Esboço de Sermão
O Resto da Missão
Todo mundo lembra do "Eis-me aqui! Envia-me!". Quase ninguém prega o que Deus disse em seguida: vai falar a um povo que não vai ouvir, até que as cidades sejam devastadas e só reste a base do tronco.
Texto bíblico Isaías 6:1–13 · 2 Crônicas 26:16–21 · João 12:37–41 · Isaías 2:11–17 · Isaías 8:16–18 · Números 21:6–9
Resumo para a pregação
- Verdade central
- Isaías vê o Rei santo, se desfaz diante dele, é purificado e se oferece. Depois é enviado a falar a um povo que não vai ouvir, até que o juízo não deixe nada além de um tronco queimado, e desse tronco, diz Deus, a base é a santa semente.
- Ideia exegética
- No ano em que morreu um rei orgulhoso e leproso, Isaías vê o Senhor no trono e ouve os serafins proclamarem que ele é santo. Confessa que tem lábios impuros, é tocado com uma brasa tirada do altar e declarado limpo, e responde à pergunta aberta de Deus com "Eis-me aqui". Recebe então uma mensagem que vai endurecer quem a ouvir, e quando pergunta até quando, ouve: até que a terra fique vazia, e o que restar seja a base de um tronco cuja vida é a santa semente.
- Ideia teológica
- A santidade de Deus purifica quem ele envia e julga o povo que o rejeita, e o juízo dele não é a última palavra, porque dentro dele Deus mantém vivo um remanescente santo.
- Ideia central
- Deus pode te enviar para dizer coisas verdadeiras a gente que não vai escutar, e ele mede o trabalho pelo tronco que mantém vivo.
- Objetivo
- Entregar à congregação, e sobretudo a quem serve, o chamado inteiro de Isaías e não só a primeira metade, para que a disposição de servir se apoie na santidade e no perdão de Deus, e para que consigam permanecer fiéis em longas temporadas em que quase ninguém responde.
- Duração estimada
- 35 a 40 minutos
A tensão inicial
A maioria de nós aprendeu Isaías 6 como texto de recrutamento.
Tem visão, confissão, perdão, uma pergunta de Deus e um voluntário, e o “Eis-me aqui! Envia-me!” já encerrou muito apelo missionário por aí.
O capítulo tem treze versículos. A frase do apelo é o versículo 8. A descrição do trabalho que Deus entrega ao voluntário ocupa os cinco últimos, e é uma das tarefas mais duras já dadas a um ser humano: vai e fala, e a tua fala vai deixá-los mais surdos do que os encontrou. Isaías faz a única pergunta que um pastor faria. Até quando? A resposta é a base de um tronco.
Onde isso está dentro de Isaías
Jeremias e Ezequiel abrem seus livros com o chamado. Isaías espera até o capítulo 6, e o lugar importa.
Os capítulos 1 a 5 são uma acusação. Abrem com Deus reclamando que o boi conhece o seu dono e o jumento a manjedoura, “mas Israel não conhece, meu povo não entende” (1:3). Guarde esses dois verbos, conhecer e entender; eles voltam em 6:9. O capítulo 5 então despeja uma sequência de “ai dos que” sobre o povo: ai dos que juntam casas, ai dos que se levantam cedo para beber, ai dos que chamam o mal de bem. Na próxima vez que o profeta diz “ai”, ele diz sobre si mesmo: “Ai de mim” (6:5). O movimento de “eles” para “eu” é o capítulo inteiro em miniatura.
Se o capítulo 6 registra o primeiro chamado de Isaías é uma pergunta real. Isaías 1:1 situa as visões dele nos dias de Uzias e dos reis seguintes, então ele talvez já estivesse ativo. Alguns leem o capítulo 6 como o chamado inaugural, colocado aqui por razões teológicas; outros, como uma missão posterior e específica. Não resolva isso no púlpito. O sermão não depende disso.
O que o sermão depende é do que vem depois. A partir de 6:1 o livro fala na primeira pessoa por vários capítulos, um bloco que muitos chamam de memórias de Isaías. A primeira cena depois da missão é o capítulo 7: Isaías vai ao encontro do rei Acaz com uma palavra de Deus, e Acaz não aceita. “Se não crerdes, não ficareis firmes” (7:9). O primeiro ouvinte da nova missão não ouve. O bloco fecha em 8:16 a 18 com uma ordem, “Liga o testemunho; sela a Lei entre meus discípulos”, com o profeta esperando pelo SENHOR, que esconde o rosto da casa de Jacó, e dizendo: “Eis aqui, eu e os filhos que o SENHOR me deu, somos como sinais”.
