Jarro de barro tampado num pátio de pedra, ao lado de um papiro amarrado e selado com argila e uma balança com prata cortada.
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Estudo Bíblico

Uma Escritura para Depois do Cerco

Com o exército da Babilônia diante dos muros e o profeta detido, Deus manda Jeremias comprar um terreno. O capítulo registra a papelada com um cuidado incomum, porque a papelada é a mensagem.

Por Redação EmberKeeper 18 min de leitura

Texto bíblico Jeremias 32:1–15 · Jeremias 32:16–44 · Levítico 25:23–25 · Jeremias 37:11–21 · Jeremias 16:1–4

Jeremias 32 começa com uma data, um exército e um homem sob guarda. E, antes de qualquer oração ou promessa, registra a compra de um terreno com um detalhe raro na Bíblia: preço, balança, documento, selo, testemunhas, duas cópias e um vaso de barro.

É estranho gastar tanta tinta com isso enquanto uma cidade passa fome.

O exército babilônico está entrincheirado ao redor de Jerusalém. O profeta que passou anos dizendo que a cidade ia cair está preso no pátio do palácio justamente por dizer isso. E o terreno que ele deve comprar fica poucos quilômetros ao norte, numa região que o inimigo já controla. É o pior negócio de Judá, e é exatamente por isso que o texto desacelera.

A Pergunta Central

A gente costuma imaginar a esperança como algo que acontece por dentro, um estado de ânimo que sobe e desce. Jeremias 32 trata a esperança como algo que se leva ao cartório. A pergunta do capítulo é se uma palavra de Deus é firme o bastante para alguém agir em público, com o próprio dinheiro, quando todos os fatos visíveis dizem o contrário.

Jeremias age. Depois ora, e a oração mostra que ele não entende por completo o que acabou de fazer. Por isso o estudo precisa segurar as duas metades: a transação dos versículos 1–15 e a perplexidade, seguida da longa resposta de Deus, nos versículos 16–44.

O Mundo Histórico

A data. O versículo 1 situa a palavra “no décimo ano de Zedequias rei de Judá, que foi o décimo oitavo ano de Nabucodonosor”. No nosso calendário, isso cai por volta de 588 ou 587 a.C. Judá e Babilônia não contavam necessariamente os anos de reinado do mesmo modo, e a mesma dificuldade envolve a queda da cidade. Rodger Young observa que os estudiosos se dividem quase meio a meio entre 587 e 586 a.C., e na reconstrução dele Jeremias 32:1 é justamente um dos textos que decidem entre sistemas de contagem rivais.

O que os registros babilônicos dizem, e o que não dizem. A Crônica Babilônica guardada no British Museum (BM 21946) relata que, no sétimo ano de Nabucodonosor, ele sitiou “a cidade de Judá”, tomou-a no segundo dia de Addaru, capturou o rei e nomeou ali um rei de sua escolha. É a tomada de 597 a.C., quando Joaquim foi deportado e Zedequias posto no trono. O museu descreve o tablete como uma crônica dos anos 605 a 594 a.C., e depois do décimo primeiro ano o texto se interrompe. Como lembra Young, os registros babilônicos da destruição de Jerusalém não foram encontrados, e quem diz que os anais da Babilônia confirmam Jeremias 32 pede aos tabletes mais do que eles oferecem.

O cerco e a trégua. O cerco começou no nono ano de Zedequias (39:1). Em certo momento foi suspenso, quando o exército do Faraó saiu do Egito (37:5). Nessa pausa Jeremias saiu da cidade “para ir à terra de Benjamim, para ali receber sua parte no meio do povo” (37:12). Foi preso na porta como desertor e espancado. Mais tarde Zedequias o transferiu para o pátio da guarda e mandou que lhe dessem “uma porção de pão por dia, da rua dos padeiros, até todo o pão da cidade ter se acabado” (37:21). Há quem ligue essa viagem frustrada ao terreno do capítulo 32. O texto não faz essa ligação, e não cabe a nós fazê-la por ele.

O pátio da guarda era uma detenção aberta: Hanameel entra para fazer a proposta, e o versículo 12 menciona “todos os judeus que estavam sentados no pátio da guarda”.

