Devocional
Primeiro a Si Mesmos
As igrejas da Macedônia eram pobres e estavam sob pressão, e pediram a Paulo para poder contribuir. Ele conta a história e depois se recusa a usá-la para pressionar alguém.
Texto bíblico 2 Coríntios 8:1–5 · 2 Coríntios 8:8–13 · Romanos 15:26 · 1 Tessalonicenses 1:6
Também, irmãos, vos fazemos saber a graça de Deus dada às igrejas da Macedônia.
Paulo vai falar de dinheiro, e a primeira palavra que ele escolhe é graça. Dá para achar que é só um jeito delicado de entrar num assunto desconfortável, mas ele está falando sério. Antes de contar o que os macedônios deram, ele conta o que Deus deu a eles.
Quem eram essas igrejas
As igrejas da Macedônia nasceram no meio de problema. Em Filipos, Paulo e Silas foram açoitados e presos com os pés no tronco. Em Tessalônica, uma multidão atacou a casa de Jasão procurando por eles. Em Bereia, gente vinda de Tessalônica foi atrás para incitar o povo. Anos depois, escrevendo aos tessalonicenses, Paulo lembra que eles receberam a palavra “em meio a muita aflição”.
Por isso, quando ele fala de “muita provação de aflição”, não está exagerando nada. E a oferta tinha destino: “os pobres dentre os santos que estão em Jerusalém”, como ele diz em Romanos. Crentes pobres contribuindo para crentes pobres que, na maioria, nunca tinham visto.
Uma conta que não fecha
Que em muita provação de aflição, a abundância de sua alegria, e sua profunda pobreza abundaram nas riquezas de sua generosidade.
Leia como se fosse uma soma. Alegria mais pobreza dá generosidade. A pobreza entra como um dos ingredientes. Paulo não diz que primeiro eles superaram a pobreza e depois ficaram generosos. Diz que a alegria e a pobreza, juntas, transbordaram.
Convém ser claro sobre o que o versículo não diz. Ele não promete que a generosidade deixaria os macedônios prósperos. Não diz que a provação acabou porque eles contribuíram. Paulo descreve a graça agindo em gente pobre, e não diz uma palavra sobre a pobreza deles ter ido embora.
Eles pediram
“Pois dou testemunho de que foram voluntários segundo sua capacidade e até além de sua capacidade, pedindo-nos com muito entusiasmo que aceitássemos a graça e a comunhão deste serviço para os santos.”
Ninguém precisou convencê-los. A insistência partia de quem dava. Repare também que a palavra graça volta no versículo 4. Paulo abriu o capítulo falando da graça dada por Deus, e agora chama a própria contribuição de graça. No grego é a mesma palavra nas duas vezes. Para os macedônios, poder dar já era um presente.
Primeiro a si mesmos
Aí vem a frase que explica o resto.
“E não somente fizeram como nós esperávamos, mas também entregaram a si mesmos, primeiramente ao Senhor, e depois a nós, pela vontade de Deus.”
A ordem importa. Antes de qualquer dinheiro sair para Jerusalém, aquelas pessoas já tinham se entregado. O que chegou lá foi o que naturalmente sai de quem já sabe a quem pertence. Não comprou nada de Deus, e também não foi taxa paga a Paulo.
É aqui que muita conversa sobre contribuição começa pelo lado errado. A gente parte do orçamento e tenta chegar à devoção. Os macedônios partiram da devoção, e o orçamento veio atrás.
O que Paulo se recusa a fazer
Depois de contar essa história, seria fácil transformá-la em pressão. Olhem essas igrejas pobres e sofridas; qual é a desculpa de vocês? Paulo chega bem perto dessa beirada e recua.
“Eu não digo isto como que mandando.” “Porque se existe a boa vontade, a doação é aceitável conforme o que se tem, e não conforme o que não se tem.” “Porque não digo isto para que outros tenham alívio, e vós opressão”. O objetivo, ele explica logo depois, é “que haja igualdade”.
Os macedônios deram além da capacidade. Essa foi a liberdade deles, e Paulo registra com admiração. Mas não transforma o gesto em regra para ninguém. O que ele pede aos coríntios é que concluam o que eles mesmos já tinham começado a querer, conforme o que de fato têm.
E entre o exemplo e a orientação ele coloca o modelo verdadeiro: “que, sendo rico, por causa de vós se fez pobre; para que com a pobreza dele, vós enriquecêsseis”. O movimento é para baixo. Qualquer leitura deste capítulo que termine com a oferta como estratégia para enriquecer virou esse versículo de cabeça para baixo.
Para hoje
Comece por onde eles começaram. Antes de decidir um valor, vem uma pergunta anterior: você já entregou a si mesmo ao Senhor? Fazer essa pergunta primeiro não é fugir do assunto do dinheiro. É o único lugar de onde o assunto faz sentido.
Depois olhe para o que você tem. Não para o que gostaria de ter, nem para o que os outros dão, nem para o que tem medo de precisar mais tarde. Paulo diz que a doação é aceitável conforme isso, e diz para aliviar.
Aperto e dificuldade não impediram os macedônios de serem generosos, e também não vão impedir você. Mas se contribuir virou quase só culpa, vale voltar ao versículo 5 e conferir a ordem.
Para refletir
- Se eu começasse por onde os macedônios começaram, entregando a mim mesmo ao Senhor, como ficaria depois a pergunta sobre o dinheiro?
- O que eu de fato tenho hoje, separado do que eu gostaria de ter ou do que tenho medo de não ter amanhã?
Oração
Senhor Jesus, sendo rico, te fizeste pobre por minha causa. Entrego a mim mesmo a ti, primeiro.
Com o que eu tenho, e não com o que me falta, faz-me alegre em dar.
Amém.
O dinheiro dos macedônios veio depois da entrega. Primeiro eles se deram ao Senhor, e a oferta nasceu disso.
Fontes e notas
Consultado durante a escrita deste texto. Nada é listado aqui sem ter sido usado.
- Bíblia Livre (BLIVRE), 2018 (CC BY 4.0) texto primário
- Bible Hub, interlinear grego de 2 Coríntios 8:4 (charis, Strong 5485) interlinear
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