Ou seja, o livro mostra a missão funcionando em dois capítulos. Um rei recusa, um pequeno círculo guarda a palavra, e o “eis aqui” do profeta volta, agora com os filhos ao lado.
O ano em que o rei morreu
Isaías data a visão por uma morte. Vale saber de quem.
Uzias, chamado Azarias em 2 Reis, reinou cinquenta e dois anos (2 Reis 15:2). Crônicas lhe atribui vitórias e construções, e diz que “divulgou-se seu nome até a entrada do Egito; porque havia se tornado altamente poderoso” (2 Crônicas 26:8). A morte dele costuma ser situada por volta de 740 a.C., com alguns anos de margem conforme a cronologia adotada.
Aí Crônicas conta o fim: “quando foi fortificado, seu coração se enalteceu até corromper-se” (26:16). Ele entrou no templo do SENHOR para queimar incenso no altar do incenso, oitenta sacerdotes entraram atrás dele, ele se irou contra eles com o incenso na mão, e a lepra lhe surgiu na testa ali mesmo, junto ao altar. Viveu o resto da vida numa casa separada, “separado da casa do SENHOR” (26:21), e foi sepultado no campo dos sepulcros reais, “porque disseram: Leproso é” (26:23).
Três cuidados. O livro de Reis diz apenas que “o SENHOR feriu ao rei com lepra” (2 Reis 15:5), sem dar motivo; a história do incenso é de Crônicas, escrito séculos depois. Isaías não menciona nada disso. E a doença não é necessariamente a hanseníase moderna; o termo hebraico cobre as condições descritas em Levítico 13.
Mesmo assim, as duas cenas ficam muito perto uma da outra no cânon, e o próprio cronista convida à comparação ao dizer que os feitos de Uzias “escreveu-os Isaías profeta, filho de Amoz” (26:22). Em Crônicas, um rei cujo coração se enalteceu entra no templo certo do seu direito, e sai às pressas, impuro. Em Isaías, um homem está no templo, vê o Senhor num alto e elevado trono, diz que é impuro, e é purificado. No hebraico, a palavra para “templo” é a mesma nas duas cenas. Os leitores antigos perceberam: a paráfrase aramaica conhecida como Targum Jonathan traduz 6:1 como o ano em que o rei Uzias foi ferido de lepra. Apresente isso como a Bíblia colocando duas cenas lado a lado, não como algo que Isaías diz.
Uma ressonância, marcada como ressonância: Levítico 13:45 manda que o leproso fique “com o lábio superior coberto” e proclame: “Imundo! Imundo!”. As primeiras palavras de Isaías sobre si mesmo falam de lábios e de impureza. Nenhum autor bíblico traça essa linha.
O mundo ao redor. Em 745 a.C. Tiglate-Pileser III subiu ao trono da Assíria, e em poucos anos a Assíria fazia campanhas no oeste. Samaria caiu em 722. Em 701 Senaqueribe invadiu Judá; os anais dele reivindicam quarenta e seis cidades fortificadas de Ezequias, e o cerco de Laquis foi esculpido nas paredes do palácio dele em Nínive. “Até que as cidades sejam devastadas” (6:11) começou a se cumprir ainda em vida de Isaías. A Babilônia completou o esvaziamento um século depois.
Uma placa, com cuidado. O Museu de Israel guarda uma placa de pedra em aramaico, datada pela escrita da virada da era, registrando que os ossos de Uzias, rei de Judá, foram trazidos para ali e não devem ser abertos. Séculos depois, alguém transferiu os restos dele e ainda sabia quem ele era. A placa não localiza o túmulo original e não acrescenta nada ao relato da doença.
Os serafins, e o quanto dá para afirmar
Esta é a única passagem da Bíblia em que serafins aparecem na presença de Deus, e o pregador precisa resistir a preencher o que Isaías deixa em branco.
O que se sustenta: a palavra vem do verbo hebraico “queimar”, e “os que ardem” é uma tradução razoável. O mesmo substantivo nomeia um tipo de cobra. Em Números 21:6 o SENHOR envia “serpentes ardentes” entre o povo, e em 21:8 diz a Moisés: “Faze-te uma serpente ardente”; no hebraico, literalmente, faze-te um serafim. Deuteronômio 8:15 lembra o deserto “de serpentes ardentes”. E duas vezes em Isaías a palavra descreve uma “serpente voadora” (14:29; 30:6). A Bíblia Livre, ao traduzir “ardentes”, preserva bem a raiz.
