Estudo Bíblico
O Que É Mais Fácil Dizer
Quatro homens abrem um buraco num telhado de Cafarnaum para chegar até Jesus, e a primeira coisa que o paralítico recebe é justamente a que ninguém ali consegue ver.
Texto bíblico Marcos 2:1–12 · Lucas 5:17–26 · Mateus 9:1–8 · Daniel 7:13–14 · Marcos 14:61–64 · João 9:1–3
Marcos diz que eles fizeram um buraco.
É fácil pular esse detalhe e ir direto ao milagre, mas o verbo grego que Marcos escolheu é de quem cava, e descreve estrago. Aquele telhado tinha dono. E havia gente sentada embaixo quando a terra começou a cair.
Em doze versículos, Jesus reivindica uma autoridade que pertence a Deus, a palavra “blasfêmia” aparece pela primeira vez no Evangelho de Marcos e um título é pronunciado que vai voltar no julgamento de Jesus. O telhado é só a porta de entrada da história.
Uma cidade, uma casa, uma porta entupida (Marcos 2:1–2)
“Dias depois, Jesus entrou outra vez em Cafarnaum, e ouviu-se que estava em casa. Logo juntaram-se tantos, que nem mesmo perto da porta cabiam; e ele lhes falava a palavra.”
Cafarnaum ficava na margem norte do mar da Galileia. Mateus conta que Jesus, “deixando Nazaré, veio a morar em Cafarnaum, cidade marítima” (Mateus 4:13), e mais adiante a chama de “sua própria cidade” (9:1). Era um lugar pequeno. O historiador Josefo, ferido numa escaramuça ali perto no começo da guerra contra Roma, conta que foi levado para uma aldeia cujo nome costuma ser identificado com Cafarnaum (Vida 403). A Custódia da Terra Santa descreve um povoado que vivia de pesca e agricultura, numa rota comercial entre a Galileia e Damasco.
No fim do capítulo 1, depois que o leproso curado saiu espalhando a notícia, Jesus “já não podia entrar publicamente na cidade” (1:45). Por isso a volta em 2:1 é discreta. Dura até correr a notícia de que ele “estava em casa”. Aí a casa enche até a porta.
Casa de quem? Marcos não diz. A gente lembra logo de 1:29, a “casa de Simão e de André”, e pode ser. Mas o texto deixa em aberto.
O que o chão de Cafarnaum mostra, e o que não mostra
Os arqueólogos franciscanos Virgilio Corbo e Stanislao Loffreda escavaram Cafarnaum de 1968 a 1986, com novas temporadas entre 2000 e 2003. O que encontraram ajuda a imaginar Marcos 2 com mais honestidade.
As casas eram de pedras de basalto preto, assentadas sem argamassa, organizadas em quarteirões separados por ruelas, com cômodos em volta de pátios abertos. Jerome Murphy-O’Connor, resumindo as escavações, observa que paredes assim não aguentariam um segundo andar e que os tetos eram feitos de galhos cruzados, às vezes vedados com uma mistura de terra e palha. Um teto desses não se quebra. Se abre: tira-se a cobertura e cava-se a camada de barro socado.
Vale uma observação para quem lê em português. A Bíblia Livre diz que eles “descobriram o telhado”, e no Brasil “telhado” faz pensar em telhas. Em Marcos, o grego fala só de uma cobertura, e o que as escavações mostram é galho, terra e palha.
Uma casa chamou atenção especial. No quarteirão que os escavadores apelidaram de insula sacra, um cômodo grande recebeu reboco no chão, nas paredes e no teto, algo que não aparece em nenhum outro ponto da aldeia. Mais ou menos na mesma época, a cerâmica muda: saem as panelas de cozinha, entram jarros de armazenamento e lamparinas. Os escavadores leem isso como um cômodo particular passando a uso coletivo e datam a mudança na segunda metade do primeiro século. No século IV o cômodo foi ampliado e isolado por um muro, e suas paredes rebocadas de novo acumularam mais de cem grafites em grego, siríaco, aramaico e latim, com invocações como “Senhor Jesus Cristo, ajuda o teu servo”. Na segunda metade do século V, uma igreja octogonal foi construída bem em cima dele. Por volta de 570, um peregrino de Piacenza escreveu que chegou “a Cafarnaum, à casa do bem-aventurado Pedro, que agora é uma basílica”.
