Estudo Bíblico
Onésimo Estava na Sala
A carta mais curta de Paulo foi endereçada a uma igreja inteira e, muito provavelmente, lida em voz alta com o próprio escravo de quem ela falava ali presente. Isso muda quase tudo na maneira de lê-la.
Texto bíblico Filemom 1–25 · Colossenses 4:7–9 · Colossenses 4:17 · 1 Coríntios 7:21 · Colossenses 3:11
A carta a Filemom é o texto mais curto que temos de Paulo, cabe numa folha de papiro, e durante boa parte da história da igreja foi tratada como um bilhete particular que foi parar na Bíblia meio por acaso. No fim do século IV, João Crisóstomo abriu suas homilias sobre ela respondendo a quem achava “supérfluo” incluir uma carta que tratava de um assunto pequeno em favor de um único homem.
Só que a carta não se deixa ler como coisa particular. Ela é dirigida a Filemom, mas também “à amada Ápia, e a Arquipo nosso companheiro de batalha, e à igreja que está em tua casa”. Foi escrita para ser lida diante de uma congregação reunida. E se Colossenses 4 descreve a mesma viagem, como a maioria dos leitores supõe, o homem de quem a carta fala chegou junto com ela. Paulo diz que enviou Tíquico e acrescenta:
Juntamente com ele está Onésimo, irmão fiel e amado, que é um de vós. Eles vos farão saber tudo o que está havendo por aqui. (Colossenses 4:9)
Então imagine a sala. Uma igreja que se reúne numa casa, numa cidade pequena da Frígia. O dono da casa está sentado entre os irmãos, e alguns deles provavelmente são escravos seus. Alguém lê em voz alta a carta do apóstolo preso. E em algum canto daquela sala, ou do lado de fora da porta, está Onésimo, ouvindo a si mesmo ser chamado de “inútil”, depois de “útil”, depois de “meus mais íntimos sentimentos”.
Isso é uma reconstrução plausível, não algo que o texto afirma. Mas, ouvida nesse ambiente, a carta deixa de soar como um favor discreto entre amigos.
O que a carta diz, e o que ela não diz
A versão popular da história (o escravo rouba o patrão, foge para Roma, conhece Paulo, se converte e é mandado de volta) tem mais detalhes do que a própria carta. Veja o que Paulo de fato afirma. Ele está preso (v. 1, 9). Chama o escravo de “meu filho Onésimo, ao qual eu gerei durante minhas prisões” (v. 10). “Aquele que antes te era inútil, mas agora útil para mim e para ti, eu o enviei de volta” (v. 11). Paulo gostaria de retê-lo consigo como ajudante (v. 13). Onésimo esteve separado de Filemom “por algum tempo” (v. 15). Filemom deve recebê-lo “não mais como a um servo, mas sim mais que um servo, como a um amado irmão” (v. 16). E:
E se ele te fez algum dano, ou te deve alguma coisa, põe isto na minha conta. (Filemom 18)
Agora veja o que Paulo não afirma. Não usa nenhuma palavra para fuga. Não fala de roubo. Não diz onde está preso; Roma, Éfeso e Cesareia têm defensores sérios. Não diz que Onésimo se arrependeu nem descreve o que ele fez.
Dois detalhes de gramática pesam aqui. A Bíblia Livre traduz o versículo 15 como “talvez por isso que ele tenha se separado de ti”, mas o verbo grego está na voz passiva: literalmente, “ele foi separado”. Paulo podia ter escrito “ele te deixou”. Preferiu uma forma que abre espaço para a mão de Deus sem apontar culpados. E o versículo 18 é uma condicional: se ele te fez algum dano. Pode ser delicadeza diante de uma ofensa conhecida, ou pode ser literal; o grego não decide.
Uma observação sobre Colossenses: muitos estudiosos duvidam que Paulo tenha escrito essa carta, enquanto outros a consideram dele ou escrita sob sua orientação. De qualquer forma, Colossenses 4:7–9 é um testemunho muito antigo de que a igreja lembrava de Onésimo como “um de vós”, um colossense, que voltou para casa como “irmão fiel e amado”.