O que Isaías descreve é outra coisa. Os serafins dele têm rosto e pés, pelo menos um tem mão (6:6), falam, e cada um tem seis asas. Alguns estudiosos os comparam a figuras de serpentes aladas da arte do antigo Oriente Próximo, inclusive em selos de Judá. É um pano de fundo possível e continua sendo reconstrução. O texto nunca os chama de serpentes, e também nunca os chama de anjos.
O que interessa ao texto são as asas. Com duas cobrem o rosto, com duas cobrem os pés, com duas voam. As criaturas mais próximas do trono gastam dois terços das asas para não ver e não ser vistas. Se os que ardem cobrem o rosto, o pavor de Isaías no versículo 5 é simplesmente exato. E é um dos que ardem que leva a brasa viva até a boca dele.
Notas de linguagem
Todas verificáveis, nenhuma exigindo etimologia especulativa.
O rei e o Rei. O versículo 1 começa com “o rei Uzias”. O versículo 5 termina com “meus olhos viram ao Rei, o SENHOR dos exércitos”. No hebraico é a mesma palavra nos dois lugares. No ano em que o rei morreu, Isaías viu o Rei. Isso é o texto, não enfeite de pregador.
Alto e elevado. A Bíblia Livre diz que o Senhor estava sentado “sobre um alto e elevado trono”. O par é uma expressão fixa em Isaías, e o leitor da Bíblia Livre consegue enxergar isso. Em 2:13 ele descreve “os cedros do Líbano, altos e elevados”, parte de tudo o que é soberbo e que Deus vai abater, porque “só o SENHOR será exaltado naquele dia” (2:11, 17). Em 52:13 o servo “será exaltado e elevado, e muito sublime”. E em 57:15, onde a Bíblia Livre traz “o Alto e Sublime”, o hebraico usa o mesmo par para o próprio Deus. O que o capítulo 2 derruba nas árvores e nos homens, o capítulo 6 vê no trono de Deus.
Santo, três vezes. O hebraico intensifica pela repetição, e a repetição tripla é rara, mas não única. Único é ela ser dita de Deus, aqui e no eco de Apocalipse 4:8. O título preferido de Isaías para Deus, “o Santo de Israel”, aparece umas vinte e cinco vezes no livro e poucas vezes no resto do Antigo Testamento. Muitos comentaristas acham que esta visão o marcou.
A voz do que clamava. No versículo 4 a Bíblia Livre diz que as molduras das portas se moviam “com a voz do que clamava”, no singular, acompanhando o hebraico. Não construa nada sobre isso; apenas não diga ao público que o texto fala de um coro inteiro fazendo tremer o edifício.
“Vou perecer.” O verbo de 6:5 pode significar ser destruído ou ser silenciado, e os comentaristas se dividem. Os dois sentidos cabem num homem cuja confissão é sobre os lábios. Você pode oferecer os dois sem escolher.
Afastada e purificado. Em 6:7 a Bíblia Livre diz: “já foi afastada de ti tua culpa, e purificado estás de teu pecado”. O verbo hebraico por trás de “purificado” é o que Levítico usa para a expiação, como em Levítico 4:20: “assim fará o sacerdote expiação por eles, e obterão perdão”. A brasa vem do altar, o lugar do sacrifício.
A ordem. A Bíblia Livre traduz o versículo 9 no futuro: “certamente ouvireis, mas não entendereis”. No hebraico são imperativos, com o verbo dobrado para dar ênfase: ouvi, ouvi sem parar. O versículo 10 conserva a ordem dirigida ao profeta: “Faze o coração deste povo se encher de gordura, e os ouvidos deles ficarem pesados”. A Bíblia Livre mantém a imagem física do hebraico, gordura e peso. E a frase começa no coração e termina nos corações, com o temor bem no meio: que se convertam, e Deus os cure.
Como o Novo Testamento recebeu o texto. A tradução grega transformou a ordem em descrição, “o coração deste povo está insensível”, e é essa a forma citada em Mateus 13:15 e Atos 28:27. João 12:40 faz disso um ato de Deus: “Os olhos lhes cegou, e o coração lhes endureceu”. Marcos 4:12 termina com “e lhes sejam perdoados os pecados”, o que concorda com o Targum aramaico (“e se arrependam, e lhes será perdoado”) e não com o “cure” do hebraico. Os apóstolos conheciam o texto em mais de uma forma. Nenhum deles usou forma nenhuma para suavizá-lo.