Aqui é preciso falar com cuidado. O que está bem estabelecido é que cristãos veneraram uma casa específica de Cafarnaum desde cedo e por muito tempo. Que fosse a casa de Pedro é uma dedução razoável, tirada dessa veneração e dos Evangelhos. Os escavadores leram o nome de Pedro em alguns grafites, mas muitos estudiosos hoje contestam essas leituras, e alguns, como Joan Taylor, contestam a própria identificação. Emmanuele Testa, que publicou os grafites, datou os mais antigos no início do século III pela forma das letras. E que essa tenha sido a casa de Marcos 2 é um passo a mais, que o próprio Marcos nunca dá.
A arqueologia nos dá, honestamente, o tipo de casa, e já é bastante: tira a cena do vitral e devolve ao basalto e ao barro.
Quatro, um leito e um telhado (2:3–4)
“E vieram a ele uns que traziam um paralítico carregado por quatro. Como não podiam se aproximar dele por causa da multidão, descobriram o telhado onde ele estava, fizeram um buraco, e baixaram por ele o leito em que jazia o paralítico.”
Primeiro detalhe: o paralítico era “carregado por quatro”, e a Bíblia Livre, fiel ao grego, não acrescenta nada. A palavra que quase todo mundo usa para eles, “amigos”, não está no texto. Podiam ser irmãos, vizinhos ou carregadores pagos.
Segundo, os verbos. No grego, eles “descobriram a cobertura” (apestegasan tēn stegēn) e, “tendo cavado” (exoryxantes), desceram o leito. O segundo verbo é o grego comum para tirar terra de uma vala. Paulo usa o mesmo verbo numa imagem forte em Gálatas 4:15: “teríeis arrancado os vossos próprios olhos”. Combina com o tipo de teto que Cafarnaum tinha de fato, e não tem nada de delicado.
Subir não devia ser o difícil, já que o teto era espaço de uso (Deuteronômio 22:8 manda fazer “parapeito em teu terraço”). O difícil era desmontar o telhado dos outros na frente de todo mundo.
Terceiro, o leito. A palavra de Marcos é krabattos: catre, colchonete, a cama de quem não tinha muita coisa, termo que os léxicos ligam ao latim grabatus. Marcos a repete quatro vezes nesta cena (2:4, 9, 11, 12), sempre traduzida por “leito” na Bíblia Livre. Ele não tira os olhos dela. O que carregava o homem, no fim, vai ser carregado por ele.
“Pelas telhas”: como Lucas e Mateus contam
Lucas conta a mesma história em 5:17–26 e muda o telhado. Os homens “subiram ao telhado, e pelas telhas o baixaram com o leito para o meio do povo, diante de Jesus” (5:19).
O detalhe intriga, porque em Marcos o telhado é cavado, e telha não se cava. A palavra grega é keramos. O sentido de base é argila de oleiro, e há quem tente ler Lucas assim, mas quando o grego clássico usa a palavra para telhado, ela quer dizer telhas. A explicação mais simples, dada por exemplo nas notas da New American Bible, é que Lucas recontou a cena na arquitetura que seus leitores do mundo greco-romano conheciam, onde telhado era de telha. Não é bem um erro. É uma tradução de cenário, o que todo pregador faz quando um detalhe antigo travaria o ouvinte.
Lucas também troca o krabattos de Marcos por outras palavras para cama, embora use a palavra de Marcos em Atos 5:15 e 9:33.
E Lucas aumenta a plateia. Antes de os homens chegarem, “estavam ali sentados fariseus e instrutores da lei, que tinham vindo de todas as aldeias da Galileia, da Judeia, e de Jerusalém” (5:17). É a primeira vez que os fariseus aparecem no Evangelho de Lucas. No final, Lucas tem outra exclamação: “Hoje vimos maravilhas!” (5:26). A palavra é paradoxa, coisas que contrariam a expectativa, e não aparece em nenhum outro lugar do Novo Testamento.