Anatote. A cidade de Jeremias ficava logo ao norte de Jerusalém, em Benjamim, e Josué 21:18 a inclui entre as cidades dadas aos sacerdotes. Jeremias vinha dessas famílias sacerdotais (1:1). Anatote era também o lugar onde os conterrâneos tinham ameaçado matá-lo (11:21) e onde os próprios irmãos e a casa de seu pai tinham agido traiçoeiramente contra ele (12:6). Hanameel é dessa casa.

Depois da queda de Jerusalém, os babilônios fizeram de Mispá, também em Benjamim, a sede do governador Gedalias, e Jeremias foi morar ali (40:6). Jeffrey Zorn, especialista nas ruínas de Tell en-Nasbeh, o local mais provável de Mispá, descreve a região de Benjamim como aparentemente poupada pelos babilônios para servir de base de operações. Jeremias não tinha como saber disso quando pagou.

Lendo a Transação de Perto

A palavra vem antes da batida na porta. O SENHOR avisa que Hanameel vai chegar dizendo: “Compra para ti minha propriedade que está em Anatote; pois tu tens o direito de resgate para comprá-la” (v. 7).

Depois vem a visita, e o reconhecimento. Hanameel chega com quase as mesmas palavras, e Jeremias anota: “Então entendi que isto era a palavra do SENHOR” (v. 8). Ele não diz que tinha certeza antes. A certeza chega junto com o primo. É um relato modesto de como Deus guia: uma palavra em particular, confirmada por um parente com um pedido prático.

O pagamento e o procedimento. “Pesei para ele o dinheiro: dezessete siclos de prata. E assinei o documento, e o selei, e o fiz testemunhar a testemunhas; e pesei o dinheiro em balanças” (vv. 9–10). Jeremias entrega o documento selado, “que continha os termos e condições”, e a cópia aberta a Baruque, filho de Nerias. Nos versículos 12 e 13 a expressão “diante da vista” aparece quatro vezes: de Hanameel, das testemunhas, dos judeus no pátio, e de novo “diante da vista deles”. O gesto foi montado para ficar na memória de outras pessoas.

A ordem e o motivo. Baruque deve pôr os documentos “em um vaso de barro, para que durem muitos dias” (v. 14), porque “ainda se comprarão casas, campos, e vinhas nesta terra” (v. 15).

A frase não diz que Jeremias vai cultivar Anatote nem que vai pisar de novo naquele chão. O documento foi feito para durar mais que o cerco, e talvez mais que o próprio comprador.

O Direito de Resgate

A base legal está em Levítico 25: “E a terra não se venderá definitivamente, porque a terra minha é; que vós peregrinos e estrangeiros sois para comigo” (25:23). Se um israelita empobrecesse e vendesse parte da sua possessão, “virá o resgatador, seu próximo, e resgatará o que seu irmão houver vendido” (25:25). Esse parente é o go’el, o papel que Boaz assume em Rute 4.

O caso de Jeremias é parecido, mas não idêntico. Em Levítico o parente recompra o que já foi parar nas mãos de outro. Aqui Hanameel oferece a terra primeiro ao parente, e ela fica no clã antes de sair dele. O texto não diz por que ele precisava vender. Um cerco é motivo suficiente para preferir prata a terra.

Fica um enigma sem solução. Levítico 25:34 diz que “a terra dos arredores” das cidades dos levitas “não se venderá”, e Anatote era uma dessas cidades. Se a propriedade de Hanameel era esse tipo de terra, ou se a prática da época já tinha se afastado da lei, simplesmente não sabemos.

Notas de Língua

Mishpat ha-ge’ullah (v. 7). A Bíblia Livre traduz “direito de resgate”. Mishpat é a palavra comum para justiça e direito. Antes de ser imagem teológica, o resgate é um dever de família que se pode exigir. A mesma raiz hebraica, g-’-l, está por trás do “resgatador” de Levítico 25:25 e do “teu Redentor, o Santo de Israel” de Isaías 41:14. Em português são três palavras diferentes; em hebraico é uma família só.

Propriedade e campo. Nos versículos 7 a 9 a Bíblia Livre diz “propriedade” e no 25 diz “campo”, mas o hebraico usa sempre sadeh, a palavra comum para campo cultivável.

Dinheiro e prata. No versículo 9 a Bíblia Livre usa as duas palavras. O hebraico kesef significa prata e, por extensão, dinheiro, porque era com prata que se pagava.