Uma casa no vale do Lico
Colossos ficava às margens do rio Lico, na província romana da Ásia, a poucas horas de caminhada de Laodiceia e Hierápolis. O vale era famoso pelos terremotos. Tácito conta que em 60 d.C. Laodiceia foi derrubada por um terremoto e se reergueu com os próprios recursos.
Colossos quase não foi escavada. Uma prospecção começou em 2021, e as escavações, dirigidas por Barış Yener, da Universidade Pamukkale, só começaram em 2025, na necrópole norte. Nada publicado toca a casa de Filemom. Tudo o que sabemos dessa família está numa página.
Essa página cita três nomes. Filemom é “o amado, e nosso cooperador”, com recursos para abrigar uma igreja e, mais tarde, um hóspede (v. 22). Ápia aparece na Bíblia Livre como “a amada”, que é a leitura do texto bizantino; o texto crítico grego traz “a irmã”. Lightfoot mostrou que Ápia é um nome nativo da Frígia, frequente nas inscrições da região. A maioria dos intérpretes supõe que ela fosse esposa de Filemom, o que é razoável, mas não está escrito. Se era, o nome dela não está ali por enfeite: a senhora da casa costumava supervisionar os escravos domésticos, e uma decisão sobre Onésimo era assunto dela também.
Arquipo é o “companheiro de batalha”, e Colossenses 4:17 guarda uma ordem direta para ele: “Presta atenção ao trabalho que recebeste do Senhor, para que o cumpras”. Como “tua casa” está no singular, John Knox chegou a propor que o dono da casa e do escravo fosse Arquipo, o nome mais próximo. Pouca gente o seguiu.
O que era a escravidão naquele mundo
Dois erros atrapalham quase toda leitura desta carta.
O primeiro é imaginar a escravidão romana como algo mais brando, parecido com um emprego. Não era. Gaio, jurista romano do século II, afirma sem rodeios que os senhores têm poder de vida e morte sobre os escravos e que tudo o que o escravo adquire pertence ao senhor. A Lex Aelia Sentia, do ano 4 d.C., tal como Gaio a resume, regulava a situação de libertos que tinham sido acorrentados pelos senhores como castigo, marcados a ferro ou torturados em interrogatório. O corpo do escravo estava sexualmente à disposição do dono, uma realidade que, como mostrou Jennifer Glancy, a igreja primitiva teve de enfrentar dentro das próprias casas.
Em 61 d.C., a menos de uma década desta carta em qualquer datação, o prefeito de Roma, Pedânio Segundo, foi assassinado por um de seus escravos. Pela lei em vigor, todos os escravos que moravam sob o mesmo teto foram condenados. Tácito fala em quatrocentos. O povo se juntou para salvá-los, num tumulto que beirou a sedição, e eles foram executados assim mesmo, com soldados enfileirados ao longo do caminho.
A lei romana valia para cidadãos romanos, e Colossos, cidade grega, tinha costumes próprios. Mas a forma do poder numa casa da província era a mesma: o corpo, o tempo, a família e o futuro de um escravo pertenciam a outra pessoa.
O segundo erro vai na direção contrária: ler a carta com os olhos da escravidão atlântica, a que o Brasil conheceu por mais de três séculos. A escravidão romana não se organizava em torno de raça. As pessoas eram escravizadas pela guerra, pela pirataria e pelo sequestro, pelo abandono de recém-nascidos e, sobretudo, por nascerem de mãe escrava, e vinham de todos os povos que o império alcançava. A alforria, principalmente para escravos domésticos urbanos, era tão comum que Augusto a regulamentou: pela Lex Aelia Sentia, o escravo libertado antes dos trinta anos só se tornava cidadão romano se a alforria fosse aprovada por justa causa. Nada disso tornava o sistema gentil. Significa, porém, que um ouvinte do século I não pensaria num mercado do Valongo ao ouvir a palavra “escravo”, e que libertar Onésimo seria um ato jurídico conhecido, não uma revolução.
O próprio nome diz alguma coisa. Onésimo quer dizer “útil”, “proveitoso”, e Lightfoot reuniu dezenas de inscrições em que o nome pertence a um escravo ou liberto. É o tipo de nome que um dono dá.
Uma nota sobre a tradução. Em Filemom 16 a Bíblia Livre traduz a palavra grega doulos por “servo”, mas em Colossenses 3:22 e em 1 Coríntios 7:21 traduz a mesma palavra por “escravo”. Em Filemom, o sentido é o de escravo mesmo.