Mateus (9:1–8) é o mais curto dos três. Não tem multidão na porta nem telhado nenhum: “eis que lhe trouxeram um paralítico, deitado em um leito” (9:2). Jesus acrescenta “Tem bom ânimo, filho!”, e o fim da cena desloca o foco: as multidões “glorificaram a Deus, que tinha dado tal autoridade aos homens” (9:8). Na Bíblia Livre elas “ficaram maravilhadas”; os manuscritos se dividem aqui entre “maravilhar-se” e “temer”. Mateus não explica o plural “aos homens”, e não convém forçar.
Lado a lado, os três variam na encenação e concordam no essencial: a fé vista, o perdão declarado, a acusação silenciosa de blasfêmia, a autoridade do Filho do homem na terra e a cura como prova.
“Quando Jesus viu a fé deles” (2:5)
A fé, nessa cena, é coisa que se vê. E vem suja de terra.
Marcos escreve “a fé deles” sem dizer se o paralítico está incluído; o plural aponta para os quatro, e nada exclui o homem deitado. O que a história não deixa é reduzir a fé a sentimento particular. Jesus olha para um buraco no teto e chama aquilo de fé.
Então vem a surpresa. Todo mundo naquela sala sabe do que o homem precisa. Ninguém falou em pecado. E Jesus diz: “Filho, os teus pecados te são perdoados.” No grego, teknon, palavra de carinho. A primeira coisa que o homem recebe é justamente o presente que ninguém consegue conferir.
Pecado e doença, e o erro que Jesus recusa
Por que o perdão primeiro? Dá vontade de concluir que a paralisia era castigo e que Jesus trata a causa antes do sintoma. Marcos não diz isso, e o resto das Escrituras não deixa a gente presumir.
A Bíblia admite uma ligação real entre pecado e sofrimento. O Salmo 32 descreve no corpo o peso do pecado não confessado, e o Salmo 103 bendiz o Deus “que perdoa todas as tuas perversidades, e te sara de todas as tuas enfermidades” (103:3). Tiago escreve que a oração da fé sarará o doente, “e se houver cometido pecados, lhe serão perdoados” (Tiago 5:15), e esse “se” pesa. Em João 5:14, Jesus diz ao homem que curou: “não peques mais, para que não te suceda alguma coisa pior”. A associação continuou no pensamento judaico. O Talmude Babilônico registra um dito, atribuído a rabinos bem posteriores a Jesus e apoiado justamente no Salmo 103:3, de que o doente só se levanta da doença quando seus pecados são perdoados (Nedarim 41a). É evidência tardia, não regra do primeiro século, mas mostra como a ligação parecia natural.
Só que Jesus se recusa a transformar essa ligação em diagnóstico. Diante do cego de nascença, os discípulos perguntam: “Rabi, quem pecou? Este, ou seus pais, para que nascesse cego?” E Jesus responde: “Nem este pecou, nem seus pais” (João 9:2–3). Em Lucas 13, sobre os galileus mortos por Pilatos e os dezoito da torre de Siloé, ele pergunta se eram mais pecadores que os outros e responde: “Não, eu vos digo” (13:2–5).
Então é preciso segurar as duas coisas. Em Marcos 2, a ordem das palavras de Jesus mostra as prioridades dele, não o prontuário do homem. A necessidade mais funda daquela sala não era a que estava deitada no leito.
“Quem pode perdoar pecados, a não ser somente Deus?” (2:6–7)
“E estavam ali sentados alguns escribas, que pensavam em seus corações: Por que este homem fala essas blasfêmias? Quem pode perdoar pecados, a não ser somente Deus?”
Convém dizer com todas as letras: a teologia dos escribas está certa. Em Isaías 43:25 é o próprio Deus quem declara que é ele, ele mesmo, quem anula as transgressões do povo. Lá atrás, em 1:22, as pessoas na sinagoga de Cafarnaum tinham reparado que Jesus ensinava com autoridade, diferente dos escribas. Agora os escribas estão na sala.
