Esboço de Sermão
Até Que Entrei nos Santuários de Deus
O Salmo 73 é o testemunho de um crente que quase concluiu que ser fiel não valia a pena, guardou o pensamento para si por causa dos outros, e voltou a pisar firme no lugar onde Deus é adorado.
Texto bíblico Salmos 73:1–28 · Salmos 72:20 · Salmos 49:15 · Números 18:20 · Hebreus 10:19–22
Resumo para a pregação
- Verdade central
- Um crente pode chegar a um passo de decidir que a fidelidade não compensa, e o que o restaura não é um argumento melhor sobre os perversos, e sim a presença de Deus, que estava segurando a mão dele o tempo todo.
- Ideia exegética
- Asafe abre confessando que Deus é bom para os limpos de coração, admite que a inveja da prosperidade dos perversos quase o derrubou, se recusa a dizer em voz alta a sua conclusão porque isso decepcionaria a geração dos filhos de Deus, e é virado ao entrar nos santuários de Deus, onde entende o fim deles. Depois confessa a própria tolice, descobre que Deus nunca o soltou, e termina chamando Deus de sua porção para sempre.
- Ideia teológica
- A bondade de Deus não se mede pelos resultados visíveis desta vida, porque o bem que Deus dá é ele mesmo, e a comunhão que ele mantém aberta dura mais do que a prosperidade dos perversos e mais do que a nossa própria carne.
- Ideia central
- Quando você estiver quase certo de que a fé foi um erro, vá aonde Deus é adorado antes de dizer isso em voz alta.
- Objetivo
- Dar palavras honestas a crentes que invejam quem parece ter ganhado tudo ignorando a Deus, mostrar o caminho que o salmo de fato percorre, e levá-los de medir Deus pelo que ele dá a desejar o próprio Deus.
- Duração estimada
- 35 a 40 minutos
A tensão inicial
O salmo diz a conclusão na primeira linha e depois gasta vinte e sete versículos confessando o quanto o autor chegou perto de abandoná-la.
“Sim, certamente Deus é bom para Israel, para os limpos de coração.” Essa é a frase ortodoxa, a que qualquer pessoa da igreja assinaria. A linha seguinte é: “Eu porém, quase que meus pés se desviaram.”
Asafe não começa pela dúvida para chegar à fé. Começa pelo credo e depois conta quanto lhe custou mantê-lo. Essa ordem importa para o sermão. O povo que está nos bancos já sabe a resposta certa. O que a maioria nunca recebeu foi licença para dizer como tem sido difícil acreditar nela.
Onde isso está no Saltério
Pregue esse salmo olhando para os vizinhos dele, porque a posição faz parte do que ele diz.
Uma observação prática antes: algumas Bíblias católicas, seguindo a numeração grega e latina, trazem esse salmo como 72. Se alguém na igreja abrir no lugar errado, é por isso.
O Salmo 72 é uma oração pelo rei, cheia da esperança de que o seu reinado traga paz ao povo e faça o justo florescer. Termina com uma nota de quem organizou a coleção: “Aqui terminam as orações de Davi, filho de Jessé.” E então o Salmo 73 abre o terceiro livro do Saltério.
O Livro III vai do Salmo 73 ao 89, e é o mais sombrio dos cinco. Inclui lamentos sobre o santuário destruído (Salmo 74) e sobre Jerusalém em ruínas (Salmo 79), e termina com o Salmo 89, que pergunta abertamente o que aconteceu com a aliança de Deus com Davi. O trabalho de Gerald Wilson sobre a edição do Saltério tornou esse arranjo amplamente conhecido: a coleção parece ter sido organizada para que as esperanças confiantes dos Livros I e II passem por um livro de crise.