“Para que durem muitos dias” (v. 14). Aqui a Bíblia Livre fica bem perto do hebraico, lema’an ya’amdu yamim rabbim, literalmente “para que fiquem de pé muitos dias”. Os documentos vão para um kli-cheres, um vaso de barro, e devem continuar de pé.

“Ainda se comprarão” (v. 15). O hebraico diz ‘od yiqqanu. O verbo vem da raiz q-n-h, comprar, que forma também miqnah, “compra”, em “documento de compra”. Contando todas as formas, essa raiz aparece catorze vezes no capítulo. A esperança de Jeremias 32 está escrita no vocabulário do mercado.

Difícil demais (vv. 17, 27). Jeremias ora: “não há coisa alguma que seja difícil para ti”. Deus responde: “Existe, por acaso, algo difícil demais para mim?” Nos dois casos o verbo é pala’, ser extraordinário, estar fora de alcance, o mesmo de Gênesis 18:14 sobre o filho de Sara. Deus devolve o credo de Jeremias em forma de pergunta, no momento em que o profeta está menos seguro dele.

Infortúnio ou cativeiro (v. 44). O capítulo termina com ashiv et-shevutam, que a Bíblia Livre traduz “eu os restaurarei de seu infortúnio”. Outras traduções preferem “cativeiro”. O sentido de shevut é debatido, e os dois cabem num povo à beira do exílio.

Arqueologia: o Que Ilumina e o Que Não Prova

Nenhuma escavação confirma que Jeremias comprou um terreno. A arqueologia mostra o tipo de objeto que o capítulo supõe conhecido.

Prata pesada. Tzilla Eshel, pesquisadora de tesouros de prata antigos, descreve o siclo como uma unidade de peso de cerca de 11,33 gramas, calculada a partir dos pesos de pedra inscritos de Judá dos séculos VIII e VII a.C., e lembra que as moedas só chegaram ao sul do Levante no período persa. O estudo de Raz Kletter sobre o sistema de pesos de Judá se apoia em centenas desses pesos. Dezessete siclos dão um pouco menos de duzentos gramas de prata. Se foi barato ou generoso, não dá para dizer, porque o texto não informa o tamanho do terreno.

Selos, e o fogo que os conservou. Um documento selado na Jerusalém de Jeremias era, em geral, um papiro dobrado ou enrolado, amarrado e fechado com um pouco de argila marcada por um selo. O papiro quase nunca sobrevive na região montanhosa, mas a argila queimada sim. Nas escavações de Yigal Shiloh na Cidade de Davi, um edifício destruído no incêndio babilônico de Jerusalém revelou um conjunto dessas bulas, publicado no relatório final da escavação; os documentos que elas fechavam viraram cinza. Uma traz o nome de Gemaryahu, filho de Safã, e em Jeremias 36:10 Baruque lê o rolo de Jeremias “na câmara de Gemarias, filho de Safã, o escriba”. É um achado de escavação controlada.

Uma cópia selada e outra aberta. Na Mesopotâmia, um contrato escrito em tablete de argila podia ser guardado dentro de um envelope também de argila. Cécile Michel descreve envelopes de contrato com os selos das partes e das testemunhas e um resumo substancial do conteúdo, e os Harvard Art Museums guardam uma venda de terra do século XVIII a.C. nesse formato, com o mesmo texto no tablete e no envelope. Nos papiros jurídicos gregos do Egito, como explica W. Graham Claytor, o texto interno de um documento duplo podia ser enrolado, amarrado e selado, com os nomes das testemunhas escritos em volta dos selos. Muitos contratos do arquivo de Babata, judia do século II d.C. cujos papéis foram achados numa bolsa de couro perto do Mar Morto, seguem esse modelo. A lógica é sempre a de Jeremias: uma cópia para consulta, outra lacrada contra fraude.

Uma escritura de Elefantina. Entre os papiros aramaicos da comunidade judaica de Elefantina, no Egito, um documento do Brooklyn Museum registra Ananias doando uma casa à filha Yehoishema em 402 a.C. Segundo o catálogo, o papiro chegou intacto: dobrado, amarrado com fio de linho e fechado com um selo de barro que ainda guarda as impressões digitais de quem o selou. Não é um documento duplo, e não foi achado num vaso. O que ele tem em comum com Jeremias 32 é o essencial: o título de propriedade de uma família, escrito, selado e guardado.

