Um monte de pano de saco escuro e grosso e de cinza no calçamento de pedra diante de um portão persa altíssimo de tijolo esmaltado, com uma veste fina de linho tingido dobrada ao lado, intocada.
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Estudo Bíblico

A Pergunta à Porta do Rei

Ester 4 é o capítulo que todo mundo cita e o capítulo que nunca menciona Deus. Um estudo sobre o pano de saco de Mardoqueu, a lei do pátio interno, a Susã persa até onde se pode conhecê-la e uma frase famosa que nunca foi feita para virar slogan.

Por Redação EmberKeeper 19 min de leitura

Texto bíblico Ester 4:1–17 · Ester 3:7–15 · Ester 5:1–3 · Ester 2:5–10 · Deuteronômio 31:18 · Gênesis 43:14 · Joel 2:14 · Jonas 3:9 · 2 Samuel 12:22 · Hebreus 4:16

No centro de Ester 4 há duas roupas.

Uma é o pano de saco. Quando Mardoqueu fica sabendo do que Hamã tramou, ele “rasgou suas vestes, e vestiu-se de saco e de cinza”, e sai pela cidade “clamando com grande e amargo clamor”. Vai até onde o palácio permite e para, “porque ninguém vestido de saco podia entrar pela porta do rei”.

A outra roupa vem de dentro. As servas e os eunucos de Ester contam a ela o que viram, “então a rainha teve grande dor, e enviou roupas para vestir a Mardoqueu, e tirar o saco que estava sobre ele; porém ele não as aceitou”.

É fácil ser duro com Ester nesse ponto, e acho que seria injusto. Ela ainda não sabe o que aconteceu; vive atrás de muros e recebe as notícias por meio de criados. O que ela vê é o homem que a criou como filha (2:7) parado, de luto, diante de uma porta que ele não pode atravessar. E ela faz o que o amor costuma fazer primeiro: tenta fazer a dor parar.

Mardoqueu não deixa a dor parar. O capítulo inteiro depende dessa recusa. Antes de decidir qualquer coisa, Ester precisa ouvir o motivo do pano de saco.

Um livro que nunca diz Deus

Quem lê o Ester hebraico com atenção percebe o que falta. Em dez capítulos, Deus não é nomeado nenhuma vez. Não há oração, nem menção à aliança, à Lei de Moisés ou ao templo. Jerusalém aparece só como o lugar de onde a família de Mardoqueu foi levada cativa (2:6). Há jejum no livro (4:3, 4:16, 9:31), e em Israel jejum e oração andavam juntos, mas o narrador nunca diz que alguém orou. Na Bíblia Livre, o livro inteiro não traz nem “Deus” nem “SENHOR”.

Ester é o único livro da Bíblia Hebraica do qual não se encontrou nenhum fragmento entre os Manuscritos do Mar Morto. Pode ser acaso da preservação, e não se deve tirar disso mais do que isso. O Talmude Babilônico registra a opinião do sábio Shmuel de que o rolo de Ester “não torna as mãos impuras”, que é a fórmula técnica para um livro sagrado, embora a discussão que segue sustente que ele ainda o considerava inspirado (Meguilá 7a). Martinho Lutero, discutindo com Erasmo em 1525, disse que Ester merecia, mais que qualquer outro livro, ficar fora do cânon.

Os primeiros tradutores sentiram a ausência e trataram de preenchê-la. A versão grega de Ester, preservada na Septuaginta, é em vários trechos outro livro. Chama o rei de Artaxerxes. Abre com um sonho de Mardoqueu. No nosso capítulo, a mensagem de Mardoqueu ganha um pedido que o hebraico não tem: que Ester invoque o Senhor e fale ao rei por eles. Depois que ela aceita ir, o grego insere duas longas orações, uma de Mardoqueu e outra de Ester. E quando ela finalmente se apresenta ao rei, o texto grego diz com todas as letras que Deus mudou o espírito do rei para a brandura. O hebraico diz apenas que “ela alcançou favor em seus olhos” (5:2).

Esses Acréscimos gregos estão nas Bíblias católicas e ortodoxas, e muitos leitores brasileiros os conhecem de lá. A Bíblia Livre, como as traduções evangélicas em geral, segue o hebraico e não os inclui: o Ester da BLIVRE tem dez capítulos e 167 versículos. De modo que o livro que a maioria de nós lê é justamente o mais estranho, uma história de livramento em que o libertador nunca é mencionado.

