Estudo Bíblico
Eis-me Aqui, Três Vezes
Gênesis 22 avisa ao leitor que se trata de uma prova antes que Abraão ouça uma palavra, e depois não conta quase mais nada. Um estudo da amarração de Isaque, do monte chamado Moriá e de uma história que não deixa Abraão virar nem herói nem monstro.
Texto bíblico Gênesis 22:1–19 · Gênesis 21:9–21 · Gênesis 12:1 · Gênesis 23:1–2 · 2 Crônicas 3:1 · Jeremias 7:31 · Jeremias 19:5 · Miqueias 6:6–8 · Hebreus 11:17–19 · Tiago 2:21–23 · Romanos 8:32
Quase toda história deixa o leitor descobrir as coisas junto com os personagens. Esta conta antes.
E aconteceu, depois dessas coisas, que Deus provou Abraão, e disse-lhe: Abraão. E ele respondeu: Eis-me aqui. (Gênesis 22:1)
Abraão não ouve a palavra “provou”. Nós ouvimos. Desde a primeira linha, o leitor está num lugar onde Abraão nunca está: sabe que o que vem é uma prova, e não a última palavra de Deus sobre Isaque. Abraão só tem a ordem.
Isso não nos poupa de nada. Ainda vamos ter de assistir a um pai levantar a lâmina sobre o filho. Mas muda o jeito de assistir. O narrador não perdeu o controle da história, e Deus também não. O que o narrador não faz é contar o que Abraão sentiu. São dezenove versículos de ações, poucas frases curtas e uma única pergunta, feita por um rapaz.
A tradição judaica chama este texto de Aqedá, “a amarração”, por causa do verbo do versículo 9: “amarrou a Isaque seu filho”. Esse verbo não aparece em nenhum outro lugar da Bíblia hebraica. Os cristãos costumam falar em “sacrifício de Isaque”, mas Isaque não foi sacrificado. Foi amarrado, e depois desamarrado.
Teu filho, teu único
A ordem vai se estreitando a cada expressão:
E disse: Toma agora teu filho, teu único, Isaque, a quem amas, e vai à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre um dos montes que eu te direi. (Gênesis 22:2)
“Teu único” é uma coisa estranha de dizer a quem tem dois filhos. E o leitor acabou de ver o outro ir embora. No capítulo 21, a pedido de Sara e com o consentimento de Deus, “Abraão se levantou manhã muito cedo”, pôs pão e um odre de água no ombro de Agar e a despediu com Ismael pelo deserto de Berseba (21:14). O texto não esconde o que aquilo custou: “Este dito pareceu grave em grande maneira a Abraão por causa de seu filho” (21:11).
Então Deus não está fingindo que Ismael não existe. Está nomeando o que sobrou a Abraão: o filho de quem ele mesmo tinha dito “em Isaque será chamada tua descendência” (21:12).
Os dois capítulos foram feitos para ser lidos juntos, e a Bíblia Livre deixa isso bem visível. Em 21:14 e em 22:3 aparece a mesma frase: “Abraão se levantou manhã muito cedo”. Nos dois, a vida de um menino corre perigo em campo aberto. Nos dois, um anjo chama “desde o céu” no último instante (21:17; 22:11). Nos dois, alguém tem os olhos abertos ou levantados e vê o que salva o menino: Agar vê uma fonte de água, Abraão vê um carneiro. Quem lê o capítulo 21 chega ao 22 com Ismael na memória, e a palavra “único” dói mais.
Os rabinos ouviram a sequência como um diálogo. Rashi, apoiado num midrash mais antigo (Bereshit Rabá 55:7), imagina Abraão respondendo a cada expressão. “Tenho dois filhos.” Teu único. “Cada um é o único da sua mãe.” A quem amas. “Amo os dois.” Isaque. O diálogo é interpretação, e Rashi o apresenta como tal. Mas capta o que o hebraico de fato faz: o nome vem por último.
Os tradutores gregos da Septuaginta verteram “teu único” por “teu filho amado”, ton agapēton, escolha que vai pesar quando chegarmos ao Novo Testamento.
