Uma mesa baixa num salão de pedra à luz de lamparinas na antiga Jerusalém, com pães e tigelas, e num dos lugares um cajado simples de madeira encostado ao assento.
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Devocional

Coxo de Ambos os Pés

Mefibosete se chamou de cão morto e recebeu um lugar permanente à mesa do rei. A última linha do capítulo fala dos pés dele, e está ali de propósito.

Por Redação EmberKeeper 5 min de leitura

Texto bíblico 2 Samuel 9:1–13 · 2 Samuel 4:4 · 1 Samuel 20:14–15 · 1 Samuel 24:14 · Lucas 14:13

E disse Davi: Restou algum da casa de Saul, a quem faça eu misericórdia por causa de Jônatas?

A pergunta vem depois que as guerras acabaram e o trono está firme. Saul morreu, Jônatas morreu, e Davi reina em Jerusalém. Ele pergunta como quem vinha pensando nisso fazia tempo.

E tinha motivo. Anos antes, quando Saul caçava Davi, Jônatas lhe pediu uma promessa: “Não tirarás perpetuamente tua misericórdia de minha casa”. A Bíblia Livre usa a mesma palavra nos dois lugares, misericórdia, e o hebraico também: é a palavra do amor leal, o amor de aliança. Davi está cumprindo a promessa feita a um amigo morto.

O menino que caiu

Quem responde é Ziba, um antigo servo da casa de Saul. “Ainda restou um filho de Jônatas, aleijado dos pés.”

É curioso que seja a primeira coisa que Ziba diz sobre ele. Talvez quisesse dizer que o rapaz não oferecia perigo. Talvez quisesse dizer que ele não valia grande coisa. De um jeito ou de outro, a deficiência chega antes do nome.

O narrador já tinha contado como aquilo aconteceu, lá em 2 Samuel 4. Mefibosete tinha cinco anos quando chegou de Jezreel a notícia da morte de Saul e de Jônatas. A ama o tomou e fugiu, “e quando ela ia fugindo depressa, o menino caiu e ficou aleijado”. Uma criança que caiu no meio do pânico de uma casa real desmoronando. Desde então ele vivia com aquilo.

Agora é um homem feito, com um filho pequeno, e mora a leste do Jordão, em Lo-Debar, na casa de um certo Maquir. Não na casa dele.

Um cão morto como eu

Davi manda buscá-lo. Mefibosete chega e se prostra com o rosto no chão. Davi diz uma palavra só, o nome dele: “Mefibosete”. E a resposta é a de um homem que não sabe o que vai acontecer com ele: “Eis aqui teu servo.”

Ele tinha bons motivos para ter medo. Era neto do rei que Davi substituiu, e o novo rei tinha acabado de perguntar quem restava da família do antigo. As palavras seguintes de Davi para ele são: “Não tenhas temor”.

Depois vem mais do que ele poderia imaginar: todas as terras de Saul devolvidas, e um lugar à mesa do rei, sempre. Mefibosete se inclina de novo e diz: “Quem é teu servo, para que olhes a um cão morto como eu?”

Há um eco estranho aqui. Anos antes, o próprio Davi tinha usado essa imagem sobre si mesmo, gritando para Saul, que o perseguia, logo depois de sair de uma caverna perto de En-Gedi: “a quem persegues? a um cão morto? a uma pulga?” Os dois trocaram de lugar. Quem um dia se chamou de cão morto diante de Saul agora ouve o neto de Saul dizer o mesmo diante dele. Davi já tinha estado onde Mefibosete estava.

Sempre

Conte quantas vezes a mesa aparece. Davi promete no versículo 7: “tu comerás sempre pão à minha mesa”. Repete a Ziba no versículo 10. Na Bíblia Livre, o versículo 11 põe a frase outra vez na boca do rei: “Mefibosete, disse o rei, comerá à minha mesa, como um dos filhos do rei.” O rei diz três vezes, e o narrador diz a quarta no versículo 13. O capítulo não larga o assunto. Não foi um jantar de honra, uma vez só. Era ali que ele comia, dia após dia.

A última linha

E então o capítulo termina. “E morava Mefibosete em Jerusalém, porque comia sempre à mesa do rei; e era coxo de ambos os pés.”

Há pregadores que dizem que, quando ele se sentava, a mesa escondia os pés dele. A imagem é bonita, e o texto não diz isso. O narrador faz o contrário. Coloca os pés na última linha, onde ninguém deixa de ver.

Nada em 2 Samuel 9 cura Mefibosete. A misericórdia não espera que ele ande, e também não exige que ele finja que anda. Ele chega coxo e continua coxo, e come todo dia com os filhos do rei assim mesmo. A graça do capítulo e a deficiência do capítulo cabem na mesma frase.

Por analogia, e é só uma analogia, isso se parece muito com o jeito como muitos cristãos vivem o evangelho. Somos trazidos por causa de outro, e por enquanto continuamos mancando. Jesus disse uma vez a quem dava um banquete: “chama aos pobres, aleijados, mancos e cegos”. Era esse o tipo de convidado que Davi tinha à mesa.

Para hoje

Se você está esperando ficar inteiro para se sentir bem-vindo, releia o fim de 2 Samuel 9. O homem à mesa continua coxo, e continua à mesa.

E se você tem uma mesa, talvez alguém esteja morando num Lo-Debar qualquer, na casa dos outros. Pode ser você quem vai mandar buscá-lo.

Para refletir

  • O que eu acho que precisaria consertar em mim antes de conseguir me sentar tranquilo à mesa de Deus?
  • Existe alguém que eu poderia trazer à minha própria mesa por causa de outra pessoa, como Davi fez por Jônatas?

Oração

Senhor, tu sabes o que eu não consigo consertar, e mesmo assim me chamaste à tua mesa.

Quando eu disser "um cão morto como eu", chama-me outra vez pelo nome, e faze-me sentar.

Amém.

A mesa não curou os pés dele, e o narrador faz questão de que a gente saiba. Ele comia ali sempre, coxo de ambos os pés.

Fontes e notas

Consultado durante a escrita deste texto. Nada é listado aqui sem ter sido usado.

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