Três maneiras de reconstruir o que aconteceu
Um fugitivo. É a leitura tradicional, já pronta em Crisóstomo, que deduziu o roubo a partir do versículo 18 e chamou Onésimo de fugitivo, ladrão e salteador. John Nordling defendeu uma versão dela em 1991. O ponto forte é que “inútil”, “separado” e “te deve alguma coisa” combinam com uma ruptura. O ponto fraco é explicar por que um fugitivo iria procurar justamente um amigo próximo do seu senhor, e ainda por cima na prisão.
Um apelo ao amigo do senhor. Em 1985, Peter Lampe chamou atenção para um parecer jurídico preservado no Digesto de Justiniano. Ali se relata que Próculo, um dos grandes juristas do século I, considerava que não era fugitivo o escravo que, percebendo que o senhor queria espancá-lo, corria até um amigo para convencê-lo a interceder por ele. Nessa leitura, Onésimo, em apuros com Filemom, procurou Paulo de propósito como mediador e se converteu no caminho. Brian Rapske desenvolveu a ideia, que desde então tem sido bastante discutida. Ela explica bem a escolha de Paulo. Albert Harrill advertiu que o trecho vem de normas sobre a venda de escravos, e que uma definição de jurista não mostra como as casas comuns realmente funcionavam. A advertência é justa.
Enviado pela casa. Sara Winter defendeu em 1987 que Onésimo não fugiu: teria sido enviado pela igreja de Colossos para ajudar Paulo na prisão, e a carta pediria que ele ficasse com Paulo no ministério. O versículo 13 (“eu até que gostaria de retê-lo comigo, para que como teu substituto ele me servisse nas prisões do Evangelho”) se encaixa bem. Os versículos 11 e 18, nem tanto.
Allen Callahan retomou ainda uma leitura abolicionista do século XIX em que Onésimo seria irmão de sangue de Filemom, e não escravo, algo difícil de conciliar com “não mais como a um servo”.
O que a carta sustenta é isto: alguma coisa tinha dado errado entre Filemom e Onésimo, talvez com prejuízo financeiro, e Paulo entende que a situação pede reconciliação, e não apenas devolução.
Plínio e Sabiniano
Cerca de meio século depois de Paulo, o senador romano Plínio, o Jovem, escreveu uma carta curta que costuma ser colocada ao lado de Filemom. Um liberto de seu amigo Sabiniano tinha ofendido o antigo senhor e foi procurar Plínio. Segundo Plínio, o homem se jogou a seus pés e se agarrou a eles “como se fossem os teus”, chorou, suplicou, calou, e Plínio acreditou no arrependimento. Pede então a Sabiniano que perdoe, lembrando a juventude do rapaz, as lágrimas e a própria brandura do amigo. Vem então uma frase que qualquer leitor de Filemom reconhece: “receio parecer não pedir, mas obrigar”. Plínio conta ainda que repreendeu o liberto com dureza e ameaçou nunca mais interceder por ele. Numa carta posterior (9.24), agradece a Sabiniano por ter recebido o homem de volta na casa e na estima.
O paralelo mostra que Paulo usava um roteiro social conhecido: o inferior em apuros procura um amigo do superior, e o amigo escreve, elogia o destinatário, nega pressionar enquanto pressiona e espera clemência.
As diferenças é que revelam a carta. O homem de Plínio já era liberto; Onésimo, pelo que a carta mostra, ainda era escravo. O argumento de Plínio se apoia no arrependimento do liberto; Paulo nunca menciona arrependimento algum. Plínio passa uma descompostura em quem o procurou; Paulo o chama de “meu filho” e de “meus mais íntimos sentimentos”. Plínio pede que Sabiniano ceda. Paulo pede que Filemom receba Onésimo “como a mim”, o que é um pedido de outra natureza. Que a carta de Paulo seja mais bonita, como achava Lightfoot, é questão de gosto. A diferença de estrutura não é: Plínio fica entre dois homens, e Paulo toma o lado do mais fraco e se coloca no lugar dele.