“Este povo.” Deus diz “este povo” em 6:9 e 10, e de novo em 8:6 e 8:11 a 12. Em 1:3 ele tinha dito “meu povo”. Não construa doutrina sobre um pronome demonstrativo, mas deixe a congregação ouvir a distância.
O último versículo. O hebraico de 6:13 é difícil. Mesmo a décima parte que ficar “voltará a ser consumida”, como uma grande árvore ou um carvalho derrubados dos quais só fica a base do tronco; e então a última frase: “assim a santa semente será a base dela”. Essa frase não aparece na tradução grega, e alguns estudiosos a consideram um acréscimo posterior; outros a defendem. Ela está no texto hebraico que as nossas Bíblias traduzem, e é a única palavra de esperança da missão. Pregue-a como texto, sem pendurar o sermão inteiro numa frase de história discutida.
O que a maioria dos leitores não percebe
Deus nunca chama Isaías pelo nome. Abraão, Moisés e Samuel respondem “Eis-me aqui” quando Deus chama o nome deles (Gênesis 22:1; Êxodo 3:4; 1 Samuel 3:4). Isaías não é chamado de nada. Ele escuta uma pergunta feita na sala do trono, “A quem enviarei? E quem irá por nós?”, e responde. O paralelo mais próximo no Antigo Testamento é a visão de Micaías em 1 Reis 22:19 a 22: o SENHOR no trono, o exército dos céus ao redor, uma pergunta (“Quem induzirá a Acabe?”) e um voluntário, enviado com uma mensagem que serve ao juízo. O “nós” se lê com mais naturalidade contra esse quadro de uma corte celestial. Alguns o leem como plural de majestade, e leitores cristãos posteriores ouviram nele a Trindade. Os primeiros ouvintes de Isaías teriam ouvido um rei em conselho.
O perdão vem antes da pergunta. Isaías não é purificado porque se ofereceu, e o texto não diz que foi purificado para ser útil. A ordem é visão, confissão, expiação, e só então a pergunta. O homem que diz “Envia-me” acabou de ouvir que a sua culpa foi afastada.
O filho dele leva a resposta pelas ruas de Jerusalém. Em 7:3 Isaías vai ao encontro de Acaz com o filho, Sear-Jasube. O nome significa “um resto voltará”, e o próprio livro o explica em 10:21 a 22: “Os restantes se converterão, os restantes de Jacó, ao Deus Forte”. Repare no verbo. É o mesmo de 6:10, “e assim não se convertam”, tanto no hebraico quanto na Bíblia Livre. O que a missão fecha para “este povo” é prometido a um remanescente, e o profeta leva a promessa pela mão até o rei.
O livro reverte a sentença. Capítulos adiante retomam o mesmo vocabulário e o viram do avesso: “naquele dia os surdos ouvirão as palavras do livro” (29:18); “Então os olhos dos cegos serão abertos, e os ouvidos dos surdos se abrirão” (35:5). O endurecimento do capítulo 6 tem horizonte, e o livro sabe disso. A pergunta de Isaías foi “Até quando?”, e a resposta começou com “até que”.
O Novo Testamento volta a ele em momentos decisivos. Jesus o cita para explicar as parábolas (Mateus 13:14 a 15; Marcos 4:12). João o cita onde termina o ministério público de Jesus, logo depois de “indo-se, escondeu-se deles” (João 12:36 a 41). Lucas o cita na última cena de Atos (28:25 a 28). Sempre que a igreja primitiva precisou explicar por que o evangelho encontrava recusa, recorreu a esses versículos.
Por que isso importa: os versículos que o sermão missionário deixa de fora
Quando paramos no versículo 8, mandamos voluntários esperando colheita. Isaías foi enviado esperando o contrário, e ouviu isso no primeiro dia.
Isso muda o que significa fidelidade. Se a medida de um ministério é a resposta, Isaías fracassou. O rei não escutou, o povo não se converteu, as cidades queimaram. Mas o capítulo define o êxito antes de tudo isso acontecer: vai, e diz. Ele foi e disse.
