Devocional
Como as Correntes no Sul
O Salmo 126 lembra uma restauração tão boa que parecia sonho, e logo depois pede que Deus faça tudo de novo. É um cântico para o longo meio do caminho.
Texto bíblico Salmos 126:1–6
Quando o SENHOR restaurou Sião de seu infortúnio, estivemos como os que sonham.
O salmo começa com uma lembrança, e a lembrança é boa quase demais. Quando a virada veio, não parecia real. Parecia aquele sonho de que a gente acorda e fica quieto na cama, torcendo para que tenha sido verdade.
O Salmo 126 é um dos “Cânticos dos degraus”, o grupo que vai do Salmo 120 ao 134 e que muitos acreditam que os peregrinos cantavam subindo para Jerusalém. Ele não diz qual restauração está lembrando. Muitos leitores pensam na volta do exílio da Babilônia, e a leitura combina bem, mas o salmo deixa o acontecimento sem nome. Talvez seja por isso que tantas gerações conseguiram cantá-lo como seu.
Primeiro, o riso
“Então nossa boca se encheu de riso, e nossa língua de alegria.”
Antes de qualquer explicação, antes de qualquer teologia, veio o riso. Depois os vizinhos repararam: “então diziam entre as nações: O SENHOR fez grandes coisas para estes.”
E o povo pega a frase dos de fora e a torna sua: “Grandes coisas o SENHOR fez para nós; por isso estamos alegres.” Vale notar a ordem. No salmo, as nações dizem primeiro. Às vezes somos os últimos a enxergar o que Deus fez na nossa própria vida.
E então: de novo
O versículo 4 vira sem aviso. “Restaura-nos, ó SENHOR, como as correntes de águas no sul.”
É o mesmo verbo do versículo 1. Eles estão pedindo aquilo que já receberam.
Isso é honesto. Seja qual tenha sido a primeira restauração, ela não resolveu tudo. O povo que riu como quem sonha ainda tinha lugares secos, ainda tinha gente faltando, ainda tinha campos que não tinham dado nada. O salmo não finge que uma grande resposta encerra todas as necessidades para sempre. Ele lembra, e pede outra vez.
Correntes no sul
“Sul”, aqui, traduz o nome hebraico Neguebe, a terra seca do sul de Israel. Na maior parte do ano, os leitos dos riachos de lá são só poeira e pedra. Quando a chuva de inverno cai nas colinas, esses canais podem se encher de água corrente em poucas horas, às vezes de uma vez, e o deserto verdeja depois.
Essa é a primeira imagem de restauração que o salmo oferece: repentina, completa, leito seco num dia e correnteza no outro. O salmista pede isso, e não há nada de errado em pedir.
Semente e lágrimas
Então vem uma segunda imagem, bem diferente. “Os que semeiam em lágrimas colherão com alegria. Aquele que sai chorando com semente para semear voltará com alegria, trazendo sua colheita.”
Semear é lento. É trabalho feito na confiança, meses antes de se ver qualquer coisa, e neste salmo é feito chorando. O texto não diz por que o semeador chora. Quem já continuou fazendo o que precisava ser feito no meio do luto não precisa de explicação. A gente levanta. Sai. Põe a semente na terra com os olhos molhados.
No hebraico do versículo 6, os verbos de ir e de voltar vêm dobrados, um modo de dar ênfase e certeza. O choro é real, e a volta para casa é igualmente certa.
Para hoje
A maioria de nós vive no versículo 4, em algum lugar entre uma alegria de que se lembra e uma restauração que ainda está pedindo. O salmo dá palavras para as duas coisas. Lembre em voz alta o que Deus já fez; diga, como eles disseram: “Grandes coisas o SENHOR fez para nós.” Depois peça de novo, sem vergonha.
E, enquanto espera as correntes, continue semeando. O salmo conta com lágrimas no campo. Também conta que você volte de lá com os braços cheios.
Para refletir
- O que Deus já fez por mim que eu consigo nomear do jeito que o salmo nomeia, "Grandes coisas o SENHOR fez para nós"?
- Onde eu estou semeando em lágrimas agora, fazendo o que precisa ser feito com o luto ainda presente?
Oração
Senhor, grandes coisas fizeste por nós, e eu me lembro delas. Faz de novo onde está tudo seco.
Dá-me força para continuar semeando enquanto choro, e deixa-me voltar para casa trazendo alguma colheita.
Amém.
O Salmo 126 guarda duas imagens de restauração lado a lado: um leito seco que enche de repente e um campo que leva uma estação inteira. Ele pede a primeira e continua trabalhando na segunda.
Fontes e notas
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