O Salmo 73 está na porta desse livro. Há uma ligação verbal que vale mostrar, embora ela fique escondida na tradução. A palavra que a Bíblia Livre traduz por “paz” em 72:3 e 72:7 é o hebraico shalom, e ela volta em 73:3, onde a mesma Bíblia Livre a traduz por “prosperidade”: “quando via a prosperidade dos perversos”. O Salmo 72 pede que o shalom venha por meio de um rei justo. O Salmo 73 começa vendo o shalom pousar nas pessoas erradas.
Walter Brueggemann defendeu que o Salmo 73 está no centro teológico de todo o Saltério, no ponto em que a confiança simples do Salmo 1, de que o justo prospera e o perverso perece, encontra a experiência real e sobrevive a ela a caminho do louvor do Salmo 150. Não é preciso adotar o esquema inteiro dele para ver o salmo fazendo esse trabalho. Salmos 1:6 diz: “o caminho dos maus perecerá”. Salmos 73:27 diz: “os que ficaram longe de ti perecerão”, com o mesmo verbo hebraico, e a Bíblia Livre usa o mesmo verbo português nos dois. Asafe chega à conclusão do Salmo 1, mas por uma estrada que o Salmo 1 nunca descreve.
A voz, e o pouco que sabemos dela
O título diz “Salmo de Asafe”. Aqui é preciso contenção.
Crônicas cita um Asafe, levita, entre os músicos que Davi designou (1 Crônicas 6:39; 25:1–2), e descreve os filhos dele profetizando com harpas, saltérios e címbalos. No tempo de Ezequias os levitas louvam a Deus “pelas palavras de Davi e de Asafe vidente” (2 Crônicas 29:30). Depois do exílio, cento e vinte e oito “filhos de Asafe” voltam como cantores (Esdras 2:41). Asafe é, portanto, uma pessoa e também um grupo de cantores que levou o nome dele por séculos. Doze salmos trazem esse título: o 50 e do 73 ao 83.
A preposição hebraica do título pode significar “de”, “para” ou “pertencente a”. Pode indicar autoria ou só que o salmo faz parte da coleção de Asafe. Nada dentro do salmo permite datá-lo, e nada nomeia uma ocasião. Vou chamar quem fala de Asafe por comodidade, e você pode fazer o mesmo no púlpito, mas não diga à igreja em que ano foi nem o que aconteceu com ele. O salmo esconde isso de propósito, e o resultado é que qualquer leitor pode ficar no lugar onde ele ficou.
Os santuários
O versículo 17 é a dobradiça: “Até que entrei nos santuários de Deus, e entendi o fim de tais pessoas.”
A Bíblia Livre está certa no plural: o substantivo hebraico é plural, “os santuários de Deus”. A maioria dos intérpretes entende o conjunto do templo, com o plural apontando para o complexo sagrado como um todo; muitas versões simplificam para “santuário”. Uma minoria lê como “as coisas santas de Deus”, ou seja, os propósitos ocultos dele. A leitura mais natural, e a que a linguagem do próprio salmo apoia quando fala de se aproximar de Deus no versículo 28, é que ele foi ao lugar de culto.
O que ele fez lá, o salmo não diz. Não há visão, nem oráculo, nem sacerdote explicando nada. Esse silêncio ajuda: ele só diz que a perspectiva mudou no lugar onde Deus era adorado. Não enfeite.
Quanto à geografia e à arqueologia: se o salmo é do tempo da monarquia, o santuário é presumivelmente o templo de Salomão em Jerusalém. O Monte do Templo nunca foi aberto a escavações, e nenhum vestígio daquele edifício foi identificado com segurança. Se o salmo é posterior, pode ser o segundo templo. Não sabemos qual, e nada no sermão depende disso.
Como o salmo foi construído
Esse é um salmo para pregar na ordem em que foi escrito. Três marcas estruturais o sustentam, e o leitor da Bíblia Livre consegue ver todas.