Como Paulo argumenta sem dar ordem
Paulo diz com todas as letras que teria “grande confiança” para mandar em Filemom (v. 8). E continua:
Em vez disso por amor eu te peço, ainda que eu seja tal, Paulo, o velho, e também agora um prisioneiro de Jesus Cristo. (Filemom 9)
Três fios atravessam a carta.
As entranhas. A palavra grega splanchna, literalmente as vísceras, usada para o afeto mais íntimo, aparece três vezes, e a Bíblia Livre deixa o fio visível ao traduzi-la sempre por “sentimentos”. No versículo 7, “os sentimentos dos santos foram aliviados” por meio de Filemom. No versículo 12, Onésimo é “os meus mais íntimos sentimentos”. No versículo 20, Paulo pede: “alivia meus sentimentos no Senhor”. Filemom é conhecido por aliviar os santos, e agora Paulo manda o próprio coração bater à porta dele, na pessoa de um escravo.
Os nomes. O versículo 11 brinca com a utilidade: Onésimo era achrēstos, inútil, e agora é euchrēstos, útil, uma piada com um nome que significava justamente “útil”. A tradução em português preserva o jogo de “inútil” e “útil”. No versículo 20 há um segundo trocadilho que nenhuma tradução consegue carregar: “que eu tenha algum benefício de ti” usa o verbo onaimēn, da mesma raiz de Onésimo.
O livro-caixa. Nos versículos 18 e 19 a linguagem vira comercial. “Põe isto na minha conta” usa um verbo de contabilidade. “Eu pagarei” é linguagem de quitação de dívida. E Paulo faz questão de dizer que esse trecho saiu da mão dele: “Eu, Paulo, de minha própria mão o escrevi, eu pagarei”. Uma promessa assinada de próprio punho funcionava como uma nota promissória. Logo em seguida, ele lembra a Filemom “que tu me deves a ti mesmo”. A conta é real, mas não é a história inteira.
Isso é manipulação? Paulo diz não querer nada “por obrigação” (v. 14), mas menciona a idade e as correntes, escreve para a igreja toda, declara “confiança de tua obediência” (v. 21) e anuncia visita (v. 22). A pressão é evidente. O que impede que vire coação é que todas as alavancas estão à vista, e quem paga se Filemom recusar é o próprio Paulo, não Onésimo.
O que Paulo diz, e não diz, sobre liberdade
Paulo nunca escreve “liberta-o”. Escreve que Filemom deve ter Onésimo de volta “não mais como a um servo, mas sim mais que um servo, como a um amado irmão, especialmente para mim, e muito mais de ti, tanto na carne como no Senhor” (v. 16). “Na carne”, em Paulo, costuma indicar a vida humana comum, inclusive seus arranjos sociais. E o versículo 21 termina: “sabendo que tu farás ainda mais do que eu digo”.
Há quem conclua que Paulo está pedindo a alforria sem dizer o nome, ou pedindo que Onésimo seja liberado para voltar e servir com ele, como o versículo 13 sugere. Outros, a começar por Crisóstomo, concluíram o contrário: para ele, a lição era que não se deve tirar escravos do serviço dos seus senhores.
A divergência não é teimosia moderna. As outras frases de Paulo puxam para lados diferentes. Em 1 Coríntios 7:21 a Bíblia Livre traz “mas se tu podes te tornares livre, aproveita”, só que o grego é famoso por ser compacto, e uma minoria de intérpretes o lê como “aproveita antes a tua condição atual”. Colossenses 3:11 diz que em Cristo “não há” nem “escravo, nem livre”, enquanto Colossenses 3:22 manda os escravos obedecerem “aos vossos senhores segundo a carne”.
A história aumentou o peso da questão. Nos Estados Unidos, defensores da Lei do Escravo Fugitivo de 1850 citavam Filemom como prova de que Paulo devolveu um fugitivo ao dono. Leitores abolicionistas insistiam em “não mais como a um servo” e em “amado irmão”, e intérpretes afro-americanos lutam com esta carta desde então.
O resumo honesto é que Filemom não abole a escravidão nem manda alforriar. Faz algo mais local e, a seu modo, mais difícil. Diz a um senhor de escravos que o homem que ele possui é seu irmão “na carne”, na vida comum da casa, e pergunta o que ele vai fazer com isso, diante de todo mundo.