Repare no formato da resposta dele. Não pergunta por quê. Não argumenta, como Moisés (“envia por meio do que hás de enviar”, Êxodo 4:13) e Jeremias (“não sei falar”, Jeremias 1:6). Pergunta: “Até quando, Senhor?”. É linguagem de lamento, é assim que começa o Salmo 13. Aceita a tarefa e pede o horizonte. A resposta de Deus é honesta e terrível: até que as cidades fiquem sem morador e a terra seja devastada por completo, e mesmo a décima parte volte a ser consumida. Depois vem a última frase. Fica a base do tronco, e a base é a santa semente.
Quem serve gente que não está escutando, inclusive o pai ou a mãe de um filho adulto que se afastou, precisa da segunda metade deste capítulo mais do que da primeira. A primeira diz quem te envia. A segunda diz com o que isso pode se parecer, e o que Deus está mantendo vivo por baixo.
Movimentos
A passagem se divide em quatro, e a virada vem no meio do terceiro.
1. Um trono no ano de um enterro (6:1–4). Estabeleça a data e deixe que ela pese. Um rei cujo coração se enalteceu morreu isolado, impuro. Então Isaías vê o Rei. Leia devagar o clamor dos serafins e mostre os rostos cobertos. Fique com a descrição onde Isaías fica: o manto, as asas, a voz, as portas que se movem, a fumaça. Resista à arquitetura.
2. Desfeito, e tocado (6:5–7). A primeira coisa que a santidade faz com Isaías é calá-lo. Ele não confessa primeiro o pecado do povo; diz “sou homem de lábios impuros”, e só depois “moro no meio de um povo de lábios impuros”. A brasa vem do altar, e a palavra de perdão é dita sobre ele antes que ele faça qualquer coisa.
3. “Eis-me aqui”, e o que veio junto (6:8–10). É a virada do sermão. Deixe a congregação saborear o versículo 8 por um momento, porque ele é glorioso. Depois continue lendo. O voluntário recebe uma mensagem que vai endurecer quem a ouvir. Explique a ordem com honestidade; não corra para livrar Deus dela. Depois mostre onde os capítulos 1 a 5 já tinham colocado o povo: não conhece, não entende.
4. Até quando? (6:11–13). A pergunta do profeta é a pergunta da congregação. A resposta é “até que”. Percorra devagar o esvaziamento e termine o movimento na última frase, com a imagem de um carvalho derrubado que volta a brotar. Jó conhecia essa imagem: “há ainda alguma esperança para a árvore que, se cortada, ainda se renove” (Jó 14:7).
Do estudo para o púlpito
Sobre os serafins. Uma forma possível de explicar isso à congregação: “A palavra serafim vem do hebraico ‘queimar’. Dá para chamá-los de ‘os que ardem’. A mesma palavra aparece em outros lugares da Bíblia para cobras, as serpentes ardentes do deserto, e até para uma serpente voadora. Mas Isaías descreve criaturas com rosto, pés, mão e seis asas. E com quatro dessas asas eles cobrem o rosto e os pés. As criaturas que estão mais perto de Deus não aguentam olhar para ele.”
Sobre a ordem de endurecer. Uma forma possível de explicar isso à congregação: “Não vou fingir que o versículo 10 diz algo mais suave do que diz. Deus avisa Isaías que a pregação dele vai endurecer o coração do povo. Mas repare onde isso aparece no livro. Durante cinco capítulos Deus vinha dizendo: Israel não conhece, meu povo não entende. Eles ouviram e ouviram. O que Deus faz aqui é entregá-los àquilo que eles já tinham escolhido. E até isso tem fim, porque Isaías pergunta até quando, e Deus responde.”
Sobre o “Até quando?”. Uma forma possível de explicar isso à congregação: “Isaías não pergunta a Deus por quê. Pergunta até quando. É outra oração. ‘Por quê’ quer uma explicação. ‘Até quando’ já aceitou ir e está pedindo o horizonte. Alguns de vocês oram ‘por quê’ há anos por alguém que amam. A oração de Isaías talvez seja a mais honesta.”
Implicações teológicas
A santidade neste capítulo é antes de tudo a alteridade de Deus, a realeza dele e o direito dele sobre tudo: “Toda a terra está cheia de sua glória!”. Ela é perigosa para pecadores. “Não me verá homem, e viverá” (Êxodo 33:20) está por trás do pavor de Isaías.
A mesma santidade que o ameaça o purifica. A brasa vem do altar de Deus, é trazida por um servo de Deus e aplicada por iniciativa de Deus. Isaías entra com a confissão e com mais nada.
