O futuro de Rute foi decidido numa reunião em que ela não estava. Quem depende de mim para agir por ela em salas onde nunca vai entrar?
- Boaz levou o assunto a público e se comprometeu diante de testemunhas. Existe algum compromisso que eu mantenho em segredo para poder deixá-lo de lado sem ninguém ver?
- Noemi disse que o SENHOR a fez voltar vazia, e o livro termina com uma criança no colo dela. Como eu reajo quando Deus restaura devagar e por meios comuns?
- No hebraico, Boaz e Deus recebem o mesmo título, go'el. O que isso diz sobre o modo como Deus olha para o que eu perdi?
Oração
Senhor, tu és o Redentor daquilo que não conseguimos resgatar sozinhos.
Onde eu protegi a minha herança à custa da herança de outro, perdoa-me e dá-me um coração generoso.
Faz-me fiel em público, diante de testemunhas, por quem não está na sala.
Amém.
O homem que protegeu a própria herança é o único do capítulo que ficou sem nome. O homem que gastou a sua ficou lembrado na linhagem de Davi.
Fontes e notas
Consultado durante a escrita deste texto. Nada é listado aqui sem ter sido usado.
- Bíblia Livre (BLIVRE), 2018 texto primário
- Texto hebraico de Rute 4, Miqra according to the Masorah (Sefaria) texto primário
- Targum de Rute 4:6-8, trad. Samson H. Levey (Sefaria) texto primário
- Rute Rabá 7:7-12 (Sefaria Midrash Rabbah, 2022) texto primário
- Talmude Babilônico, Ketubot 7b e Bava Batra 14b (edição William Davidson, Sefaria) texto primário
- Mishná, Yevamot 8:3 (edição William Davidson, Sefaria) texto primário
- Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 5.332-335, trad. William Whiston texto primário
- Notas dos tradutores da NET Bible sobre Rute 3–4 (Biblical Studies Press) comentário
- Frederic W. Bush, Ruth, Esther, Word Biblical Commentary 9 (Word, 1996) comentário
- Robert L. Hubbard Jr., The Book of Ruth, New International Commentary on the Old Testament (Eerdmans, 1988) comentário
- Raanan Eichler, Acquiring Ruth with the Land: A Text-Critical Solution for Ruth 4:5, TheTorah.com comentário
- Gary A. Rendsburg, Boaz Married Ruth at the Threshing Floor: A Grammatical Solution to Ruth 4:5, TheTorah.com comentário
- Elsie R. Stern, Kinship over Covenant: The Book of Ruth’s Traditional Challenge to Deuteronomy, TheTorah.com estudo histórico
- F. Brown, S. R. Driver e C. A. Briggs, A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament (Clarendon, 1906), verbete peloni léxico
- Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, verbete fulano léxico
- Avraham Biran, Dan, em The New Encyclopedia of Archaeological Excavations in the Holy Land (Israel Exploration Society) relatório de escavação
- Ze’ev Herzog, Israelite City Planning, Expedition 20.4 (1978), Penn Museum relatório de escavação
- David Ussishkin, The So-Called Solomonic City-gate at Megiddo, ASOR Blog (2013) estudo histórico
- L. Nigro et al., Protecting and rehabilitating the archaeology of Bethlehem, Antiquity (2018) relatório de escavação
- Bible History Daily, History of Bethlehem Documented by First Temple Period Bulla from the City of David (2012) relatório de escavação
- Biblia Hebraica Stuttgartensia (Deutsche Bibelgesellschaft, 1977), baseada no Códice de Leningrado texto primário
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