Os rabinos trataram esse silêncio como pista. Quando o Talmude pergunta onde Ester é aludida na Torá, a resposta vem de Deuteronômio 31:18, onde Deus avisa o que acontecerá quando o povo se desviar: “Porém eu esconderei certamente meu rosto naquele dia”. No hebraico, “esconderei certamente” é haster astir, e os sábios ouviram ali o nome de Ester (Chulin 139b). É um trocadilho, e eles sabiam disso. Mas o trocadilho diz algo verdadeiro sobre o livro. Ester é uma história do tempo do rosto escondido.

Susã, e um rei chamado Assuero

A história se passa em Susã, no atual sudoeste do Irã, uma das residências reais dos reis persas aquemênidas. Dario I construiu ali um palácio no fim do século VI a.C., e escavadores franceses, na década de 1880, tiraram dele os painéis de tijolo esmaltado com arqueiros em marcha que hoje estão no Louvre. A BLIVRE chama o lugar de “fortaleza de Susã”, e o livro conhece o vocabulário daquele mundo. Várias palavras administrativas do texto hebraico vêm do persa: dat para lei, patshegen para a cópia de um documento, o termo para sátrapas.

O rei, na BLIVRE, é Assuero, forma que vem do hebraico ‘Aḥashwerosh. O nome corresponde ao persa antigo Xšayāršā, que os gregos escreveram Xerxes, e essa identificação é o consenso amplo dos estudiosos. Isso colocaria a história no reinado de Xerxes I, de 486 a 465 a.C., o rei que invadiu a Grécia e perdeu a batalha naval de Salamina.

Daí em diante é preciso cuidado. A posição de Ester como rainha não tem confirmação fora da Bíblia. Heródoto dá o nome da esposa de Xerxes: Amestris, filha de Otanes (7.61), e conta uma história sombria sobre o ciúme e a crueldade dela no banquete do aniversário do rei (9.109-112). Também relata que os sete nobres que levaram Dario ao trono combinaram que o rei só se casaria com mulheres das famílias deles (3.84). As tentativas de identificar Amestris com Vasti ou com Ester não se encaixam bem, e é possível que os gregos tenham registrado apenas uma esposa entre várias. Muitos estudiosos leem Ester como novela histórica, contada com conhecimento real da corte persa e moldada para seus próprios fins; outros defendem seu núcleo histórico. O que se pode dizer com honestidade é que o cenário do livro tem textura autêntica e que os acontecimentos centrais não têm testemunha externa.

Uma conversa por intermediário

Neste capítulo Ester não fala nenhuma vez com Mardoqueu. Ela chama Hatá, “um dos eunucos do rei, que ele tinha posto para a servir”, e tudo passa por ele, atravessando a “praça da cidade que estava diante da porta do rei”, indo e voltando. O narrador marca cada travessia.

Mardoqueu entrega duas coisas. A primeira é informação: “a soma de prata que Hamã havia dito que daria para a tesouraria do rei”. Hamã tinha oferecido “dez mil talentos de prata” (3:9), quantia tão grande que muitos leitores a tomam como exagero deliberado. Mardoqueu sabe a soma. Vinha escutando à porta do rei, como quando descobriu a conspiração contra o rei (2:21–22).

A outra é um documento: “a cópia da escritura do decreto que tinha sido publicado em Susã para que fossem destruídos, a fim de a mostrar a Ester e a ela informar, e lhe mandar que fosse ao rei para lhe pedir e suplicar diante dele em favor de seu povo”. A palavra por trás de “cópia” é patshegen, o mesmo empréstimo persa usado para o decreto em 3:14. Ester recebe o texto na mão. E “seu povo” volta à história pela primeira vez desde o capítulo 2, quando Mardoqueu tinha mandado que ela o escondesse: “Ester, porém, não declarou seu povo nem sua parentela” (2:10). Agora ele manda que ela use o que escondeu.

O intermediário mostra a distância entre os dois primos: ele diante de uma porta que o pano de saco não atravessa, ela num lugar onde nem a rainha vê o rei sem ser chamada.