A palavra “certamente”. A partícula hebraica ‘ak abre os versículos 1, 13 e 18. Pode significar “certamente” ou “somente”, uma palavra de afirmação enfática. A Bíblia Livre a traduz por “certamente” nas três vezes. Isso permite mostrar o esqueleto do salmo na Bíblia que a própria igreja tem na mão:
- “Sim, certamente Deus é bom para Israel” (v. 1): o credo.
- “Certamente purifiquei meu coração e lavei minhas mãos na inocência inutilmente” (v. 13): o contrário do credo, dito com a mesma segurança.
- “Certamente tu os fazes escorregarem” (v. 18): o credo recuperado, agora de olhos abertos.
Três vezes Asafe tem certeza. A primeira e a terceira concordam. A do meio quase venceu.
Um detalhe no versículo 13: as palavras “Cheguei a pensar” não estão no hebraico. O tradutor as acrescentou para deixar claro que é um pensamento, não uma afirmação do salmo. É uma ajuda legítima, mas no original a frase vem crua, com a mesma partícula do versículo 1.
O “eu, porém”. O hebraico wa’ani, “e eu”, marca os versículos 2, 22, 23 e 28. Na Bíblia Livre ele aparece claramente em três: “Eu porém, quase que meus pés se desviaram” (v. 2), “Porém agora estarei continuamente contigo” (v. 23) e “Mas quanto a mim, bom me é me aproximar de Deus” (v. 28). O salmo sai da bondade de Deus em geral para o que aconteceu com este homem, e volta a ele o tempo todo.
O coração. A palavra aparece seis vezes, e a Bíblia Livre a mantém em todas: os limpos de coração (v. 1), os desejos do coração dos perversos (v. 7), “purifiquei meu coração” (v. 13), “meu coração tem se amargurado” (v. 21), e duas vezes no versículo 26: “Minha carne e meu coração desfalecem; porém Deus será a rocha do meu coração”. Martin Buber escreveu um ensaio sobre esse salmo com o título “O coração determina”, e seja qual for a sua opinião sobre a leitura dele, o título resume bem o texto. O drama inteiro acontece por dentro.
Notas de linguagem
Cinco observações, todas verificáveis, nenhuma exigindo que você diga “o hebraico na verdade quer dizer”.
O trabalho (vv. 5 e 16). O versículo 5 diz que os perversos não são oprimidos como o homem comum. A palavra hebraica por trás é ‘amal, fadiga, canseira. No versículo 16, quando Asafe tenta entender tudo aquilo, “isto me pareceu trabalhoso”, e a palavra é ‘amal de novo. A Bíblia Livre usa duas palavras diferentes, então vale explicar. Os perversos não tinham canseira. Tentar entendê-los foi só canseira. É uma ironia pequena e verdadeira, e a igreja sente.
O fim deles e o meu depois (vv. 17 e 24). No versículo 17 ele entende “o fim de tais pessoas”, e a palavra é ‘acharit. No versículo 24 Deus “depois me receberás em glória”, e “depois” é ‘achar, da mesma raiz. Os perversos têm um fim. O salmista tem um depois. “Fim” e “depois” deixam o contraste visível em português, ainda que não mostrem a raiz comum.
Contigo (vv. 22, 23, 25). Aqui o leitor brasileiro sai ganhando. O versículo 22 termina: “tornei-me como um animal para contigo”. O 23 começa: “Porém agora estarei continuamente contigo”. O 25 continua: “E quando estou contigo, nada há na terra que eu deseje”. Em hebraico as três frases dependem da mesma preposição pequena, ‘im, “com”, e a Bíblia Livre a preserva nas três com “contigo”. No seu momento mais animal, burro e amargo, ele estava “contigo”. A frase seguinte não diz que ele voltou para a presença de Deus. Diz que nunca tinha saído dela.
Uma observação sobre o tempo verbal: no versículo 23 o hebraico não tem verbo, só “e eu, sempre contigo”. A Bíblia Livre supre com um futuro, “estarei”, e isso soa como resolução. Outras versões usam o presente, “estou”. As duas leituras são possíveis. O presente talvez combine melhor com a descoberta do versículo, de que ele já estava ali.