O que quase todo leitor deixa passar
Era uma carta pública. O endereço à igreja da casa garante que a resposta de Filemom seria vista. A saudação do versículo 3 (“Haja em vós graça e paz”) e a bênção final (“seja com vosso espírito”) estão no plural. A igreja inteira é testemunha.
Onésimo não tem nenhuma fala. Mas, se levou a carta, ouviu cada palavra dita sobre ele diante do homem que era dono dele.
Paulo se convidou para a casa. “Me prepara um lugar para eu ficar” é um pedido afetuoso, e também um aviso de que Paulo pretende ver com os próprios olhos como Onésimo está sendo tratado.
O fim da carta na Bíblia Livre traz um acréscimo. Depois da bênção, o versículo 25 da Bíblia Livre inclui a nota “Escrita em Roma para Filemom, e enviada pelo servo Onésimo”. Essas subscrições foram acrescentadas por copistas em manuscritos posteriores e não fazem parte do texto grego nas edições críticas. Mostram o que parte da tradição supunha, não o que Paulo escreveu.
A vida posterior de um nome
No início do século II, pela datação tradicional, Inácio de Antioquia escreveu à igreja de Éfeso. Agradece os enviados e cita o bispo deles: Onésimo, homem de um amor que não se descreve em palavras. Poucas linhas depois deseja poder sempre ter alegria deles, usando o mesmo verbo do trocadilho de Filemom 20.
John Knox, na esteira de Edgar Goodspeed, defendeu que esse bispo era o Onésimo de Paulo, e que, como líder da igreja na Ásia, ele teria ajudado a reunir as cartas do apóstolo, o que explicaria a sobrevivência de um bilhete pessoal sobre ele. A ideia é atraente e impossível de provar, e há motivos para cautela. Onésimo era um nome de escravo muito comum. Pelas contas de Lightfoot, cerca de quarenta e quatro anos separam as duas menções. Inácio repete esse mesmo voto nas cartas aos magnésios e a Policarpo, então o eco é mais fraco do que parece. Não sabemos, e o sentido da carta não depende de saber.
O que sabemos é que alguém guardou essa página. O dono da casa, a igreja que se reunia nela ou o próprio Onésimo achou que valia a pena copiá-la. Quem foi humilhado por uma carta não costuma preservá-la.
Reconciliação quando o poder é desigual
Quase todo conflito envolve algum desequilíbrio: patrão e empregado, pastor e membro, pais e filhos adultos, quem tem advogado e quem não tem. Filemom não oferece técnica para isso, mas mostra o formato de um conserto que leva o desequilíbrio a sério.
Quem tem mais poder é chamado a se mover primeiro, e à vista dos outros. Paulo não vai até Onésimo pedir que ele faça por merecer a volta. Vai até Filemom e pede que ele receba.
A dívida é nomeada. Paulo não finge que não houve prejuízo. Põe o prejuízo na própria conta. Existe uma diferença entre o perdão que diz “não foi nada” e o perdão que diz “foi alguma coisa, e alguém pagou”.
O lado mais fraco não precisa encenar. Paulo poupa Onésimo das lágrimas e dos pés agarrados do liberto de Plínio. A carta não faz do arrependimento dele o preço da acolhida.
A relação é redefinida, não apenas restaurada. “Mais que um servo” não é o mesmo arranjo com modos mais educados.
E o mediador paga. Se você está entre duas pessoas, o exemplo de Paulo não é a neutralidade. É colocar o seu nome na conta.
Os cristãos vão continuar discordando sobre até onde Paulo queria que Filemom fosse. Uma coisa, porém, a carta deixa resolvida: quando Onésimo atravessasse aquela porta, Paulo esperava que ele fosse recebido como o próprio Paulo seria.
Para refletir
- Paulo coloca o próprio nome na dívida de Onésimo: "põe isto na minha conta". Por quem eu aceitaria assumir uma conta, e diante de quem eu discretamente me esquivei?
- A carta não registra nenhum pedido de desculpas de Onésimo, e também não o inocenta. Quando tento consertar uma relação, eu exijo que o lado mais fraco encene a própria culpa antes de dar o primeiro passo?