Mais um eco. Em Gênesis 12:1, Deus mandou Abrão sair “para terra que eu te mostrarei”. Aqui, ele o manda a “um dos montes que eu te direi”. O hebraico usa nas duas ordens a mesma expressão incomum, lekh-lekha, “vai-te”. No começo, Abraão foi chamado a largar o passado. Agora, é chamado a largar o futuro. E nas duas vezes parte sem conhecer ainda o lugar exato. Repare como a BLIVRE, seguindo o hebraico, fala do “lugar que Deus lhe disse” (vv. 3 e 9): Abraão só conhece o lugar pela palavra de Deus.
Três dias sem conversa
E Abraão se levantou manhã muito cedo, e preparou seu asno, e tomou consigo dois servos seus, e a Isaque seu filho: e cortou lenha para o holocausto, e levantou-se, e foi ao lugar que Deus lhe disse. (Gênesis 22:3)
Uma fileira de verbos de preparação, e nenhuma fala. Em seguida: “Ao terceiro dia levantou Abraão seus olhos, e viu o lugar de longe.” Três dias passam num único versículo. Nada sobre as noites, as refeições ou o que Isaque perguntou pelo caminho.
O crítico Erich Auerbach tornou esse silêncio famoso. No primeiro capítulo de Mimesis, “A cicatriz de Ulisses”, ele põe Gênesis 22 ao lado da cena da Odisseia em que a velha ama reconhece Ulisses por uma cicatriz, e Homero para tudo para contar como ele a ganhou. Em Homero tudo fica igualmente iluminado. Gênesis, argumenta Auerbach, mostra só o que a história precisa e deixa o resto no escuro, e por isso os personagens carregam profundidades que o texto nunca explica. Algo enorme acontece dentro de Abraão durante três dias, e não temos permissão de entrar.
Então disse Abraão a seus servos: Esperai aqui com o asno, e eu e o jovem iremos até ali, e adoraremos, e voltaremos a vós. (Gênesis 22:5)
“Voltaremos.” O verbo está no plural. Há séculos se discute o que Abraão quis dizer: uma delicadeza para não dizer o pior, uma esperança contra o que tinha ouvido, ou a fé de que Deus lhe devolveria Isaque. O texto não diz. Hebreus vai afirmar que Abraão “considerou que Deus era poderoso até para ressuscitar Isaque dos mortos”, mas não cita este versículo, e não convém fazer Gênesis dizer mais do que diz.
“Eis-me aqui”, três vezes
Abraão diz hinneni, “Eis-me aqui”, três vezes neste capítulo, e a Bíblia Livre traduz as três do mesmo jeito. Cada uma é para uma voz diferente. A primeira é para Deus (v. 1), antes da ordem, quando Abraão ainda não sabe a que está respondendo. A segunda é para Isaque:
Então falou Isaque a Abraão seu pai, e disse: Meu pai. e ele respondeu: Eis-me aqui, meu filho. (Gênesis 22:7)
A terceira é para o anjo do SENHOR (v. 11), quando a lâmina já está na mão.
Postas lado a lado, as três mostram Abraão entre dois chamados: um que vem de cima e pede o filho, outro que vem do lado e diz “Meu pai”. Ele responde aos dois com a mesma palavra. Seja o que for que se diga dele nessa subida, Abraão não deixa de ser pai de Isaque para obedecer a Deus.
Duas vezes o narrador repete um refrão: “foram ambos juntos” (v. 6), “iam juntos” (v. 8). Isaque leva a lenha. Abraão leva o fogo e a lâmina, as duas coisas que podiam ferir um menino. A Bíblia Livre diz “espada”; a palavra hebraica, ma’akhelet, é rara e indica uma faca, provavelmente a de abater. Depois da pergunta de Isaque e da resposta do pai, o refrão volta. Continuam juntos. Nada foi explicado.
O cordeiro e a faca
Eis aqui o fogo e a lenha; mas onde está o cordeiro para o holocausto? E respondeu Abraão: Deus se proverá de cordeiro para o holocausto, filho meu. E iam juntos. (Gênesis 22:7–8)
A tradução da Bíblia Livre, “Deus se proverá”, guarda algo do hebraico. O verbo é ra’ah, “ver”, e a frase diz literalmente “Deus verá para si o cordeiro”. Assim como no português “prover” vem do latim providere, “ver adiante”, o hebraico usa “ver” no sentido de cuidar de alguma coisa. E o ver atravessa o capítulo inteiro. Abraão levantou os olhos “e viu o lugar” (v. 4). Vai levantar os olhos de novo e ver um carneiro (v. 13). E vai dar ao monte o nome do que Deus provê (v. 14).