Os rins (v. 21). “Meu coração tem se amargurado, e meus rins têm sentido dolorosas picadas.” A Bíblia Livre é literal aqui: o hebraico diz rins. Na linguagem bíblica os rins são o lugar das emoções mais íntimas, tanto que a mesma Bíblia Livre traduz essa palavra por “sentimentos” em Jeremias 17:10, onde Deus examina “o coração” e prova “os sentimentos”. Não precisa explicar anatomia para a igreja. Basta dizer que a amargura dele doía no fundo.
Porção (v. 26). “Deus será a rocha do meu coração e minha porção para sempre.” Primeiro, “rocha”: a Bíblia Livre segue o hebraico tsur, rocha, onde muitas versões dizem “força”. Depois, cheleq, porção ou parte, que é linguagem da divisão da terra. Quando a terra foi repartida, a tribo de Levi não recebeu nada, e o Senhor disse a Arão: “Eu sou tua parte e tua herança em meio dos filhos de Israel” (Números 18:20). Ali a Bíblia Livre traduz cheleq por “parte”; no salmo, por “porção”. É a mesma palavra. Se a tradição de Crônicas sobre Asafe como levita está por trás desse salmo, o versículo 26 é um levita lembrando o que a tribo dele sempre ouviu: vocês não ganham terra; ganham Deus. A expressão volta em Salmos 16:5, Salmos 142:5 e Lamentações 3:24. Ofereça a ligação levítica como pano de fundo possível, não como certeza. A palavra em si é certa.
Uma nota textual, para você não ser pego de surpresa. No versículo 7 a Bíblia Livre diz “Seus olhos incham de gordura”, seguindo o texto hebraico tradicional. Algumas versões modernas seguem as antigas traduções grega e siríaca e trazem algo como “da sua gordura procede a iniquidade”. Os versículos 4, 7 e 10 estão entre as linhas mais difíceis do Saltério, e as traduções divergem; os comentários de Tate e de Hossfeld e Zenger expõem as opções em detalhe. Não pendure nada nessas linhas.
O que a maioria dos leitores não percebe
Ele ficou calado por causa dos outros. O versículo 15 é a linha mais esquecida do salmo: “Se eu tivesse dito isto, eu falaria dessa maneira; eis que teria decepcionado a geração de teus filhos.” Ele chegou à conclusão do versículo 13 e não a pregou. Sabia que as palavras dele tinham peso, que havia uma geração de filhos de Deus escutando, e que não tinha o direito de entregar a eles um desespero que ainda não tinha terminado de pensar. Isso não é hipocrisia. É responsabilidade. Ele conta agora, depois da virada, quando a história inteira pode ser contada.
A inveja vem antes da arrogância. O versículo 3 nomeia o problema do salmista antes de descrever o de qualquer outro: “eu tinha inveja dos arrogantes”. Os versículos 4 a 12 não são um levantamento objetivo dos perversos. São o que a inveja enxerga. O salmo é franco: o longo retrato do pecado alheio é a vista de dentro do próprio ressentimento.
O escorregão volta. No versículo 2, quase nada faltou para os passos dele “escorregarem”. No versículo 18, “Certamente tu os fazes escorregarem”. A Bíblia Livre usa o mesmo verbo nas duas passagens, e o eco fica audível em português. No hebraico as palavras são diferentes, mas a imagem volta de propósito: o homem que quase caiu descobre quem de fato está pisando em terreno liso.
Quem segura é Deus. O versículo 23 não diz “eu me segurei em ti”. Diz “tu tens segurado minha mão direita”. A única mão que o impediu de cair no versículo 2 não era a dele.
O salmo nunca responde a pergunta. Ninguém explica por que os perversos prosperam. O que muda não são os fatos, e sim o ponto de onde ele olha e, no fim, o que ele deseja. No versículo 25 ele já não quer o que eles têm.
