Uma família de exilados judeus planta uma pequena horta num pátio de tijolos de barro na Babilônia, enquanto um vizinho leva água por perto.
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Devocional

No Endereço Que Não Escolhemos

Em Babilônia, Deus manda seu povo construir, plantar, formar famílias e buscar a paz da cidade onde eles não escolheram viver.

Por Redação EmberKeeper 5 min de leitura

Texto bíblico Jeremias 29:4–7 · Jeremias 29:1–3 · Jeremias 29:8–10

Edificai casas, e nelas habitai; plantai hortas, e comei o fruto delas.

Essa frase não foi escrita para gente escolhendo um bairro, comparando escolas e imaginando um começo tranquilo. A carta de Jeremias chegou a pessoas levadas de Jerusalém para a Babilônia. Havia anciãos, sacerdotes, profetas e povo comum entre os destinatários. O endereço deles tinha sido decidido por forças maiores que eles.

O texto também não deixa o desastre no terreno do acaso. A palavra vem assim: “Assim diz o SENHOR dos exércitos, Deus de Israel, a todos os levados cativos, os quais fiz transportar de Jerusalém à Babilônia:”

Essa última linha pesa. Deus não se apresenta apenas como consolo para depois da perda. Ele fala como o Senhor que continuava governando quando o povo não entendia o mapa da própria vida. Isso não torna Babilônia boa. Não torna o exílio leve. Também não autoriza respostas rápidas para a dor de quem foi arrancado do lugar que amava. Apenas impede que os cativos pensem que Deus ficou em Jerusalém e que, em Babilônia, só restava sobreviver.

O trabalho lento da fidelidade

A primeira ordem é doméstica: construir e morar. Depois vem a terra: plantar e comer. Uma casa exige tempo. Uma horta exige cuidado antes de dar fruto. Quem planta aceita esperar, regar, defender a muda e colher em outra estação. Para um povo em exílio, essas ordens eram uma forma concreta de obediência.

Jeremias continua: “Tomai esposas, e gerai filhos e filhas, e tomai esposas para vossos filhos, e dai vossas filhas a homens, para que gerem filhos e filhas; e ali multiplicai-vos, e não vos diminuais.”

A vida não deveria ficar suspensa até o retorno. Eles não foram chamados a tratar cada dia em Babilônia como uma sala de espera sem responsabilidade. Casamentos, filhos, casas e hortas pertenciam à fidelidade deles naquele lugar.

Ao mesmo tempo, Jeremias não manda que chamem Babilônia de Jerusalém. O próprio capítulo fala de uma volta futura. A obediência naquele solo estrangeiro não apagava a saudade, nem fazia do exílio a identidade final do povo. Eles podiam morar sem fingir que tinham escolhido aquilo. Podiam plantar sem esquecer de onde vieram. Podiam formar famílias sem concluir que a promessa de Deus havia terminado.

Há muita sabedoria espiritual nessa tensão. A pressa de escapar pode parecer fé, mas às vezes é recusa de obedecer no presente. A acomodação também pode parecer maturidade, mas às vezes é perda de esperança. Jeremias não dá ao povo uma dessas saídas simples. Ele manda viver diante de Deus onde eles estão.

A paz deles passava pela cidade

Então a carta chega à ordem mais difícil: “E buscai a paz da cidade para onde eu vos levei, e orai por ela ao SENHOR; porque na paz dela vós tereis paz.”

A cidade era Babilônia. Não era neutra na memória deles. Ainda assim, Deus manda buscar sua paz e orar por ela. A oração, porém, continua dirigida ao SENHOR. Eles não devem entregar sua adoração ao ambiente ao redor. Também não devem transformar fidelidade em isolamento amargo.

Buscar a paz da cidade não significava aprovar seus ídolos, sua violência ou suas injustiças. Significava trabalhar pelo bem real do lugar onde suas próprias famílias agora respiravam, compravam pão, criavam filhos e enterravam seus mortos. A paz deles, por enquanto, estava ligada à paz daquele lugar. Deus disse isso com clareza suficiente para ferir o orgulho e curar a fantasia.

No contexto, Jeremias também combate vozes religiosas que faziam o povo confiar em mentiras. Havia quem anunciasse em nome de Deus o que Deus não havia enviado. A promessa verdadeira não alimentava uma vida imaginária. Ela vinha com prazo longo: “Certamente que, quando se cumprirem setenta anos na Babilônia, eu vos visitarei; e cumprirei sobre vós minha boa palavra, trazendo-vos de volta a este lugar.”

Setenta anos era tempo suficiente para não tratar o presente como descartável. A esperança de voltar era real, mas não servia de desculpa para abandonar o chão de hoje. Deus prometia visitar o seu povo. Enquanto isso, o povo deveria habitar, plantar, multiplicar-se, buscar a paz e orar.

Nem todo lugar difícil em nossa vida deve ser chamado de exílio. Ainda assim, há endereços que não escolhemos: uma cidade para onde a necessidade nos levou, uma estação familiar que se alonga, um trabalho onde a alma parece viver longe de casa. Jeremias não diminui a perda. Ele também não permite que a perda decida tudo.

Talvez buscar a paz hoje comece com uma oração honesta pelo lugar que você tem criticado sem nunca apresentar a Deus. Talvez passe por aprender o nome de alguém, servir com integridade no trabalho ou participar do bem possível na sua rua. Pequenas obediências não tornam Babilônia em Jerusalém. Elas apenas confessam que o SENHOR também é Deus ali.

Eles esperavam o dia da visita de Deus. Até lá, o Senhor lhes dava uma cidade pela qual orar, um chão para plantar e uma vida que ainda podia obedecer.

Para refletir

  • Em que lugar que eu não escolhi tenho vivido como se a fidelidade só pudesse começar depois da saída?
  • Que bem concreto da minha cidade ou comunidade eu posso buscar em oração e em uma ação simples nesta semana?

Oração

Senhor, ensina-me a viver diante de ti no lugar onde estou, sem mentir sobre a saudade nem desperdiçar os dias.

Faz de minha presença uma busca sincera da paz, guardando meu coração fiel ao teu nome.

Amém.

A promessa de Deus para o futuro não torna descartável o lugar difícil de hoje; ali também há fidelidade a praticar.

Fontes e notas

Consultado durante a escrita deste texto. Nada é listado aqui sem ter sido usado.

As Escrituras em português são da Bíblia Livre (BLIVRE), Copyright © Diego Santos, Mario Sérgio e Marco Teles, fevereiro de 2018. Licença Creative Commons Atribuição 4.0.