A frase deles, no grego, é “a não ser um, Deus” (ei mē heis ho theos). Marcos usa exatamente essa construção em 10:18, e ali a Bíblia Livre deixa o “um” à mostra: “Ninguém é bom, a não ser um: Deus.” É o “um” da grande confissão de Israel, que Deuteronômio 6:4 traz assim na Bíblia Livre: “Ouve, Israel: o SENHOR nosso Deus, o SENHOR um é”. Alguns leitores ouvem esse eco na objeção dos escribas. Marcos não aponta.
Será que as palavras de Jesus podiam ser ouvidas de modo mais inocente? “Os teus pecados te são perdoados” está na voz passiva, e um profeta podia anunciar o perdão de Deus sem tomá-lo para si. Natã disse a Davi: “Também o SENHOR removeu teu pecado” (2 Samuel 12:13). Um fragmento aramaico de Qumran, a Oração de Nabonido (4Q242), chega a ligar um adivinho judeu ao perdão dos pecados de um rei, mas o texto está quebrado, e estudiosos como Tobias Hägerland observam que se discute se quem perdoa é o adivinho ou Deus. A questão não era tão simples quanto um slogan.
Só que nada em Marcos 2 soa como profeta repassando recado. Não há templo, sacrifício, sacerdote, confissão, nem um “assim diz o Senhor”. E Jesus está a ponto de deixar a reivindicação explícita. Os escribas entenderam Jesus melhor do que muito admirador dele.
É também a primeira vez que alguma forma da palavra “blasfêmia” aparece em Marcos. Perto do fim do Evangelho, o sumo sacerdote rasga as roupas diante de Jesus e diz: “Vós ouvistes a blasfêmia” (14:64).
“O que é mais fácil?” (2:8–9)
Jesus responde a uma pergunta que ninguém fez em voz alta. “Imediatamente Jesus percebeu em seu espírito que assim pensavam em si mesmos.” E devolve outra: “O que é mais fácil? Dizer ao paralítico: ‘Os teus pecados estão perdoados’, ou dizer, ‘Levanta-te, toma o teu leito, e anda’?”
Tudo gira em torno do verbo dizer. Dizer “os teus pecados estão perdoados” é fácil, porque ninguém pode conferir. Dizer “levanta-te e anda” é arriscado, porque em um minuto todos vão saber se era palavra vazia. Fazer é o contrário. Só Deus perdoa pecados. Já curar, por mais espantoso que seja, é algo que as Escrituras mostram Deus fazendo por meio de profetas como Eliseu.
Jesus não responde à própria pergunta. Faz a coisa que dá para conferir para garantir a que não dá.
O Filho do homem, na terra (2:10–11)
“Mas para que saibais que o Filho do homem tem poder na terra para perdoar pecados, (disse ao paralítico): A ti eu digo: levanta-te, toma o teu leito, e vai para a tua casa.”
A frase se interrompe no meio. Jesus se vira dos escribas para o homem antes de terminar, e a Bíblia Livre marca a quebra com parênteses.
Repare numa escolha de tradução. A Bíblia Livre diz “poder” aqui e “autoridade” em Mateus 9:6, mas no grego é a mesma palavra, exousia.
É a primeira vez que o título “Filho do homem” aparece em Marcos. Sozinha, a expressão podia significar simplesmente “um ser humano”, e essa ambiguidade talvez faça parte da razão de Jesus preferi-la. Mas os leitores de Marcos têm um texto em vista. Em Daniel 7:13, o profeta vê alguém “vindo nas nuvens do céu como um filho do homem”. A Bíblia Livre escreve com minúscula, e com razão: a expressão aramaica, kebar enash, quer dizer antes de tudo “alguém semelhante a um ser humano”. Essa figura chega até o Ancião de dias, “e foi lhe dado domínio, honra, e reino” (7:14), um “domínio eterno, que não passará”. As duas versões gregas antigas de Daniel chamam esse domínio eterno de exousia, a mesma palavra que Marcos usa aqui.