Por que isso importa: a conclusão a que ele quase chegou
O versículo 13 não é um grito de dor. É um veredito. “Certamente purifiquei meu coração e lavei minhas mãos na inocência inutilmente.” É dito com a mesma partícula confiante do credo no versículo 1.
É isso que torna o salmo perigoso e útil. A maioria dos crentes que se afastam da fé na sua igreja não faz isso numa crise. Faz depois de um longo tempo de comparação, quando conclui em silêncio que quem nunca se importou com Deus está tão bem ou melhor, e que o custo da fidelidade não foi pago de volta.
Asafe mostra a estrada inteira: a inveja, o olhar demorado para a vida dos outros, o veredito, a decisão de ainda não dizer nada, o esforço exaustivo de pensar sozinho, e depois o lugar onde tudo virou. Ele também admite que a própria cabeça fazia parte do problema, e poucos sermões dão à igreja licença para dizer isso sem desespero.
Movimentos
Siga o salmo. Ele se divide em nove unidades, e cada uma dá um movimento. Agrupe algumas se precisar, mas não troque a ordem.
1. O credo (v. 1). Comece pelo que todos creem. Diga com simplicidade e deixe a frase ficar no ar um instante, porque o salmo vai colocá-la à prova.
2. A quase queda (vv. 2–3). Ele diz “quase” duas vezes. Nomeie a inveja como causa, e como dele. O problema começa no olhar: “quando via a prosperidade dos perversos”.
3. A vista da inveja (vv. 4–12). Leia essa parte com certo ritmo. Deixe a igreja reconhecer o retrato: saudáveis, sem aperto, arrogantes, desdenhando de Deus, e aparentemente recompensados por isso.
4. O veredito guardado (vv. 13–16). A virada da primeira metade. “Inutilmente.” Depois a contenção do versículo 15 e o cansaço do 16. É aqui que você descreve como é carregar uma conclusão que não se pode dizer nem resolver.
5. Os santuários (v. 17). Um versículo só, o movimento mais curto. Desacelere. Ele não saiu daquilo pensando. Foi ao lugar onde Deus é adorado, e lá viu o fim da história.
6. O fim da história (vv. 18–20). O que ele viu: terreno escorregadio, ruína repentina, um sonho que se desfaz quando a pessoa acorda. A prosperidade que parecia permanente era uma aparência que Deus despreza quando desperta.
7. A confissão (vv. 21–22). Ele vira a luz para si mesmo. Amargurado, ferido por dentro, tolo, um animal. Não tenha pressa. Confessar a própria tolice faz parte da cura, não é um desvio infeliz.
8. A descoberta (vv. 23–26). “Porém agora estarei continuamente contigo.” A mão segura, o conselho que guia, a glória depois, e então o ponto mais alto do salmo: “A quem tenho no céu além de ti?” Depois a carne e o coração desfalecem, e Deus continua sendo a porção.
9. Os dois caminhos (vv. 27–28). O Salmo 1 volta, agora conquistado. Ficar longe de Deus termina em perecer. Aproximar-se de Deus é bom. E o salmo termina com o motivo de ele estar contando tudo isso: “para que eu conte todas as tuas obras”.
Do estudo para o púlpito
Sobre o versículo 13. Uma forma possível de explicar isso à congregação: “Repare que ele diz isso com a mesma palavra que usou no credo. ‘Certamente Deus é bom.’ ‘Certamente foi tudo inútil.’ Ele tinha tanta certeza da segunda frase quanto da primeira. Alguns de vocês sabem exatamente como é isso. Você não é menos crente por ter pensado assim. Você está na Bíblia.”
Sobre o versículo 15. Uma forma possível de explicar isso à congregação: “Ele não postou. Não pregou. Pensou nos filhos de Deus que estavam em volta e guardou aquilo até atravessar tudo de ponta a ponta. Existe um silêncio que é mentira. Esse não era. Era um homem que sabia que as palavras dele tinham peso.”