O endurecimento é judicial: Deus entrega um povo à surdez que ele mesmo praticou. As Escrituras mantêm essa doutrina dura, e Paulo fala dos que “foram endurecidos” (Romanos 11:7). Também a mantêm limitada: “o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude dos gentios tenha entrado” (Romanos 11:25). O “até que” de Isaías e o “até que” de Paulo andam juntos.
E o remanescente é obra de Deus. O capítulo não diz que os fiéis sobrevivem porque são fiéis. Diz que a base do tronco é a santa semente, e 4:3 já tinha dito que quem for deixado em Jerusalém “será chamado santo”. A santidade começa o capítulo como aquilo que ameaça o profeta e termina como o nome do que Deus preserva.
Conexão cristológica
Nomeie o tipo de conexão que você está fazendo. Este capítulo tem uma explícita, o que é raro, então aproveite e não a misture com as mais fracas.
Explícita. “Isto disse Isaías, quando viu sua glória, e falou dele” (João 12:41). “Sua glória” é a glória de Jesus, e o contexto não deixa dúvida: “não criam nele” (12:37), e muitos dos chefes “creram nele” (12:42). João acabou de citar Isaías 6:10. A glória que Isaías viu no trono, diz João, era a glória do Filho. Essa é a leitura que o próprio Novo Testamento faz da passagem, e você pode dizer isso sem rodeios. Leia junto com João 1:14, “vimos sua glória”, e 1:18: “A Deus nunca ninguém o viu; o unigênito Filho, que está no seio do Pai, ele o declarou.” Se alguém perguntar: a Bíblia Livre segue o texto bizantino, que diz “quando viu”; as edições críticas modernas trazem “porque viu”. De quem era a glória, é o mesmo nas duas.
Explícita, e mais incômoda. Jesus aplica os versículos 9 e 10 à recepção das parábolas dele, e João à recusa dos sinais dele. O Senhor que Isaías viu no trono veio em carne e encontrou exatamente a surdez que a missão anunciava. Ele é quem está no trono e quem não foi ouvido.
Canônica. João cita Isaías 53:1 em 12:38, logo antes de Isaías 6:10. O servo de 52:13 é descrito com a mesma linguagem de “elevado” da visão do trono, e a tradução grega desse versículo diz que ele será “exaltado e glorificado”, os dois verbos que João usa para a cruz: “será glorificado” (12:23) e “quando for levantado da terra” (12:32). Vários estudiosos, entre eles Richard Bauckham, defendem que João leu Isaías 6 e Isaías 52 e 53 juntos, de modo que a glória que Isaías viu é a glória do crucificado. Apresente isso como uma leitura forte de João, não como algo que João afirma.
Teológica. A brasa do altar purifica um pecador por meio do sacrifício, por iniciativa de Deus, e a teologia cristã ouve com razão o evangelho nesse padrão. O Novo Testamento nunca cita 6:7, então pregue isso como conexão teológica.
Imagem canônica. A “base do tronco” de 6:13 e a “vara” que brota “do tronco cortado de Jessé” em 11:1 compartilham uma imagem, não uma palavra. Paulo aplica a “raiz de Jessé” de 11:10 a Cristo (Romanos 15:12). Nenhum autor do Novo Testamento liga 6:13 a Cristo.
Não autorizada como sentido de Isaías. A Trindade no “Santo! Santo! Santo!” ou no “nós”. A igreja canta o hino dos serafins à mesa da ceia há séculos e ouve nele a Trindade. É uma leitura teológica feita do outro lado do Novo Testamento, e bonita. Não é o que Isaías entendeu, e não é prova.
Aplicação pastoral contemporânea
Mire em duas salas ao mesmo tempo.
Para quem serve, e sobretudo para quem serve onde quase nada cresce: este capítulo foi escrito para você. Ele não promete resultado. Promete um Deus santo, um perdão que vem antes da tarefa, e a base de um tronco. Se você prega, ensina ou ora há anos com pouco para mostrar, não está fora da missão de Isaías. Pode estar bem no meio dela.
Para a congregação como um todo: nós somos “este povo” antes de sermos qualquer outra coisa. O endurecimento de Isaías 6 acontece com gente religiosa que ouve há muito tempo. Ouvir sem entender é problema de igreja antes de ser problema do mundo lá fora. A pergunta para a maioria de nós não é se já ouvimos. É se o ouvir virou um hábito que nos protege de nos convertermos.
E para quem se sente desqualificado pelo que já saiu da própria boca: a brasa foi para os lábios. Deus não enviou um homem de fala limpa. Limpou a fala de um homem que sabia que ela era impura, e então o enviou.
