Devocional
Depois do Enterro
Dezessete anos depois de serem perdoados, os irmãos de José ainda esperavam o pai morrer para descobrir se o perdão era de verdade.
Texto bíblico Gênesis 50:15–21 · Gênesis 45:4–15 · Gênesis 44:33 · Gênesis 47:28
E vendo os irmãos de José que seu pai era morto, disseram: Talvez José nos odeie, e nos retribua de todo o mal que lhe fizemos.
A essa altura a reconciliação já tinha anos. José tinha se dado a conhecer, beijado cada um dos irmãos e chorado sobre eles, trazido a família inteira para o Egito e sustentado todos durante a fome. Jacó ainda viveu dezessete anos no Egito. Durante esse tempo todo, os irmãos comeram da mão do homem que tinham vendido, e pelo jeito uma parte deles ficou esperando este dia: o dia em que o pai fosse enterrado e não sobrasse ninguém para garantir a bondade de José.
O recado de um morto
Eles não aparecem pessoalmente logo de cara. Mandam um recado, citando uma ordem que Jacó teria dado antes de morrer: que José perdoasse os irmãos. Gênesis não registra Jacó dizendo nada parecido. Pode ser que tenha dito e o narrador não contou. Pode ser que os irmãos tenham inventado. O texto não esclarece.
O que fica claro é o medo. Dezessete anos de bondade não tinham bastado. Eles foram perdoados e não conseguiam acreditar, então recorreram à única autoridade que tinham certeza de que José ainda respeitava.
E José chorou enquanto falavam.
O narrador não explica o choro. Basta perceber que ser suspeito, depois de tudo, de estar só esperando um enterro para acertar as contas é uma ferida nova.
“Estou eu em lugar de Deus?”
Depois vêm os próprios irmãos, se prostram diante dele e dizem: “Eis-nos aqui por teus servos.”
Quem leu Gênesis desde o capítulo 37 reconhece a cena. Aos dezessete anos, José sonhou que os feixes dos irmãos se inclinavam diante do dele, e eles o odiaram por isso. Agora o sonho se cumpre quase ao pé da letra, e José recusa a posição que ele oferece.
“Não temais: estou eu em lugar de Deus?”
A pergunta recusa dois papéis de uma vez. O primeiro é o de juiz, aquele que pesa o que foi feito e decide o que cada um merece. Essa cadeira é de Deus, e José não senta nela. O segundo é o de senhor. Eles se oferecem como servos, e ele responde prometendo sustentar os filhos deles.
Ele não chama o mal de bem
Em seguida vem a frase que muita gente usa para dizer que no fim tudo dá certo.
“Vós pensastes mal sobre mim, mas Deus o encaminhou para o bem.”
José não diz aos irmãos que estava tudo bem. Não sugere que eles tinham boas intenções, nem que a cisterna, os mercadores e os anos de prisão no Egito acabaram não importando. Ele chama o que fizeram de mal e diz que foi pensado. No hebraico isso fica ainda mais marcado: o mesmo verbo aparece nas duas metades da frase, como se dissesse “vocês planejaram o mal, Deus planejou o bem”. A Bíblia Livre usa dois verbos, “pensastes” e “encaminhou”, e a tradução é legítima, mas o original repete a palavra. O plano de Deus não apaga o plano deles. A intenção dos irmãos continua ali, inteira, ao lado de um propósito maior que a tomou e a usou “para manter em vida muito povo”.
Para quem foi ferido e depois ouviu que precisa superar, isso vale muito. O perdão em Gênesis 50 não pede fingimento. José consegue dizer “vós pensastes mal” e “não temais” no mesmo fôlego, e as duas coisas são verdade.
A reconciliação não foi apressada
Quando os irmãos chegaram ao Egito pela primeira vez, José os reconheceu, fez que não os conhecia e falou com eles asperamente. Depois os submeteu a uma série de provas, que muitos leitores entendem como uma forma de descobrir se aqueles homens tinham mudado. A virada acontece quando Judá, o mesmo que tinha sugerido vender José, se oferece para ficar como servo no lugar de Benjamim, para que o rapaz volte ao pai.
Só então José se dá a conhecer.
Gênesis não transforma isso num protocolo, e a gente também não deveria. Mas a história não descreve uma reconciliação indiferente a qualquer mudança. O perdão soltou a dívida. A confiança, a mesa compartilhada e o sustento das famílias vieram para homens que já tinham mostrado não ser mais os mesmos da beira da cisterna.
Essa diferença pode ser um alívio. Dá para perdoar alguém, abrir mão do direito de revidar, deixar a sentença com Deus, e mesmo assim não entregar a essa pessoa a chave de casa. A história de José comporta as duas coisas.
Para hoje
Tem gente lendo isto do lugar de José. Tem gente lendo do lugar dos irmãos, sentada a uma mesa onde ainda não acredita que é bem-vinda.
Se você foi quem sofreu o mal, você não está em lugar de Deus, e isso é tanto limite quanto descanso. A sentença final não precisa pesar nas suas costas. Você pode chamar o mal de mal e ainda assim desistir de cobrá-lo.
Se você foi perdoado e continua se encolhendo, repare no fim da passagem: “Assim os consolou, e lhes falou ao coração.” Ele já tinha feito isso uma vez, anos antes, e fez de novo. Tem perdão que precisa ser dito mais de uma vez até alguém conseguir acreditar.
Para refletir
- Existe um mal que me fizeram e que me pediram para chamar de coisa pequena, quando o que eu preciso é poder chamá-lo de mal e ainda assim abrir mão da cobrança?
- Em que área eu já fui perdoado e continuo vivendo como se a sentença pudesse ser revogada a qualquer momento?
Oração
Deus, eu não estou no teu lugar. Tira de mim as sentenças que eu guardei para dar sozinho.
Dá-me honestidade para chamar o mal pelo nome, e liberdade para parar de cobrar a dívida.
Amém.
José nunca diz que o mal foi bom. Diz que Deus agiu por meio dele, e deixa o julgamento com o único que tem direito de julgar.
Fontes e notas
Consultado durante a escrita deste texto. Nada é listado aqui sem ter sido usado.
As Escrituras em português são da Bíblia Livre (BLIVRE), Copyright © Diego Santos, Mario Sérgio e Marco Teles, fevereiro de 2018. Licença Creative Commons Atribuição 4.0.