Sobre os santuários. Uma forma possível de explicar isso à congregação: “O salmo não conta o que aconteceu quando ele entrou. Nenhuma voz, nenhuma visão. Ele foi ao lugar onde o povo de Deus adorava, e passou a ver as coisas de outro jeito. Às vezes a coisa mais importante que você pode fazer com uma dúvida que não consegue resolver é levá-la para o lugar onde Deus é louvado, e ficar ali com ela.”
Sobre o “contigo”. Uma forma possível de explicar isso à congregação: “Escutem os versículos 22 e 23 juntos. ‘Tornei-me como um animal para contigo. Porém agora estarei continuamente contigo.’ Ele estava agindo como bicho, e estava agindo como bicho na presença de Deus. Deus não esperou ele criar juízo para segurar a mão dele. Estava segurando o tempo todo.”
Implicações teológicas
Primeiro, a bondade de Deus não passa por auditoria de resultados visíveis. O salmo nunca retira o versículo 1. Ele redefine o que é “bom”: “bom me é me aproximar de Deus” (v. 28). O bem que Deus dá, no fim, é ele mesmo.
Segundo, a percepção tem dimensão moral. O que Asafe viu nos versículos 4 a 12 era verdade até certo ponto, mas visto pela inveja e interrompido no ponto errado da história. O culto não mudou os fatos. Mudou o lugar de onde ele os via.
Terceiro, o salmo caminha para uma esperança além da morte sem explicitá-la. Os perversos têm um fim. O salmista tem um depois, um Deus que vai “receber” o salmista, uma porção “para sempre”, e uma comunhão que se mantém quando “minha carne e meu coração desfalecem”. O verbo hebraico do versículo 24 é o mesmo de Gênesis 5:24, quando “Deus o levou”, falando de Enoque, e de Salmos 49:15, “pois ele me tomará consigo”. A Bíblia Livre usa três verbos diferentes, receber, levar e tomar, para a mesma palavra hebraica, então vale mostrar a ligação. Os intérpretes divergem sobre quanto Asafe enxergou. É justo dizer que esse é um dos lugares do Antigo Testamento que vão mais longe nessa direção, e injusto dizer que ele ensina uma doutrina completa do céu ou que não diz nada sobre isso.
Conexão cristológica
Nomeie o tipo de conexão, e resista à tentação de forçar uma. O Novo Testamento nunca cita o Salmo 73 com fórmula de citação.
Eco canônico. “Limpos de coração” no versículo 1 é a mesma expressão que a Bíblia Livre usa nas bem-aventuranças: “Benditos são os limpos de coração, porque eles verão a Deus” (Mateus 5:8). A coincidência exata é da tradução; a ideia pertence ao vocabulário dos Salmos (compare “puro de coração” em Salmos 24:4). Apresente como linguagem bíblica comum, não como citação desse salmo. O versículo 1 promete que Deus é bom para essas pessoas; Jesus promete que elas o verão.
Teológica. A virada de Asafe aconteceu quando ele entrou nos santuários de Deus, e o salmo termina com “bom me é me aproximar de Deus”. Hebreus diz que os crentes agora têm “a confiança de entrar no Santuário pelo sangue de Jesus”, e por isso exorta: “aproximemo-nos com um coração sincero” (Hebreus 10:19, 22). O acesso que o salmista tinha a um edifício, o cristão tem por meio de uma pessoa. Em português até o vocabulário se encontra, santuário e aproximar-se. Mas é uma conexão teológica, construída a partir do cânon inteiro, e deve ser pregada como tal.
Ressonância, dita como ressonância. “Tu tens segurado minha mão direita” fica naturalmente ao lado das palavras de Jesus sobre as ovelhas: “ninguém as arrancará de minha mão” (João 10:28). E a confiança do versículo 26, de que nem a carne nem o coração que desfalecem encerram a comunhão, é onde a lista de Paulo em Romanos 8:38–39 vai dar. Ofereça as duas como ressonância. Nenhum dos dois autores cita o salmo.