A ordem das palavras no hebraico permite ainda outra leitura. Sem pontuação, a frase pode soar como “Deus proverá o cordeiro para o holocausto: meu filho”. Um midrash antigo a ouve assim e põe na boca de Abraão: “E se não, tu serás o cordeiro” (Bereshit Rabá 56:4). Não dá para saber se o narrador quis o duplo sentido, mas o hebraico o permite.
E quando chegaram ao lugar que Deus lhe havia dito, edificou ali Abraão um altar, e compôs a lenha, e amarrou a Isaque seu filho, e pôs-lhe no altar sobre a lenha. E estendeu Abraão sua mão, e tomou a espada, para degolar a seu filho. (Gênesis 22:9–10)
Os verbos vêm um de cada vez. Edificou, compôs, amarrou, pôs, estendeu, tomou. Ninguém fala.
Quantos anos tinha Isaque? O texto não diz. Ele é chamado de na’ar (vv. 5 e 12), que a BLIVRE traduz por “jovem” e que cobre desde um bebê até um rapaz feito; José é na’ar aos dezessete anos. Isaque tem idade para carregar lenha morro acima e fazer uma pergunta certeira. É o que sabemos.
Intérpretes posteriores preencheram a lacuna. Josefo, no século I d.C., diz que Isaque tinha vinte e cinco anos e foi de bom grado ao altar. Bereshit Rabá 56:8 lhe dá trinta e sete (uma variante diz vinte e seis) e argumenta que um velho não conseguiria amarrar um homem feito sem o consentimento dele. Essas tradições moldaram a memória judaica da Aqedá como a entrega de duas pessoas. Mas são interpretação posterior, não o texto de Gênesis. Gênesis dá a Isaque uma pergunta e depois silêncio.
A voz do céu
Então o anjo do SENHOR lhe gritou do céu, e disse: Abraão, Abraão. E ele respondeu: Eis-me aqui. E disse: Não estendas tua mão sobre o jovem, nem lhe faças nada; que já conheço que temes a Deus, pois que não me recusaste o teu filho, o teu único. (Gênesis 22:11–12)
“Já conheço” é uma frase difícil. Deus não sabia antes? Há quem fale de um conhecimento pela experiência, e não pela previsão; há quem diga que a frase é dita por causa de Abraão, e por nossa causa. O texto não resolve. Mas deixa claro do que se tratava a prova: se Abraão temia a Deus mais do que se agarrava ao presente que Deus lhe tinha dado.
Então levantou Abraão seus olhos, e olhou, e eis um carneiro a suas costas preso em um arbusto por seus chifres: e foi Abraão, e tomou o carneiro, e ofereceu-lhe em holocausto em lugar de seu filho. E chamou Abraão o nome daquele lugar, O SENHOR proverá. Portanto se diz hoje: No monte do SENHOR se proverá. (Gênesis 22:13–14)
O carneiro morre “em lugar de seu filho”. Isaque perguntou por um cordeiro; Deus providencia um carneiro. O nome do lugar, YHWH yir’eh, é “o SENHOR verá”, ou “proverá”, e o ditado que vem depois pode ser lido “no monte do SENHOR ele será visto”. Os tradutores gregos entenderam assim: “o Senhor viu”, e “no monte o Senhor apareceu”. Deus vê, e naquele monte se deixa ver.
Abraão não dá ao lugar o nome da própria obediência. Dá o nome do que Deus providenciou.
A terra de Moriá
Onde era? Gênesis diz apenas “terra de Moriá” e “um dos montes”. O nome aparece só mais uma vez em todo o Antigo Testamento:
E começou Salomão a edificar a casa em Jerusalém, no monte Moriá que havia sido mostrado a Davi seu pai, no lugar que Davi havia preparado na eira de Ornã jebuseu. (2 Crônicas 3:1)
Crônicas não menciona Abraão. Liga Moriá à eira de Davi. Mas usa um nome que fora dali só existe em Gênesis 22, e desde então os leitores ouvem a ligação. Josefo afirma que era o monte onde o rei Davi depois construiu o templo. Rashi, sobre Gênesis 22:2, diz apenas: “Isto é Jerusalém”. E “o monte do SENHOR”, no versículo 14, é a linguagem que Israel passou a usar para Sião: “Vinde, subamos ao monte do SENHOR, à casa do Deus de Jacó” (Isaías 2:3).