Possibilidades de ilustração
Use primeiro as imagens da própria passagem: as bordas do manto enchendo o templo, os rostos cobertos, a brasa trazida com a tenaz, o carvalho derrubado.
Se for buscar fora do texto, use algo verificável e diga que uma analogia é uma analogia. Uma árvore cortada que solta brotos verdes na primavera seguinte é algo que quase todo mundo já viu, e Jó 14:7 é a versão das próprias Escrituras. Um servo de Deus cujo fruto só apareceu depois que ele se foi também serve, se você conseguir nomear um caso real e documentado. Não invente um missionário.
Dinâmicas de pregação
Leitura da congregação. Projete ou imprima os versículos 1 a 13 e peça que todos leiam juntos, em voz alta, do 1 ao 8. Depois siga sem comentário e leiam juntos do 9 ao 13. Muitos vão esperar parar no “Envia-me!”. Deixe que sintam o momento em que percebem que a leitura não acabou.
Silêncio intencional. Depois de “Até quando, Senhor?”, pare de dez a quinze segundos antes de ler a resposta de Deus. Deixe a sala fazer a pergunta junto com Isaías.
Pergunta para a congregação. “Você teria dito ‘Eis-me aqui’ se tivesse ouvido antes os versículos 9 a 13?” Faça a pergunta e não responda.
Lição com objeto, com parcimônia. Um toco de árvore sobre a mesa da ceia, com um broto verde se você conseguir. Nomeie só na última frase do versículo 13. Se parecer artificial no seu contexto, deixe de fora.
Direção de encerramento
Termine no tronco, não no voluntário.
A última coisa que o capítulo mostra é uma árvore derrubada numa terra vazia, e Deus dizendo que a base dela é a santa semente. A última coisa que as memórias mostram é Isaías de pé com os filhos, o testemunho selado entre poucos discípulos, esperando por um Deus que esconde o rosto, e dizendo outra vez: “Eis aqui, eu e os filhos” (8:18). O voluntário de 6:8 não virou um fracasso. Virou um homem que guardou a palavra através do fogo.
Depois leve a congregação a João 12:41. Isaías viu a glória dele. Aquele que estava no trono desceu, falou, não foi ouvido, e foi levantado.
Se um apelo couber no seu contexto, a porta é o que está no centro do versículo 10: que se convertam, e Deus os cure. É justamente o que os endurecidos não fazem, e continua sendo oferecido a qualquer pessoa na sala que ouve há muito tempo. Isaías foi enviado a um povo que não queria se converter. Não seja um deles.
Fontes e estudo adicional
Os textos primários e as versões antigas consultados para este roteiro estão listados em Fontes e notas, abaixo. Para aprofundar (as obras estão em inglês, salvo indicação):
- John N. Oswalt, The Book of Isaiah: Chapters 1–39, New International Commentary on the Old Testament (Eerdmans, 1986). Cuidadoso e teologicamente rico.
- Brevard S. Childs, Isaiah, Old Testament Library (Westminster John Knox, 2001). Sobre a função do capítulo 6 dentro do livro como um todo.
- H. G. M. Williamson, Isaiah 6–12, International Critical Commentary, Isaiah 1–27 vol. 2 (T&T Clark, 2018). O comentário técnico, para testar as notas de linguagem e o versículo 13.
- J. Alec Motyer, Isaiah, Tyndale Old Testament Commentaries (IVP, 1999).
- Joseph Blenkinsopp, Isaiah 1–39, Anchor Bible 19 (Doubleday, 2000). Útil para o contexto histórico.
- Sara Japhet, I & II Chronicles, Old Testament Library (Westminster John Knox, 1993). Sobre o Uzias do cronista.
- Craig A. Evans, To See and Not Perceive: Isaiah 6.9–10 in Early Jewish and Christian Interpretation (JSOT Press, 1989). Como os versículos 9 e 10 foram lidos, suavizados e aplicados.
- D. A. Carson, The Gospel According to John, Pillar New Testament Commentary (Eerdmans, 1991). Sobre João 12:37–41.
- Richard Bauckham, Jesus and the God of Israel (Eerdmans, 2008). Sobre João ler Isaías 6 e 52–53 juntos.
Onde este texto costuma ser mal conduzido
- Parar no versículo 8. "Eis-me aqui! Envia-me!" é a frase mais citada do capítulo e a que menos o representa. Um apelo missionário construído só sobre os versículos 1 a 8 recruta voluntários para um trabalho que o capítulo não descreve. Se o tempo for curto, corte da visão, não da missão.