Não autorizada. Fazer de Asafe um tipo de Cristo, ou ler a “glória” do versículo 24 como profecia da ascensão. O salmo é o testemunho de um crente, e é mais útil à sua igreja quando continua sendo isso.
Aplicação pastoral contemporânea
Mire em dois tipos de pessoa que vão estar na sala.
Para quem já esteve onde o versículo 13 está: dê a elas a licença do salmo e o caminho dele. O pensamento “foi tudo inútil” não é o fim da fé; é um lugar onde uma pessoa fiel pode estar. A orientação do salmo, pelo exemplo, é ter cuidado com onde se diz isso, e levar a dúvida para o culto antes de dar o assunto por encerrado.
Para quem lidera outros, pais, líderes de célula, pastores: o versículo 15 é para você. As suas dúvidas mal resolvidas caem sobre gente que confia em você. Isso não quer dizer fingir. Asafe acaba contando a história inteira. Quer dizer esperar até poder contá-la com verdade até o fim.
E para todos: o versículo 25 é o teste de verdade. A pergunta não é se Deus deu a você tanto quanto às pessoas que você inveja. É se, tirando tudo o que Deus dá, você ainda o desejaria. Asafe precisou de uma quase queda, de um longo silêncio e de uma confissão para chegar lá.
Possibilidades de ilustração
Use primeiro as imagens do próprio salmo: pés numa ladeira, terreno escorregadio, o sonho que some quando a pessoa acorda, o animal diante de Deus, uma mão segura por alguém mais forte.
Se buscar fora do texto, use algo verificável e diga que uma analogia é uma analogia. Quem já andou num piso molhado e foi segurado pelo braço de alguém mais firme entende o versículo 23. Rolar a tela vendo as fotos da vida dos outros e sair amargo é uma versão moderna e muito comum dos versículos 3 a 12, e dá para descrever isso sem inventar uma pessoa. Não conte a história do incrédulo rico que acabou mal. O próprio salmo avisa que é a inveja que escreve essas histórias para nós, e ele nunca conta uma.
Dinâmicas de pregação
Leitura da congregação. Peça que todos leiam juntos em voz alta o versículo 1 no começo, e de novo bem no fim, junto com os versículos 25 e 26. O mesmo credo, dito duas vezes, vai soar diferente na segunda.
Silêncio intencional. Depois do versículo 16, “isto me pareceu trabalhoso”, pare. Deixe passar dez ou quinze segundos antes de ler o versículo 17. O salmo tem uma virada, e é pelo silêncio que a igreja a escuta.
Pergunta para a congregação. “A quem tenho no céu além de ti?” Faça como pergunta, e não responda por eles.
Direção de encerramento
Termine no versículo 28, não no 25.
O versículo 25 é o cume, e dá vontade de parar ali. Mas Asafe não fica no cume. Ele desce com um motivo para falar: “ponho minha confiança no Senhor DEUS, para que eu conte todas as tuas obras.” O homem que se recusou a falar no versículo 15 agora tem algo que pode dizer à geração dos filhos de Deus sem decepcioná-los. O próprio salmo é essa fala.
Se couber um apelo no seu contexto, que seja o versículo 28: “bom me é me aproximar de Deus”. Não porque compensa mais. Porque Deus está ali, e ele segura a sua mão há mais tempo do que você imagina.
Onde este texto costuma ser mal conduzido
- Dizer à congregação quem era Asafe e quando escreveu, como se isso fosse sabido. Crônicas cita um Asafe entre os músicos levitas de Davi, e "os filhos de Asafe" ainda estão cantando depois do exílio em Esdras 2:41, então o nome cobre um grupo de cantores ao longo de séculos. O título "de Asafe" pode indicar autoria, dedicação ou pertença à coleção de Asafe. Nada no salmo permite datá-lo.