Duas cautelas. Essa é uma identificação canônica, feita pela Escritura posterior e pela tradição, não uma identificação arqueológica. E a Septuaginta nem leu “Moriá” como nome de lugar: traduziu “terra de Moriá” por “a terra alta”. O sentido do nome é incerto, e as ligações propostas (com ensino, com mirra, com ver) são jogos de som, não base para teologia.
Abraão morava em Berseba (22:19), a uns setenta quilômetros de Jerusalém em linha reta. Isso cabe em três dias a pé com um jumento carregado. Caber não é provar, mas a leitura canônica é geograficamente possível.
Um Deus que pediu um filho
O que significava, para os primeiros ouvintes, um deus pedir uma criança? A própria Bíblia conta que vizinhos de Israel, e às vezes Israel, entregavam filhos aos seus deuses. O rei de Moabe, perdendo a guerra, “arrebatou a seu primogênito que havia de reinar em seu lugar, e sacrificou-lhe em holocausto sobre o muro” (2 Reis 3:27). Levítico proíbe fazer um filho “passar pelo fogo a Moloque” (18:21). Fora da Bíblia, a evidência é mais difícil de ler. Em Cartago, arqueólogos acharam urnas com ossos queimados de bebês e de filhotes de animais; se esses recintos provam sacrifício ou eram cemitérios infantis ainda é discutido entre especialistas.
A lei de Israel reivindicava o primogênito, “me darás o primogênito de teus filhos” (Êxodo 22:29), e logo exigia o resgate: “Resgatarás todo primogênito de teus filhos” (Êxodo 34:20).
Os profetas falaram sem meias palavras. Jeremias condena os que queimavam filhos e filhas em Tofete, “o que eu nunca mandei, nem pensei em meu coração” (Jeremias 7:31; ver 19:5). Miqueias imagina um adorador perguntando: “Darei meu primogênito por minha transgressão, o fruto de meu ventre pelo pecado de minha alma?”, e responde com justiça, bondade e humildade (Miqueias 6:7–8).
Como Gênesis 22 fica ao lado de Jeremias? Uma resposta moderna comum é que a história existe para rejeitar o sacrifício de crianças: Deus segura a mão e pede um carneiro. Há verdade nisso. Mas Jon Levenson, em The Death and Resurrection of the Beloved Son, argumenta que essa leitura é fácil demais. Deus pede, sim, e Abraão é abençoado justamente porque não recusou o filho (vv. 16–18). Levenson acompanha, em vez disso, como a antiga ideia de que o filho amado pertence a Deus foi transformada, por substituição e resgate, tanto no judaísmo quanto no cristianismo.
Os rabinos sentiram a tensão. Sobre as palavras de Jeremias, “nem jamais pensei em meu coração”, uma leitura preservada em Bereshit Rabá 56:8 diz: isso se refere a Isaque. Deus mandou “fazer subir” o filho, argumenta, e nunca mandou degolá-lo.
Eu não resolveria isso depressa. Gênesis 22 não ensina que Deus quer crianças mortas; a Bíblia inteira, e o próprio final da história, se levantam contra isso. Mas também não deixa fingir que Deus nunca pediu. Mostra um Deus que pede tudo e depois providencia o que pediu.
A descida sem Isaque
E voltou Abraão a seus servos, e levantaram-se e se foram juntos a Berseba; e habitou Abraão em Berseba. (Gênesis 22:19)
Abraão voltou. Isaque não é mencionado. A palavra “juntos”, que duas vezes descreveu pai e filho na subida, agora descreve Abraão e os servos. O midrash pergunta “e onde estava Isaque?” e arrisca, com delicadeza, que ele tinha sido mandado estudar com Sem (Bereshit Rabá 56:11). O texto não diz.
Logo vem a morte de Sara, em Hebrom, e “Abraão veio para ficar de luto por Sara e para chorar por ela” (23:2). Rashi, apoiado em tradição mais antiga, diz que a notícia da amarração a matou; Gênesis não diz isso. O que o texto mostra é que Deus não volta a falar com Abraão depois deste capítulo, e que Abraão e Isaque nunca mais aparecem conversando. As últimas palavras entre os dois, na Escritura, são “Meu pai” e “Deus se proverá de cordeiro para o holocausto, filho meu”.