- Dizer que "serafim" significa "anjo de fogo" ou, no sentido oposto, que os serafins eram cobras. A palavra vem do verbo hebraico "queimar", e em outros lugares designa um tipo de serpente: as "serpentes ardentes" de Números 21:6 e 8 e de Deuteronômio 8:15, e em Isaías mesmo a "serpente voadora" de 14:29 e 30:6. Os serafins de Isaías têm rosto, pés, mão, voz e seis asas. Diga as duas coisas e não decida como eles eram.
- Apresentar o "Santo! Santo! Santo!" como revelação da Trindade a Isaías, ou como uma forma tripla única. O hebraico repete uma palavra para intensificá-la, e há outra repetição tripla em Jeremias 7:4 ("Templo do SENHOR!" três vezes). O que é único é Deus ser chamado santo três vezes. A leitura trinitária da igreja é teológica e posterior, e deve ser apresentada assim.
- Construir o sermão sobre a arquitetura do templo. O texto diz que as bordas do manto enchiam o templo, e a palavra hebraica pode significar palácio ou templo e nomeia o salão principal do templo de Salomão. Não diz de qual altar veio a brasa, se Isaías estava no edifício ou viu a corte celestial, nem que Isaías era sacerdote. Você também não deveria dizer.
- Ligar as molduras das portas que se moviam (versículo 4) ao terremoto de Amós 1:1 e Zacarias 14:5. O terremoto foi real e lembrado, e aconteceu nos dias de Uzias. Nada em Isaías 6 liga uma coisa à outra. É especulação.
- Pregar que a palavra hebraica para expiação "significa cobrir". O verbo por trás de "purificado" em 6:7 é o que Levítico usa para a expiação, e isso basta. A etimologia é discutida, e o sermão não precisa dela.
- Suavizar o versículo 10 para "Deus sabia de antemão que eles não iam ouvir". O versículo é uma ordem ao profeta. Também não pregue como se Deus endurecesse gente inocente. Os capítulos 1 a 5 já mostraram um povo que não conhece e não entende (1:3). O endurecimento confirma uma recusa; não a cria do nada.
- Usar os versículos 9 e 10 para desculpar pregação preguiçosa. O profeta que recebeu essa missão se tornou um dos maiores poetas da Bíblia. Uma congregação que não responde pode estar endurecida. Pode também ter um pregador que parou de estudar.
- Dizer que a "base do tronco" de 6:13 e o "tronco cortado de Jessé" de 11:1 são a mesma palavra. Em português as duas lembram "tronco"; no hebraico são palavras diferentes. A imagem liga as passagens; o vocabulário não.
- Tratar a lepra de Uzias como a hanseníase moderna. O termo hebraico cobre uma série de doenças de pele descritas em Levítico 13, e não há como diagnosticar nada a partir do texto.
Perguntas para o pregador
- Se você tivesse ouvido os versículos 9 a 13 antes de dizer "Eis-me aqui", teria dito mesmo assim? Existe alguma parte da sua disposição que depende de ser ouvido?
- A pergunta de Isaías é "Até quando?", e não "Por quê?". Ele aceita a tarefa e pede o horizonte dela. Qual dessas duas perguntas você costuma levar a Deus sobre as pessoas que serve?
- A brasa toca os lábios de Isaías, o lugar do pecado confessado e o instrumento do trabalho que viria. Em que ponto você mais precisa de perdão justamente naquilo que usa para servir?
- Você consegue pregar o endurecimento "deste povo" a uma congregação do próprio povo de Deus, incluindo você mesmo, sem transformar isso num sermão sobre os de fora?
Fontes e notas
Consultado durante a escrita deste texto. Nada é listado aqui sem ter sido usado.
- Berean Standard Bible (domínio público) texto primário
- Bíblia Livre 2018 (CC BY) texto primário
- Códice de Leningrado (Westminster), Isaías 6 e 2 Crônicas 26 (hebraico) texto primário
- Septuaginta, Isaías 6 e 52:13 (grego, texto de Rahlfs distribuído com Brenton) versão antiga
- Targum Jonathan sobre Isaías 6, trad. inglesa de C. W. H. Pauli (1871) versão antiga
- SBL Greek New Testament e Texto Bizantino, João 12:41 aparato textual
- Museu de Israel, Jerusalém: placa funerária aramaica de Uzias, rei de Judá objeto de museu