Devocional
Pelos Braços
Em Oseias 11, Deus se lembra de ter ensinado uma criança a andar. Ninguém se lembra de ter aprendido a andar, e é exatamente essa a dor da passagem.
Texto bíblico Oseias 11:1–4 · Oseias 11:8 · Oseias 2:8 · Êxodo 15:26 · Mateus 2:15
Quando Israel era menino, eu o amei, e do Egito chamei a meu filho.
Quase todo o livro de Oseias é difícil de ler. O profeta falou ao reino do norte, Israel, no século oito antes de Cristo, mais ou menos uma geração antes de a Assíria varrer aquele reino do mapa. O livro é cheio de traição, de linguagem de tribunal e de um casamento que se desfaz. O capítulo 11 não esquece nada disso. Mas, por alguns versículos, Deus para de falar como juiz e fala como pai ou mãe revendo lembranças antigas.
O filho vai embora
“Quanto mais os chamavam, mais eles se afastavam de sua presença; sacrificavam aos Baalins, e ofereciam incenso às imagens de escultura.”
Na Bíblia Livre, quem chama são outros, no plural. É natural pensar nos mensageiros que Deus mandou, geração após geração. E quanto mais chamavam, mais longe o povo ia. Quem tem um filho adulto que esfriou conhece o desenho dessa frase.
Tomando-os pelos braços
Então vem a lembrança. “Eu, todavia, ensinei Efraim a andar, tomando-os pelos seus braços.”
Efraim era a tribo mais importante do norte, e Oseias usa esse nome muitas vezes para o reino inteiro. Aqui é nome de criança pequena. A cena é simples, de dentro de casa: um adulto curvado atrás de uma criança, segurando-a pelos braços, sustentando o peso enquanto as pernas descobrem para que servem. Quem já fez isso conhece a dor nas costas e aquele jeito de soltar só um pouquinho, e logo segurar de novo.
A frase seguinte é a que fica comigo. “Porém não reconheceram que eu os curava.”
Ninguém se lembra de ter aprendido a andar. Ninguém se lembra das febres de quando tinha dois anos, nem de quem passou a noite acordado ao lado. A gente anda como se sempre tivesse andado. Numa criança, isso não é defeito. É o que a infância é. A dor de Oseias é que Israel cresceu e continuou com o mesmo esquecimento.
O livro já tinha usado o mesmo verbo antes, falando da colheita: “E ela não reconhecia que era eu que lhe dava o trigo, o vinho, e o azeite.” O povo atribuía a outros deuses o que tinha na mesa e nunca soube de quem eram as mãos debaixo dos seus braços.
E o verbo “curar” é, no hebraico, o mesmo da promessa feita logo no começo do deserto: “eu sou o SENHOR que te sara.” Oseias bem pode estar lembrando dela. De todo modo, a cura passou despercebida.
Cordas humanas
“Com cordas humanas eu os puxei, com cordas de amor; e fui para eles como os que levantam o jugo de sobre suas cabeças, e lhes dei alimento.”
A Bíblia Livre traz “cordas humanas”, e a expressão vale a pausa. Muitos leitores veem aí um contraste: cordas de gente, do tamanho da mão de uma pessoa, e não a corda grossa de puxar boi teimoso. Deus conduz o povo como quem conduz um filho.
O hebraico desse versículo é difícil, e as traduções variam. Algumas leem ali a imagem de alguém que levanta uma criança pequena até o próprio rosto. A Bíblia Livre fica com a imagem do jugo levantado. As duas leituras terminam no mesmo lugar: alguém mais forte dando de comer a quem não consegue se alimentar sozinho. E isso para um povo que, diz o versículo anterior, nem sabia quem estava fazendo aquilo.
“Como posso te abandonar?”
Oseias não finge que a história é doce. Os versículos 5 a 7 falam de espada e de Assíria. Então vem uma das frases mais surpreendentes dos profetas: “Como posso te abandonar, ó Efraim? Como posso te entregar, ó Israel? … Meu coração se comove dentro de mim, todas as minhas compaixões estão acesas.”
Deus discute consigo mesmo, e a compaixão vence.
Mateus depois cita a primeira linha deste capítulo falando de Jesus, levado ao Egito ainda menino e trazido de volta: “Do Egito chamei o meu Filho.” Mateus vê nele o Filho que percorre o caminho de Israel e não se afasta.
Para hoje
Provavelmente a maior parte da graça que chegou até você chegou como chegou a Efraim, abaixo do nível da memória. Alguém alimentou você antes que você soubesse agradecer. Alguém segurou você antes que você soubesse que estava caindo. Parte disso foi Deus agindo por meio de pessoas, e parte foi Deus de maneiras que você nunca vai conseguir rastrear.
Você não vai lembrar de tudo, e ninguém está pedindo isso. Mas dá para parar de dar o crédito ao lugar errado. Hoje, escolha uma coisa boa que você sempre tratou como simplesmente sua, e diga em voz alta quem você acha que ensinou você a andar.
Para refletir
- O que existe na minha vida, e que eu trato como coisa óbvia, que pode ter vindo de mãos que eu nunca notei?
- Em que direção eu tenho andado, e ela me aproxima ou me afasta de quem me ensinou a andar?
Oração
Pai, tu me seguraste antes que eu soubesse que havia mãos debaixo dos meus braços. Nem sempre reconheci quem me curava.
Obrigado pelo que eu não consigo lembrar. Não me abandones, e faz-me voltar para ti.
Amém.
Oseias 11 é Deus lembrando o que o filho não consegue lembrar: os braços, a cura, o alimento. Muito da graça é cuidado recebido quando éramos pequenos demais para perceber.
Fontes e notas
Consultado durante a escrita deste texto. Nada é listado aqui sem ter sido usado.
- Bíblia Livre (BLIVRE), 2018 (CC BY 4.0) texto primário
- Bible Hub, interlinear hebraico de Oseias 11:3 (rapha, Strong 7495, "curar"); compare Êxodo 15:26 interlinear
- Bible Hub, traduções paralelas de Oseias 11:4 (leituras da linha do jugo) comparação de traduções
As Escrituras em português são da Bíblia Livre (BLIVRE), Copyright © Diego Santos, Mario Sérgio e Marco Teles, fevereiro de 2018. Licença Creative Commons Atribuição 4.0.