Uma história que termina em bênção também tem custos, e o texto os deixa à vista sem comentário.
Como Israel e a igreja lembraram
A Mishná conta a Aqedá entre as dez provas de Abraão (Avot 5:3) e, nas orações dos dias de jejum, invoca “Aquele que respondeu a Abraão no monte Moriá” (Taanit 2:4). O Talmude explica assim o chifre de carneiro tocado no Ano Novo: Deus diz “tocai diante de mim um shofar de chifre de carneiro, para que eu me lembre em vosso favor da amarração de Isaque” (Rosh Hashaná 16a). O capítulo ainda é lido na sinagoga no Ano Novo. Poetas judeus medievais, depois dos massacres das Cruzadas, viram em Isaque a imagem dos próprios filhos assassinados, uma tradição que Shalom Spiegel estudou em The Last Trial.
O Novo Testamento lê a história de vários modos, e ajuda dar nome ao tipo de ligação que cada texto faz.
Hebreus 11:17–19 é uma interpretação explícita, e em português começa com o mesmo verbo de Gênesis 22:1: “Pela fé, Abraão, quando foi provado, ofereceu Isaque; aquele que havia recebido as promessas ofereceu o seu único filho.” Abraão segurou juntas a ordem e a promessa porque “considerou que Deus era poderoso até para ressuscitar Isaque dos mortos; de onde também, de forma figurada, ele o recuperou.” Hebreus mesmo chama a volta de Isaque de figura.
Tiago 2:21–23 também é explícito, com outro propósito: “Acaso não foi o nosso pai Abraão justificado pelas obras, quando ofereceu o seu filho Isaque sobre o altar?” Para Tiago, no monte “cumpriu-se a Escritura que diz: E Abraão creu em Deus”. O monte mostrou que a confiança era verdadeira.
Romanos 8:32 é um eco, não uma citação: “Aquele que nem mesmo ao seu próprio Filho poupou”. O verbo grego “poupar” é o mesmo que a Septuaginta usa quando o anjo diz que Abraão “não poupou” o filho amado (vv. 12 e 16). Paulo não cita Abraão, mas quem conhece o Gênesis grego ouve o eco, e a comparação se inverte. No Moriá, Deus impediu um pai de entregar o filho. Na cruz, Deus não se impediu.
Além disso, os leitores cristãos viram cedo um padrão tipológico. Tertuliano, no início do século III, escreveu que Isaque, entregue pelo pai como oferta, levou ele mesmo a lenha da própria morte, e assim já apontava para Cristo, que carregou a cruz em que sofreu (Contra Marcião 3.18; compare João 19:17, “levando ele sua cruz”). A voz no batismo de Jesus, “Tu és meu Filho amado” (Marcos 1:11), talvez ecoe o “filho amado” da Septuaginta. São ligações tipológicas e canônicas, feitas lendo a Bíblia inteira como uma só história, e não afirmações de que o autor de Gênesis tinha Jesus em vista. Seguradas com essa honestidade, são ricas. E repare onde o padrão se dobra. Em Gênesis, o filho é poupado e um carneiro morre no lugar dele. Nos Evangelhos não aparece carneiro nenhum. O Filho não é poupado.
Nem herói nem monstro
É fácil deixar Abraão mais simples do que o texto deixa. Certo tipo de sermão faz dele um atleta espiritual passando num teste. Outro leitor, com razão compreensível, vê um homem disposto a matar o filho porque uma voz mandou. Em 1843, Søren Kierkegaard escreveu Temor e Tremor contra quem elogia Abraão sem sentir pavor nenhum do que ele fez.
Gênesis não faz nem uma coisa nem outra. Não há discurso de triunfo nem grito de angústia. Há um homem que se levanta cedo, diz “Eis-me aqui” a Deus e ao filho, caminha três dias e dá ao monte o nome do que Deus providenciou. Leio essa contenção como reverência, e talvez misericórdia, diante de algo pesado demais para narrar.
Ninguém deve acreditar em quem diz que Deus está mandando ferir outra pessoa; Jeremias e Miqueias montam guarda nessa porta. O que o capítulo pede a um leitor comum é mais silencioso. Os presentes de Deus tomaram o lugar dele? Consigo dizer “Eis-me aqui” a Deus sem deixar de dizê-lo às pessoas ao meu lado? E consigo entrar no que não entendo tendo só isto a dizer: Deus proverá?