Em Daniel, a autoridade é concedida no céu. Jesus a reivindica “na terra”, numa casa emprestada, com um buraco no teto, sobre os pecados de um homem só.
Se as pessoas daquela sala pensaram em Daniel, não dá para saber. Os leitores de Marcos vão pensar, com certeza, porque no julgamento Jesus usa as palavras de Daniel: “E vereis o Filho do homem sentado à direita do Poderoso, e vindo com as nuvens do céu” (14:62). A acusação que o sumo sacerdote faz em seguida é a mesma que os escribas pensaram em Cafarnaum.
Pela porta da frente, com o leito nas costas (2:12)
“E logo ele se levantou, tomou o leito, e saiu na presença de todos.”
O homem que entrou pelo telhado sai pela porta, atravessando a mesma multidão que tinha bloqueado a passagem. Os escribas podiam duvidar das palavras, mas todo mundo viu as pernas.
“De tal maneira, que todos ficaram admirados, e glorificaram a Deus, dizendo: Nunca vimos algo assim.” Marcos diz “todos”, e é melhor não espremer essa palavra além do que ela dá. Admiração não é fé, e as próximas histórias vão mostrar isso.
A primeira de cinco
Marcos 2:1–12 abre uma seção construída com cuidado. São cinco conflitos em sequência: o perdão dos pecados (2:1–12), a refeição com publicanos e pecadores (2:13–17), o jejum (2:18–22), as espigas colhidas no sábado (2:23–28) e a mão definhada curada no sábado (3:1–6). A seção termina com uma frase que deveria fazer qualquer leitor parar: “Assim que os fariseus saíram, tiveram reunião com os herodianos contra ele, para combinarem sobre como o matariam” (3:6).
Num artigo de 1973, Joanna Dewey mostrou como a primeira e a última dessas histórias se espelham. As duas começam com Jesus entrando “outra vez” (2:1; 3:1). As duas se passam em lugar fechado, uma numa casa, a outra numa sinagoga. As duas colocam uma controvérsia dentro de uma cura. Nas duas, os adversários nunca falam a objeção em voz alta: na primeira, Jesus percebe o que pensam “em seus corações”; na última, sente pena “da dureza dos seus corações”. São os primeiros usos da palavra “coração” em Marcos. As duas usam o verbo “levantar”, e aqui a Bíblia Livre deixa isso visível: “Levanta-te, e vem para o meio” (3:3). E a multidão que glorifica a Deus no fim da primeira é respondida por um plano de assassinato no fim da última.
Dewey mostrou ainda a hostilidade crescendo até a conspiração, com uma frase no centro das cinco histórias: “Mas dias virão, quando o noivo lhes for tirado” (2:20). Nem todo leitor acha o esquema tão amarrado, mas os paralelos estão no texto. O primeiro conflito de Marcos já é um passo em direção à cruz.
O que a maioria dos leitores não percebe
Os quatro nunca são chamados de amigos. O texto diz só que o paralítico era “carregado por quatro”. O amor deles se deduz pelo que fizeram, exatamente do jeito que Jesus deduziu a fé.
Os escribas não estão errados sobre Deus. A objeção é teologia correta. O que eles não consideraram foi quem estava na frente deles.
A cura é prova oferecida aos críticos. O “para que saibais” é dirigido aos homens que duvidavam. O homem voltando para casa a pé é, entre outras coisas, um argumento.
Duas expressões estreiam em Marcos nessa casa e voltam no julgamento. “Blasfêmia” (2:7) e “Filho do homem” (2:10) aparecem pela primeira vez aqui, e as duas são ditas de novo diante do sumo sacerdote (14:62–64). O fim da história já está na sala.
De volta para casa
As últimas palavras de Jesus ao homem são comuns: “vai para a tua casa”.
O perdão veio primeiro, e não dava para ver. A cura veio depois, e dava. Um foi dado ao homem; o outro foi dado para que a sala soubesse que o primeiro era verdadeiro. Ele saiu carregando o leito que antes o carregava.
Marcos não conta se alguém consertou o telhado. Conta que um homem que a multidão tinha deixado do lado de fora foi mandado para casa perdoado, e que, das duas coisas que Jesus fez naquele dia, perdoar era a mais difícil.
