Janela de treliça de madeira aberta numa parede grossa e rebocada de um quarto antigo, com uma esteira de junco gasta no chão logo abaixo.
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Devocional

Como Costumava Fazer

Quando o decreto foi assinado, Daniel não fez nada de novo. É exatamente esse o ponto do versículo.

Por Redação EmberKeeper 5 min de leitura

Texto bíblico Daniel 6:10 · Daniel 6:3–5 · 1 Reis 8:46–49 · Daniel 9:2

E Daniel, quando soube que a escritura estava assinada, entrou em sua casa, e com as janelas de seu quarto abertas, voltadas para Jerusalém, punha-se de joelhos três vezes ao dia, e orava, e confessava diante de seu Deus, assim como costumava fazer antes.

Quando se fala de Daniel 6, a atenção costuma ir direto para a cova. Os leões, a pedra selada com o anel do rei, o rei que passa a noite em jejum e perde o sono. Só que a frase decisiva vem antes, e é quase sem graça. Daniel fica sabendo que fazer petição a qualquer deus ou pessoa que não seja o rei agora dá pena de morte, e vai para casa fazer o que sempre fez.

Não convoca protesto. Não fecha as janelas para orar escondido. Não muda de lugar. O peso do versículo está no final: assim como costumava fazer antes.

A única acusação possível

A trama contra Daniel só funciona por causa de quem ele já era.

Os rivais começam procurando alguma falha no trabalho dele, e não acham nada. O texto diz que “não conseguiram achar acusação ou falta alguma, porque ele era fiel”. Então mudam de estratégia: “Não acharemos acusação alguma contra este Daniel, a não ser se a acharmos contra ele na lei de seu Deus.”

Pense no que isso exige. Eles precisavam conhecer os hábitos de Daniel a ponto de escrever uma lei sob medida. Tinham certeza de que ele ia orar, de que não ia parar por trinta dias e de onde encontrá-lo quando orasse. A honestidade dele no serviço e a fidelidade dele em casa eram tão constantes que os inimigos puderam contar com elas.

É um elogio estranho, mas é elogio.

Antes da crise

O fim do versículo 10 aponta para trás. O que Daniel fez naquele dia ele já fazia havia muito tempo. O texto não diz quando o hábito começou. Sabemos que ele foi levado para a Babilônia ainda rapaz e serviu ali sob mais de um rei, de modo que no tempo de Dario já não era jovem.

Isso muda a leitura da história. O momento que a gente admira não foi um arroubo repentino de coragem. Foi uma prática construída ao longo de anos de dias sem nada de especial, que ninguém se deu ao trabalho de registrar. Quando a pressão veio, a prática simplesmente aguentou.

Quase todo mundo espera estar à altura se uma prova de verdade aparecer. Daniel 6 sugere algo menos lisonjeiro e mais útil: sob pressão, a tendência é fazer o que já se vinha fazendo. A hora de formar o hábito é antes de alguém estar prestando atenção.

Janelas voltadas para Jerusalém

As janelas abertas podem parecer provocação, como se Daniel quisesse ser visto pelos espiões. O texto não apresenta a cena assim. Diz que era o costume dele. Fechar as janelas é que teria sido a novidade.

A direção pesa mais que a visibilidade. Na dedicação do templo, Salomão pediu que, se os israelitas um dia fossem levados cativos e orassem “voltados à sua terra, que deste a seus pais, à cidade que tu escolheste e a casa que edifiquei ao teu nome”, Deus ouvisse dos céus. O costume de Daniel provavelmente nasce dessa oração. No primeiro ano de Dario, o próprio Daniel fala da “assolação de Jerusalém” (Daniel 9:2). Ele se voltava para uma cidade em ruínas que não via desde a juventude, porque Deus tinha prometido ouvir os exilados que fizessem exatamente isso.

Louvor com a sentença assinada

Tem uma palavra no versículo que passa fácil. Daniel orava, e confessava diante de seu Deus.

Confessar, aqui, não é admitir culpa. É o sentido de reconhecer e proclamar, o mesmo de quem “confessa a fé”. O verbo aramaico é o de dar graças e bendizer, e várias traduções trazem “dava graças”. A lei tinha acabado de ser assinada, e Daniel sabia o que significava. O versículo seguinte mostra que ele também pedia socorro, pois os inimigos o encontraram “orando e suplicando diante de seu Deus”. Mas o hábito dele incluía gratidão, e o decreto não cancelou isso. O costume era maior que a emergência.

Para hoje

A aplicação prática não tem nada de heroico. É pequena e um pouco sem brilho.

Escolha um lugar. Escolha um horário, ou dois, ou três. Mantenha esses encontros quando está tudo bem, para que eles já existam quando não estiver. O hábito não compra nada de Deus nem garante o resultado; os amigos de Daniel, no capítulo 3, já tinham dito ao rei “e se não” diante da fornalha. O que o hábito faz é formar alguém que sabe para onde ir.

Quando o seu decreto for assinado, seja qual for a forma que ele tomar, é provável que você faça o que já vinha fazendo. Vale a pena pensar no que é.

Para refletir

  • Se a pressão chegasse amanhã, o que da minha semana comum continuaria de pé?
  • Existe uma prática pequena e fixa de oração que eu possa começar agora, enquanto quase nada está em jogo?

Oração

Senhor, eu queria ser corajoso na hora que importa. Ensina-me a ser fiel nas horas que parecem não importar.

Dá-me um lugar e um horário, e me faz voltar a eles.

Amém.

Daniel não decidiu ser fiel no dia do decreto. Ele vinha decidindo isso três vezes ao dia havia anos.

Fontes e notas

Consultado durante a escrita deste texto. Nada é listado aqui sem ter sido usado.

As Escrituras em português são da Bíblia Livre (BLIVRE), Copyright © Diego Santos, Mario Sérgio e Marco Teles, fevereiro de 2018. Licença Creative Commons Atribuição 4.0.