Vasos de barro. O exemplo mais famoso vem séculos depois: a Leon Levy Dead Sea Scrolls Digital Library registra que os rolos mais bem conservados da Caverna 1 de Qumran teriam sido protegidos por jarros altos de barro, com as tampas intactas. É uma ilustração, não um paralelo direto, mas mostra que a ordem dada a Baruque era prática.

A bula de Baruque. Em 1978 Nahman Avigad publicou uma bula com a inscrição “Pertencente a Berekhyahu, filho de Neriyahu, o escriba”, formas mais longas de Baruque e Nerias. Ela veio do mercado de antiguidades, sem local de achado conhecido, e mais tarde apareceu uma segunda impressão do mesmo selo. Durante anos passaram por assinatura do próprio Baruque. Hoje são seriamente contestadas. Christopher Rollston e Heather Dana Davis Parker defenderam em 2005 que as bulas de Baruque são falsificações modernas, apontando anomalias na escrita. Em 2014 Yuval Goren e Eran Arie compararam as duas com mais de 180 bulas, a maioria de Jerusalém, e concluíram que são produções modernas. Em 2016 Pieter van der Veen, Robert Deutsch e Gabriel Barkay responderam que esses argumentos não se sustentam. Sem contexto arqueológico, considerado falso por especialistas sérios e defendido por outros, o objeto não deve sustentar peso nenhum num estudo de Jeremias.

Baruque, Filho de Nerias

O versículo 12 é a primeira aparição de Baruque no livro, e ele chega com avô: “filho de Nerias, filho de Maasias”. Essa dupla de nomes só volta com “Seraías, filho de Nerias, filho de Maasias”, o oficial que foi à Babilônia com Zedequias (51:59), de modo que Seraías muito provavelmente era irmão de Baruque. Baruque escreve o rolo ditado por Jeremias (36:4), reescreve tudo depois que o rei o queima (36:32) e acaba levado ao Egito com o profeta (43:6). No capítulo 32 ele é o guardião de um documento cujo cumprimento nenhum dos dois devia ver.

O Que Quase Todo Leitor Deixa Passar

A promessa repete a papelada. O versículo 44 diz: “Campos serão comprados por dinheiro, e se assinarão documentos, e os selarão, e farão testemunhas testificarem, na terra de Benjamim”. No hebraico são os mesmos verbos do versículo 10: escrever, selar, fazer testemunhar. Deus descreve o futuro citando o procedimento que Jeremias acabou de cumprir. A restauração vai ter cara de cartório, e uma compra feita num pátio de prisão vira o modelo.

O comprador não tinha herdeiros. Em 16:2 o SENHOR tinha ordenado: “Não tomes para ti mulher, nem tenhas filhos nem filhas neste lugar.” Um homem sem filhos compra a terra da família num país prestes a ser esvaziado. Não era herança para os descendentes dele. Era a afirmação pública de que a própria terra tinha futuro.

Ele comprou da família que o traiu. O livro não conta se essa ferida foi curada. Registra apenas que, quando um primo daquela casa precisou de comprador, Jeremias pagou o preço inteiro, diante de testemunhas.

A oração não tem fecho. A oração de Jeremias (vv. 17–25) passa pela criação, pelo êxodo, pelo dom da terra e pela desobediência de Israel, e termina quase no meio do raciocínio: “Porém tu, ó Senhor DEUS, me disseste: Compra para ti o campo por dinheiro, e faze com que testemunhas testemunhem; mesmo estando a cidade já entregue nas mãos dos caldeus?” A Bíblia Livre pontua como pergunta; o hebraico não tem marca de interrogação ali, mas o tom é esse mesmo. Não há pedido final. Ele obedeceu e ainda está tentando entender aquilo que obedeceu, e a Escritura guarda essa oração sem enfeitá-la.

Deus não suaviza o juízo primeiro. Os versículos 26–35 confirmam que a cidade vai arder e enumeram os motivos. Só depois vem a promessa: ajuntar o povo, dar-lhe um só coração, fazer um pacto eterno, e “fielmente os plantarei nesta terra, com todo meu coração e com toda a minha alma” (v. 41). O versículo 42 junta as duas coisas numa frase só: “Assim como trouxe sobre este povo todo este grande mal, assim também trarei sobre eles todo o bem que eu lhes prometo.”

