Uma mesa rústica de feira sob a luz do começo da manhã, com pães redondos e achatados, uma jarra de barro com leite, um odre de vinho e um cântaro de água, e ao lado uma bolsinha de couro aberta e vazia.
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Devocional

O Que Não É Pão

Isaías 55 começa como um pregão de feira em que tiraram os preços, e depois faz uma pergunta sobre tudo aquilo que andamos pagando no lugar do pão.

Por Redação EmberKeeper 4 min de leitura

Texto bíblico Isaías 55:1–3 · Isaías 55:6–7 · Gênesis 42:3 · João 7:37 · João 6:35

Ó todos vós que tendes sede, vinde às águas; e vós que não tendes dinheiro, vinde, comprai, e comei.

Leia em voz alta e parece pregão de feira. Vinde, comprai, comei. Dá para ouvir as barracas. Aí a frase vai para um lugar aonde nenhuma feira jamais foi: “vinde, comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite.”

Água já seria muita bondade. Vinho e leite passam da sobrevivência. São o tipo de coisa que a gente põe na mesa quando fica feliz com a visita.

Comprar sem ter com quê

O verbo que Isaías usa para “comprar” é um verbo comum, de gente prática. É o mesmo que aparece em Gênesis quando “desceram os dez irmãos de José a comprar trigo ao Egito”, no meio da fome. É palavra de quem tem fome a ponto de viajar, negociar e voltar carregando saco nas costas.

Então o convite mantém o formato de uma compra e tira dela a única coisa sem a qual não existe compra. Você continua indo. Continua voltando para casa com alguma coisa. Só não tem nada para entregar, e ninguém cobra.

Isso é mais difícil de aceitar do que parece. Pagar dá a sensação de ter direito ao que se recebeu. Um presente deixa a gente devendo, ou pior, deixa a gente aos cuidados de alguém. Tem gente que prefere continuar pagando por comida ruim a sentar numa mesa que não conquistou.

A pergunta do versículo 2

“Por que gastais dinheiro naquilo que não é pão, e vosso trabalho naquilo que não pode trazer satisfação?”

Repare que Deus não repreende ninguém por ter fome. A sede é justamente o que qualifica a pessoa no versículo 1. O problema do versículo 2 é para onde essa fome anda levando a gente, e quanto isso tem custado.

Cada um sabe preencher a própria lista, e ela quase nunca é escandalosa. As horas a mais de trabalho para ganhar a aprovação de alguém que nunca vai dar. A compra que ia resolver alguma coisa e não resolveu nada. A noite inteira diante de uma tela que me deixou mais vazio do que antes. Nada disso é pecado em si. Só não é pão. Eu continuo pagando, continuo saindo com fome, e o curioso é que continuo voltando à mesma barraca.

A comida é ouvir

Veja o que acontece com a refeição conforme o texto avança. “Ouvi-me com atenção, e comei o que é bom, e vossa alma se deleite com a gordura.” A Bíblia Livre guarda a palavra concreta do hebraico. Para quem vivia com pouco, a gordura era a parte melhor, a porção de festa.

Em seguida: “Inclinai vossos ouvidos, e vinde a mim; ouvi, e vossa alma viverá.”

No versículo 3, comer e ouvir já viraram a mesma coisa. Deus não está apontando para um banquete em outro lugar. “Vinde a mim.” O alimento mais rico da mesa é a voz dele e a companhia dele, e só se come isso chegando perto e escutando.

Depois vem a promessa: “convosco farei um pacto eterno, tal como as firmes bondades prometidas a Davi.” Os capítulos 40 a 55 de Isaías falam consolo a Jerusalém depois do juízo, e a maioria dos estudiosos entende que eles se dirigem a judeus que passaram pelo exílio na Babilônia, quando não havia filho de Davi em trono nenhum. Para essa gente, a promessa a Davi podia soar como coisa do passado. Deus diz que ela continua firme, e agora a estende a “vós”, os que têm sede e não têm dinheiro.

Para onde o convite vai

O mesmo chamado continua ecoando. Poucos versículos adiante: “Buscai ao SENHOR enquanto se pode achar.” Séculos depois, numa festa em Jerusalém, Jesus se pôs em pé e exclamou: “Se alguém tem sede, venha a mim, e beba.” Em João 6 ele diz: “Eu sou o pão da vida.”

Os cristãos leem isso como o mesmo convite dito outra vez, agora com rosto. O preço continua fora. A mesa continua sendo dele.

Para hoje

Você não precisa esvaziar a vida inteira para responder a Isaías 55. Comece com uma pergunta honesta: pelo que eu venho pagando que não é pão? Dê nome a isso, sem fazer discurso.

Depois faça a coisa pequena que o texto pede tantas vezes. Incline o ouvido. Abra as Escrituras, ou fique quieto, ou faça uma oração de uma frase só, e escute mais tempo do que é confortável.

“Ouvi, e vossa alma viverá.” Nessa mesa não há nada a pagar. É exatamente por isso que custa tanto, para alguns de nós, sentar.

Para refletir

  • Em que eu venho gastando dinheiro, trabalho ou atenção que nunca me encheu de verdade, e mesmo assim continuo esperando que encha?
  • Como seria, nesta semana, inclinar o ouvido e simplesmente ir?

Oração

Senhor, eu paguei caro por muita coisa que não era pão. Estou cansado disso.

Não tenho nada para levar à tua mesa. Deixa-me chegar assim mesmo, ouvir, e viver.

Amém.

A mesa de Isaías 55 não tem preço porque o alimento é o próprio Deus falando. E a única maneira de comer é ouvir.

As Escrituras em português são da Bíblia Livre (BLIVRE), Copyright © Diego Santos, Mario Sérgio e Marco Teles, fevereiro de 2018. Licença Creative Commons Atribuição 4.0.