Abraão disse isso antes de saber como terminaria. Nós dizemos sabendo mais do que ele. Sabemos que era uma prova. Sabemos do carneiro. E os cristãos sabem de um monte perto de Jerusalém onde Deus não poupou o próprio Filho.
No monte do SENHOR se proverá.
Para refletir
- O leitor fica sabendo que "Deus provou Abraão" antes do próprio Abraão. O que muda quando leio uma fase difícil da minha vida sabendo que Deus vê mais dela do que eu, e o que esse saber não explica?
- Abraão diz "Eis-me aqui" a Deus, ao filho e ao anjo. A qual voz eu demoro mais a responder: à que vem de cima ou à que caminha ao meu lado?
- O texto dá três dias de caminhada e nenhuma palavra registrada. O que eu faço com os silêncios que a Escritura deixa em aberto: corro para preenchê-los ou consigo deixá-los como estão?
- Jeremias diz que o sacrifício de filhos nunca passou pelo coração de Deus. Como seguro isso junto com Gênesis 22 sem achatar nenhum dos dois textos?
- Abraão dá ao lugar o nome do que Deus proveria, não do que ele mesmo fez. Onde contei a história da minha fé como se eu fosse o herói?
Oração
Deus de Abraão e de Isaque, tu viste o monte antes de qualquer um dos dois. Olha por mim nos lugares onde não consigo ver o fim.
Guarda-me de exigir dos outros o que tu nunca pediste, e de te oferecer o que tu nunca quiseste.
Quando eu disser "Eis-me aqui", que seja verdade para ti e para as pessoas que puseste ao meu lado.
Obrigado porque não poupaste o teu próprio Filho. Ensina-me a confiar a ti aquilo que eu amo.
Amém.
A história avisa que é uma prova e depois se recusa a contar como ela doeu. Tudo o que Abraão diz nela é "Eis-me aqui" ou uma frase sobre o que Deus vai prover.
Fontes e notas
Consultado durante a escrita deste texto. Nada é listado aqui sem ter sido usado.
- Bíblia Livre (BLIVRE), 2018 texto primário
- Texto hebraico de Gênesis 21-23 (Miqra segundo a Massorá), via Sefaria texto primário
- Septuaginta, Gênesis 22 (texto de Rahlfs), com a tradução inglesa de Brenton, para "amado", "a terra alta" e "não poupaste" texto primário
- Novo Testamento Grego SBL (2010), Romanos 8:32 e Hebreus 11:17-19 texto primário
- Bereshit Rabá 55:7, 56:4, 56:8 e 56:11, The Sefaria Midrash Rabbah (2022) texto primário
- Rashi sobre Gênesis 22:2 e 23:2, trad. inglesa de M. Rosenbaum e A. M. Silbermann (1929-1934) comentário
- Mishná Avot 5:3 e Mishná Taanit 2:4; Talmude Babilônico, Rosh Hashaná 16a (edição William Davidson) texto primário
- Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 1.13.1-4, trad. inglesa de William Whiston texto primário
- Tertuliano, Contra Marcião 3.18, em Ante-Nicene Fathers, vol. 3 (as citações deste estudo são tradução livre) texto primário
- Erich Auerbach, Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental, capítulo 1, "A cicatriz de Ulisses" (original alemão de 1946; edição brasileira pela Perspectiva) estudo literário
- Jon D. Levenson, The Death and Resurrection of the Beloved Son: The Transformation of Child Sacrifice in Judaism and Christianity (Yale University Press, 1993) estudo histórico
- Shalom Spiegel, The Last Trial, trad. inglesa de Judah Goldin (1967) estudo histórico
- Gordon J. Wenham, Genesis 16-50, Word Biblical Commentary 2 (Word, 1994), para estudo adicional comentário
- Victor P. Hamilton, The Book of Genesis: Chapters 18-50, New International Commentary on the Old Testament (Eerdmans, 1995), para estudo adicional comentário
- Søren Kierkegaard, Temor e Tremor (1843) estudo literário
As Escrituras em português são da Bíblia Livre (BLIVRE), Copyright © Diego Santos, Mario Sérgio e Marco Teles, fevereiro de 2018. Licença Creative Commons Atribuição 4.0.