Um pequeno barco de pesca de madeira num lago escuro e agitado pelo vento antes do amanhecer, homens puxando os remos contra as ondas, uma luz cinzenta fraca atrás dos morros.
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Devocional

A Quarta Vigília

O próprio Jesus mandou os discípulos atravessarem o mar de noite, ficou para orar e só chegou até eles nas últimas horas antes do amanhecer. Mateus 14 conta isso sem pedir desculpas.

Por Redação EmberKeeper 5 min de leitura

Texto bíblico Mateus 14:22–33 · Mateus 14:12–13 · João 6:15 · Marcos 6:48 · Mateus 28:17

E logo Jesus mandou os seus discípulos entrarem no barco, e que fossem adiante dele para a outra margem, enquanto ele despedia as multidões.

É fácil ler a tempestade desta história como um desvio de rota. Os discípulos estavam naquele mar, de noite, porque Jesus os colocou lá. A Bíblia Livre diz “mandou”, e está certa, mas o verbo grego é ainda mais forte, algo como “obrigou”. Ele não sugeriu a travessia. Fez questão dela.

Por que a pressa? Mateus não explica. João, contando a mesma noite, acrescenta que Jesus sabia que o povo viria para tomá-lo e fazê-lo rei, e isso talvez explique por que ele quis tirar dali justamente os discípulos, e depressa. É um detalhe de João, e combina. O que Mateus quer que a gente veja é mais simples. Eles foram para onde ele mandou, e o vento era contrário.

Ele subiu para orar

Tinha sido um dia pesado para Jesus. Os discípulos de João tinham acabado de enterrar o corpo do mestre degolado na prisão, “e foram avisar a Jesus”. Mateus continua: “Depois de Jesus ouvir, retirou-se dali num barco, a um lugar deserto, sozinho”. As multidões o acharam mesmo assim, e ele passou o dia curando os doentes e, no fim, alimentando milhares de pessoas com cinco pães e dois peixes.

Só agora ele consegue a solidão que tinha ido procurar quando recebeu a notícia. Manda os discípulos embora, despede as multidões e sobe ao monte para orar. “Tendo chegado a noite, ele estava ali sozinho.”

Enquanto isso, o barco “já estava no meio do mar, atormentado pelas ondas, porque o vento era contrário”. As duas cenas correm lado a lado. Ele ora no monte. Eles lutam com os remos. Marcos acrescenta que Jesus viu que eles se cansavam muito remando. Mateus só coloca uma imagem ao lado da outra e deixa a gente ligar as duas.

A quarta vigília

“Mas à quarta vigília da noite Jesus foi até eles, andando sobre o mar.”

A noite era dividida em vigílias, e a quarta era a última, as horas antes do amanhecer. Quando ele ficou sozinho no monte, a noite já tinha chegado. Ou seja, os discípulos passaram a maior parte da noite brigando com aquele vento.

Não vou fingir que isso é fácil de ler. Eles obedeceram, remaram durante horas, e ele só veio na última vigília. O texto não ameniza. Mas também não deixa a demora virar abandono. Ele passou o tempo todo orando, e chegou antes da manhã, andando sobre a mesma água que vinha castigando o barco.

Eles não o reconheceram. “É um fantasma!” E logo em seguida: “Tende coragem! Sou eu, não tenhais medo.”

Pouca fé

O pedido de Pedro é ousado e um pouco estranho. “Senhor, se és tu, manda-me vir a ti sobre as águas.” Jesus responde com uma palavra só. “Vem.” E Pedro vai mesmo. Desce do barco e anda sobre as águas.

Então vê o vento forte. O vento estava soprando o tempo todo em que ele andava. O que mudou foi para onde ele olhava. Teve medo, começou a afundar e conseguiu gritar: “Senhor, salva-me!”

“Imediatamente Jesus estendeu a mão, segurou-o”. Antes de qualquer lição, a mão.

Depois vem a pergunta. “Homem de pouca fé, por que duvidaste?” Mateus usa a expressão “pouca fé” várias vezes, e em todas Jesus está falando com gente que já o escuta. É a repreensão mansa de um mestre a alunos que têm fé e vivem soltando a mão dela. O verbo traduzido por “duvidaste” é raro no Novo Testamento. Aparece só aqui e em Mateus 28:17, quando os onze veem o Ressuscitado: “o adoraram; porém alguns duvidaram”. Ele carrega a ideia de hesitar, de vacilar, e costuma ser associado à palavra grega para “duas vezes”, e por isso há quem fale em ficar dividido entre duas coisas. É um bom retrato de Pedro, no meio do caminho entre o barco e Jesus, confiando e com medo no mesmo instante. Repare que ele estava em cima da água quando duvidou. Esse tipo de dúvida acontece com quem já saiu do barco.

Para hoje

Se você está numa travessia difícil, vale perguntar se chegou lá por desobediência. Às vezes foi isso. Mas esta história admite outra resposta. Talvez você esteja exatamente onde ele mandou, com o vento contrário, enquanto ele ora.

E se você está afundando, a oração de Pedro é curta o bastante para ser dita debaixo d’água. A mão veio primeiro. A pergunta veio depois, e até a pergunta era um convite para levantar os olhos de novo.

Eles subiram no barco, o vento se aquietou, e os mesmos homens que o tinham chamado de fantasma vieram e o adoraram.

Para refletir

  • Existe um lugar difícil na minha vida que eu concluí ser sinal de que errei o caminho, quando talvez eu esteja exatamente onde fui mandado?
  • Quando começo a afundar, minha primeira palavra é uma oração ou uma explicação?

Oração

Senhor Jesus, foste tu que me mandaste para cá, e o vento está contra mim. Continua orando por mim lá no monte.

Quando eu olhar para o vento e começar a afundar, que "Senhor, salva-me" seja a primeira coisa que eu diga.

Amém.

Os discípulos não estavam na tempestade porque tinham desobedecido. Estavam lá porque ele os mandou, e ele chegou antes da manhã.

As Escrituras em português são da Bíblia Livre (BLIVRE), Copyright © Diego Santos, Mario Sérgio e Marco Teles, fevereiro de 2018. Licença Creative Commons Atribuição 4.0.