O que se sabe sobre chegar diante de um rei persa

A primeira resposta de Ester não é covardia. É um relato da lei.

Todos os servos do rei e o povo das províncias do rei sabem que todo homem ou mulher que entra ao pátio interno […] sem ser chamado, sua sentença é a morte, a não ser se o rei estender o cetro de ouro, para que viva; e eu nestes trinta dias não fui chamada para vir ao rei.

A última frase é a que torna tudo pessoal. Fazia um mês que o rei não a chamava.

Quanto disso dá para verificar? Uma parte. Heródoto é a melhor testemunha antiga que temos. Ele atribui a Déjoces, o primeiro rei dos medos, a regra de que ninguém entraria na presença do rei e de que todos tratariam com ele sempre por meio de mensageiros (1.99). Conta que, quando Dario chegou ao poder, os seis nobres que conspiraram com ele receberam um privilégio especial: podiam entrar no palácio sem ninguém para anunciá-los, a não ser que o rei estivesse deitado com a esposa (3.84). E conta o que aconteceu a um deles, Intafrenes, quando quis usar esse privilégio. O porteiro e o encarregado dos recados o barraram, dizendo que o rei estava com a esposa. Intafrenes cortou-lhes as orelhas e o nariz. Dario, suspeitando de conspiração, mandou matá-lo com quase toda a família (3.118-119).

É o retrato de uma corte em que porteiros e mensageiros controlavam o acesso até para os nobres mais altos. Os relevos de audiência escavados em Persépolis mostram o mesmo mundo em pedra: o rei no trono, segurando um bastão longo, e um oficial inclinado diante dele, com a mão levantada junto à boca.

O que não temos é nenhuma fonte persa ou grega que registre a lei que Ester descreve: morte para quem entra sem ser chamado, suspensa pelo cetro de ouro. Ela combina com o mundo que Heródoto descreve, mas ele não a confirma. A lei pode ser exatamente como Ester diz; nós a conhecemos só por Ester.

O que o texto deixa claro é como Ester via a própria situação. A rainha anterior tinha perdido o lugar por recusar um chamado, e a decisão foi escrita “nas leis da Pérsia e da Média, e que não se possa revogar” (1:19). Ester arriscaria o lugar e a vida atendendo a um chamado que ninguém tinha feito.

A resposta de Mardoqueu

A resposta de Mardoqueu é o trecho mais citado do livro, e é mais dura do que a sua fama. Começa assim: “Não penses em tua alma, que escaparás na casa do rei mais que todos os outros judeus”. E continua:

Porque se te calares agora, haverá alívio e libertação para os judeus de outra parte; porém tu e a casa de teu pai perecereis. E quem sabe se foi para tempo como este que chegaste a ser rainha?

Primeiro, o aviso: o palácio não vai protegê-la. O decreto fala em “todos os judeus”, e Hamã já mostrou que “achou pouco matar apenas Mardoqueu” (3:6).

Depois vem uma condição com um verbo enfático no hebraico, im-haḥaresh taḥarishi, algo como “se de fato te calares”. Mardoqueu não tem medo de que ela diga a coisa errada. Tem medo de que ela não diga nada.

Então a expressão famosa: alívio e libertação “de outra parte”. Aqui a BLIVRE esconde uma palavra que o hebraico põe à vista. O texto diz mimmaqom aḥer, literalmente “de outro lugar”. E isso importa, porque há muito tempo se pergunta se esta seria a única alusão velada a Deus no livro, e não sem motivo. No hebraico rabínico posterior, HaMakom, “o Lugar”, tornou-se um modo comum de falar de Deus. O Gênesis Rabá explica que Deus é chamado assim porque ele é o lugar do mundo, e o mundo não é o lugar dele. Mas esse uso é atestado depois de Ester, e a gramática torna a leitura difícil: “outro lugar” supõe que a própria Ester é um lugar de onde o livramento poderia vir, e seria estranho chamar Deus de “outra” alternativa à rainha. Por isso muitos comentaristas entendem que Mardoqueu fala de alguma outra ajuda humana. Ele expressa confiança de que os judeus não serão exterminados, sem dizer de onde vem essa confiança. A versão grega, que nomeia Deus com toda a liberdade em outros trechos, mantém aqui a mesma expressão vaga.