- Filemom precisa decidir diante da igreja inteira. Em que situações de poder eu prefiro resolver as coisas a portas fechadas, porque uma resposta pública me custaria mais?
- Paulo diz que Onésimo é irmão "tanto na carne como no Senhor". Existe alguém que eu trato como irmão no domingo e como outra coisa no resto da semana?
- Cristãos já usaram esta carta para devolver pessoas ao cativeiro. O que essa história me pede quando leio textos que parecem favorecer gente como eu?
Oração
Senhor Jesus, tu pagaste o que devíamos, sem nos pedir que fingíssemos não dever nada.
Onde eu tenho poder sobre alguém, faz de mim o primeiro a me mover, e ensina-me a enxergar essa pessoa como tu a enxergas.
Onde eu estiver entre duas pessoas, dá-me coragem para assinar a dívida com o meu nome.
Amém.
Paulo não pede a Filemom que esqueça o que aconteceu. Pede que receba um irmão, e assina a conta ele mesmo.
Fontes e notas
Consultado durante a escrita deste texto. Nada é listado aqui sem ter sido usado.
- Bíblia Livre (BLIVRE) texto primário
- Novo Testamento Grego SBL (2010), carta a Filemom, consultado junto com o Texto Majoritário Bizantino nos versículos em que as traduções divergem texto primário
- Plínio, o Jovem, Cartas 9.21 e 9.24, a Sabiniano, tradução inglesa de J. B. Firth (1900) texto primário
- Plínio, o Jovem, Carta 9.21, texto latino (as citações deste estudo são tradução livre a partir do latim) texto primário
- Digesto de Justiniano 21.1.17.4, Ulpiano relatando Viviano e Próculo sobre quem conta como escravo fugitivo, texto latino texto primário
- Gaio, Institutas 1.13, 1.18 e 1.52 (a Lex Aelia Sentia; o poder de vida e morte do senhor), texto latino texto primário
- Tácito, Anais 14.42-45, a execução dos escravos de Pedânio Segundo em 61 d.C., tradução inglesa de A. S. Kline texto primário
- Tácito, Anais 14.27, o terremoto de Laodiceia texto primário
- Inácio de Antioquia, Aos Efésios 1-2 e 6, Aos Magnésios 12 e A Policarpo 6, tradução inglesa de J. B. Lightfoot e J. R. Harmer (1891) texto primário
- João Crisóstomo, Homilias sobre Filemom, Argumento, Nicene and Post-Nicene Fathers, primeira série, vol. 13 texto primário
- J. B. Lightfoot, Saint Paul's Epistles to the Colossians and to Philemon (Macmillan, 1875) comentário
- Joseph A. Fitzmyer, The Letter to Philemon, Anchor Bible 34C (Doubleday, 2000), para estudo adicional comentário
- James D. G. Dunn, The Epistles to the Colossians and to Philemon, NIGTC (Eerdmans, 1996) comentário
- Peter Lampe, "Keine Sklavenflucht des Onesimus", Zeitschrift für die neutestamentliche Wissenschaft 76 (1985), p. 135-137 estudo histórico
- Brian M. Rapske, "The Prisoner Paul in the Eyes of Onesimus", New Testament Studies 37 (1991), p. 187-203 estudo histórico
- J. Albert Harrill, "Using the Roman Jurists to Interpret Philemon: A Response to Peter Lampe", ZNW 90 (1999), p. 135-138 estudo histórico
- John G. Nordling, "Onesimus Fugitivus: A Defense of the Runaway Slave Hypothesis in Philemon", Journal for the Study of the New Testament 41 (1991) estudo histórico
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- John Knox, Philemon Among the Letters of Paul, edição revista (1959) estudo histórico
- Allen Dwight Callahan, Embassy of Onesimus: The Letter of Paul to Philemon (Trinity Press International, 1997) estudo histórico
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- Keith Bradley, Slavery and Society at Rome (Cambridge University Press, 1994) estudo histórico
- Jennifer A. Glancy, Slavery in Early Christianity (Oxford University Press, 2002) estudo histórico
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- Lauren K. McCormick, "Colossae: A Biblical City of the Classical World", Bible History Daily, Biblical Archaeology Society (julho de 2026), sobre a prospecção iniciada em 2021 e as escavações iniciadas em 2025 relatório de escavação
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