Para refletir
- Os quatro não conseguiram passar pela porta e abriram outro caminho. O que fechou a porta comum para você, e você tratou isso como o fim da história?
- Jesus atendeu primeiro a necessidade que ninguém tinha mencionado. O que mudaria se você deixasse que ele decidisse a ordem das suas necessidades?
- Os escribas estavam certos ao dizer que só Deus perdoa pecados. Em que momento uma crença correta já impediu você de reconhecer o que Deus estava fazendo?
- As Escrituras admitem uma ligação real entre pecado e sofrimento e, ao mesmo tempo, proíbem ler a doença de alguém como sentença. Qual dessas duas verdades você costuma esquecer?
- A cura aconteceu "para que saibais". Que sinal visível do perdão a sua vida oferece a quem não consegue enxergar o que se passa por dentro?
Oração
Senhor Jesus, tu viste a fé de quem não parou diante de uma porta lotada.
Dize-me primeiro a palavra que eu não posso ver, e ensina-me a confiar nela antes que qualquer outra coisa mude.
Dá-me coragem para levantar, tomar o leito em que eu jazia e voltar para casa.
Amém.
Qualquer um consegue dizer "os teus pecados estão perdoados". Jesus disse a frase que podia ser conferida para que a sala acreditasse na que não podia.
Fontes e notas
Consultado durante a escrita deste texto. Nada é listado aqui sem ter sido usado.
- Bíblia Livre (BLIVRE) texto primário
- Michael W. Holmes (org.), The Greek New Testament: SBL Edition (Society of Biblical Literature e Logos, 2010), texto digital MorphGNT texto primário
- Maurice A. Robinson e William G. Pierpont, The New Testament in the Original Greek: Byzantine Textform (2005), texto digital texto primário
- H. B. Swete (org.), The Old Testament in Greek according to the Septuagint, vol. 3 (Cambridge University Press), Daniel 7:13–14 na versão grega antiga e na de Teodocião, texto digital texto primário
- Daniel 7:13, texto aramaico com a tradução da JPS, Sefaria texto primário
- Flávio Josefo, Autobiografia (Vida) 403, seção 72 na tradução inglesa de William Whiston texto primário
- Talmude Babilônico, Nedarim 41a, William Davidson Edition, Sefaria texto primário
- 4Q242, Oração de Nabonido, tradução inglesa em Livius texto primário
- Peregrino de Piacenza, Itinerarium 7 (c. 570), registro E00416, The Cult of Saints in Late Antiquity, Universidade de Oxford texto primário
- Jerome Murphy-O'Connor, "Peter's House", Bible Odyssey, Society of Biblical Literature estudo histórico
- Custódia da Terra Santa, "Capernaum" (história do sítio e das escavações franciscanas de 1968 a 1986 e de 2000 a 2003) relatório de escavação
- Biblical Archaeology Society, "The House of Peter: The Home of Jesus in Capernaum?", Bible History Daily (2011) estudo histórico
- James R. Wicker, "Pre-Constantinian Nomina Sacra in a Mosaic and Church Graffiti", Southwestern Journal of Theology 52.1 (2009), sobre os grafites de Cafarnaum publicados por E. Testa estudo histórico
- Joanna Dewey, "The Literary Structure of the Controversy Stories in Mark 2:1–3:6", Journal of Biblical Literature 92.3 (1973): 394-401 estudo histórico
- Tobias Hägerland, Jesus and the Forgiveness of Sins: An Aspect of His Prophetic Mission, SNTS Monograph Series 150 (Cambridge University Press, 2012) estudo histórico
- New American Bible Revised Edition, nota a Lucas 5:19, Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos comentário
- G. Abbott-Smith, A Manual Greek Lexicon of the New Testament (T. & T. Clark, 1922), e Liddell, Scott e Jones, A Greek-English Lexicon, verbetes κράβαττος, κέραμος, ἐξορύσσω, ἀποστεγάζω, via Logeion (Universidade de Chicago) léxico
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