“O campo”, no singular. O versículo 43 em hebraico diz ve-niqnah ha-sadeh, “e o campo será comprado”. A Bíblia Livre traduz “campos serão comprados”, com razão, porque o singular é coletivo. Mas quem lê o hebraico ouve um eco discreto do versículo 9, em que Jeremias comprou aquele campo de Anatote.

Sentido Teológico

A leitura mais fácil transforma Jeremias num otimista. Ele passou décadas dizendo que a cidade ia cair, estava prestes a ter razão, e o capítulo 32 não retira uma palavra disso.

O que o capítulo oferece é esperança do outro lado do juízo, na forma menos sentimental possível. Sentimento muda de um dia para o outro. Um contrato tem data, preço, assinatura, selo e testemunhas. Quando Deus quis que Judá soubesse que haveria vida na terra depois da Babilônia, não começou pedindo a Jeremias que se sentisse animado. Pediu que ele assinasse um documento.

Isso segue a lógica de Levítico 25. A terra pertence ao SENHOR, o povo a ocupa como peregrino, e o resgatador age para que a herança de uma família não se perca de vez. A compra de Jeremias é um gesto pequeno dentro dessa lei. Os versículos 37–44 o ampliam: o próprio Deus vai ajuntar, plantar e restaurar, e fará com seu povo “um pacto eterno” (v. 40).

O leitor cristão vai ouvir um eco quando Paulo diz aos efésios que foram “selados com o Espírito Santo da promessa, que é a garantia da nossa herança, até a libertação da propriedade de Deus” (Efésios 1:13–14). Paulo não cita Jeremias 32 ali, e é honesto chamar a ligação pelo nome: ressonância canônica, não citação.

E a oração importa. A obediência não tirou a confusão de Jeremias, e Deus não o repreendeu por ela. Respondeu longamente.

Para Viver Hoje

Pouca gente vai comprar terra durante um cerco, mas o gesto continua valendo.

A esperança deste texto tem custo e data. Pode ser manter um compromisso depois que as circunstâncias desabaram, ou plantar, construir e ficar onde os outros estão indo embora, porque Deus disse algo sobre o futuro que o presente ainda não mostra. O teste é perguntar se aquele gesto só faz sentido caso Deus cumpra a palavra.

Ela é pública. Jeremias fez tudo diante do primo, das testemunhas e de um pátio cheio de detidos. A esperança cristã não foi feita para ser um humor particular.

Ela não exige negar a realidade. Jeremias comprou o campo e depois descreveu a Deus, sem rodeios, a cidade cercada. Dá para agir com base numa promessa e ainda dizer o nome do que está pegando fogo.

Ela não depende de recompensa pessoal. O comprador não tinha a quem deixar a terra. Parte do que fazemos pela fé é para gente que nunca vamos conhecer.

E ela deixa espaço para uma oração inacabada. Se a sua obediência andou mais rápido que o seu entendimento, você está em boa companhia, e Deus respondeu a Jeremias.

Numa cidade prestes a arder, Baruque recebeu a ordem de guardar duas cópias de um documento num vaso de barro. Aquele vaso tinha um único propósito: continuar de pé quando o cerco fosse só uma lembrança.

Para refletir

  • Em que área da vida estou esperando me sentir esperançoso antes de agir de acordo com o que Deus já disse com clareza?
  • Como seria uma "escritura" na minha situação: um gesto concreto, com custo e data, que só faz sentido se Deus cumprir a palavra dele?
  • Jeremias obedeceu primeiro e só depois orou a sua perplexidade. Consigo levar a Deus uma oração que não termina arrumadinha?
  • Quem são as testemunhas da minha vida, as pessoas que vão lembrar do que eu assumi?
  • Estou disposto a investir num futuro que talvez eu mesmo não chegue a aproveitar?

Oração

Senhor DEUS, tu fizeste os céus e a terra, e não há coisa alguma que seja difícil para ti.

Quando tudo o que eu vejo diz que a cidade está perdida, ensina-me a agir conforme a tua palavra assim mesmo, de um jeito que outros possam testemunhar.

Guarda-me honesto quando eu obedecer antes de entender.

Planta outra vez o teu povo nesta terra, como prometeste. Amém.

Jeremias não esperou se sentir esperançoso. Pesou a prata, assinou o documento e guardou a promessa num vaso de barro.

Fontes e notas

Consultado durante a escrita deste texto. Nada é listado aqui sem ter sido usado.

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