- Inventar a ocasião. Nenhum versículo cita rei, crise, rival ou doença. Sermões que descrevem o negócio falido do salmista ou o vizinho rico dele estão escrevendo ficção por cima de um texto que, de propósito, não dá nenhum desses detalhes.
- Dizer que no santuário Deus explicou por que os perversos prosperam. O versículo 17 diz que ele entendeu o fim de tais pessoas. Ele recebe perspectiva sobre aonde a história deles vai, não uma teoria sobre por que isso é permitido. O salmo nunca responde o porquê.
- Pregar o versículo 17 como promessa de que ir ao culto dissolve a dúvida. Logo depois, nos versículos 21 e 22, o salmista confessa como tinha sido tolo. O santuário começa uma reorientação; não a encerra.
- Afirmar que o versículo 24 é uma declaração clara do céu no Antigo Testamento, ou negar que ele aponte para além da morte. O verbo hebraico é o mesmo usado quando Deus levou Enoque e em Salmos 49:15, e o versículo 26 diz "para sempre". Os intérpretes divergem sobre quanto o salmista enxergou. Diga isso, e deixe o "para sempre" carregar o peso.
- Construir teologia sobre a palavra que a Bíblia Livre traduz por "aparência" no versículo 20. É a palavra hebraica de "imagem" em Gênesis 1:26, mas aqui significa algo como um vulto, uma figura de sonho, como em Salmos 39:6, onde a Bíblia Livre também diz "aparência". Não quer dizer que os perversos perdem a imagem de Deus.
- Ler "Israel" no versículo 1 como privilégio étnico. O próprio versículo define de quem está falando: os limpos de coração. Alguns estudiosos propõem redividir as consoantes hebraicas para ler "bom para os retos é Deus". As traduções mantêm "Israel", e de qualquer forma a qualificação permanece.
- Apresentar o salmo como conselho geral contra a inveja ou lição sobre contentamento. É um testemunho de quem quase perdeu a fé. Achatar isso em conselho tira justamente o perigo que faz o salmo valer a pregação.
Perguntas para o pregador
- De quem é a prosperidade que você inveja em silêncio, e você já admitiu isso para alguém, inclusive para Deus?
- O versículo 15 mostra um líder que guardou a sua pior conclusão longe das pessoas pelas quais era responsável. Onde fica, para você, a linha entre esse tipo de contenção e a simples desonestidade?
- O culto virou para você um lugar de encenar certeza, ou ainda é o lugar onde a sua perspectiva é corrigida?
- Se tudo o que Deus dá fosse retirado, o versículo 25 ainda seria verdade na sua vida?
Fontes e notas
Consultado durante a escrita deste texto. Nada é listado aqui sem ter sido usado.
- Berean Standard Bible (domínio público) texto primário
- Bíblia Livre 2018 (CC BY) texto primário
- Marvin E. Tate, Psalms 51–100, Word Biblical Commentary 20 (Word, 1990) comentário
- Frank-Lothar Hossfeld e Erich Zenger, Psalms 2: A Commentary on Psalms 51–100, Hermeneia (Fortress, 2005) comentário
- John Goldingay, Psalms, Volume 2: Psalms 42–89, Baker Commentary on the Old Testament Wisdom and Psalms (Baker Academic, 2007) comentário
- Derek Kidner, Psalms 73–150, Tyndale Old Testament Commentaries (Inter-Varsity Press, 1975) comentário
- Walter Brueggemann, Bounded by Obedience and Praise: The Psalms as Canon, Journal for the Study of the Old Testament 50 (1991) artigo acadêmico
- Gerald H. Wilson, The Editing of the Hebrew Psalter, SBL Dissertation Series 76 (Scholars Press, 1985) monografia
- Martin Buber, The Heart Determines: Psalm 73 ensaio