Depois, a ameaça: “tu e a casa de teu pai perecereis”. Mardoqueu não explica como. Uns leem ali juízo divino; outros, a consequência óbvia de que a identidade da rainha viria à tona quando a matança começasse. O texto não esclarece.

“Quem sabe” é uma pergunta

A frase dos cartazes de igreja é a última do versículo, quase sempre cortada para “para tempo como este”. Mas ela começa com duas palavras que costumam ficar de fora: “E quem sabe”. No hebraico, umi yodea.

Essa expressão tem história no Antigo Testamento. Quando Davi jejuava pelo filho doente, explicou depois: “eu jejuava e chorava, dizendo: Quem sabe se Deus terá compaixão de mim, por maneira que viva o menino?” (2 Samuel 12:22). O menino morreu. Em Joel, o profeta chama Israel a voltar para o SENHOR e acrescenta: “Quem sabe talvez ele volte atrás e se arrependa” (Joel 2:14). Em Jonas, o rei de Nínive manda a cidade jejuar e diz: “Quem sabe Deus mude de ideia e se arrependa, e se afaste do ardor de sua ira, para não perecermos?” (Jonas 3:9).

Nos três casos, quem diz “quem sabe” está jejuando e não conhece o desfecho. É esperança humilde, sem promessa. Jonas 3:9 fica especialmente perto do nosso capítulo, e a BLIVRE deixa isso visível: jejum, ameaça de destruição e o verbo “perecer”, que no hebraico é o mesmo ‘avad que Mardoqueu usa para a casa do pai de Ester e que Ester vai usar para si mesma.

Mardoqueu, portanto, não diz a Ester que ela foi posta no trono para isso. Pergunta se não teria sido, e a diferença pesa. O slogan me garante que a minha posição prova o meu chamado. A pergunta de Mardoqueu pede uma coisa mais difícil: que uma jovem com medo aja sem garantia, apostando que a sua história estranha talvez tivesse um propósito que ela ainda não enxergava.

E a história dela era estranha. Ela tinha sido levada para o harém de um rei, não chamada por um profeta. Tinha escondido o seu povo por ordem de Mardoqueu. A BLIVRE diz “chegaste a ser rainha”; o hebraico diz, mais literalmente, “chegaste à realeza”, higa’at lammalkhut. A frase olha para trás, para todo aquele caminho cheio de concessões, e pergunta se até isso poderia ter servido para alguma coisa. É uma pergunta sobre a providência feita por alguém que não consegue vê-la, que é o único jeito como a maioria de nós chega a fazê-la.

O hebraico ainda usa a palavra “tempo” duas vezes no versículo. Onde a BLIVRE diz “se te calares agora”, o original diz “neste tempo” (ba’et hazzot); e depois vem “para tempo como este” (le’et kazot). O momento em que ficar calada seria mais fácil é exatamente o momento de que a pergunta trata.

“Se eu perecer, perecerei”

A resposta de Ester é curta e muda quem dá as ordens.

Vai, e junta a todos os judeus que se acham em Susã, e jejuai por mim, e não comais nem bebais durante três dias, nem de noite nem de dia; eu e minhas virgens também assim jejuaremos; e assim virei ao rei, ainda que não seja segundo à lei; e se eu perecer, perecerei.

Até aqui, Mardoqueu mandava e Ester obedecia (2:10, 2:20). O capítulo termina assim: “Então Mardoqueu se foi, e fez conforme tudo quanto Ester lhe mandara.” A rainha começou a agir como rainha.

As últimas palavras dela, ka’asher ‘avadti ‘avadti, têm um eco. Quando Jacó finalmente deixa Benjamim descer ao Egito, ele termina dizendo: “E se eu tiver de ser privado de meus filhos, assim seja” (Gênesis 43:14). A BLIVRE traduz com liberdade, mas no hebraico a construção é a mesma de Ester: literalmente, “como fui privado, fui privado”. Comentaristas notaram o paralelo, e ele pode ser intencional, já que Mardoqueu é apresentado como “um homem da linhagem de Benjamim” (2:5) e o livro tem outros ecos da história de José. Intencional ou não, o tom é parecido: nenhum dos dois fala como herói; ambos esgotaram as alternativas e aceitam uma perda que não podem impedir.

O verbo também pesa. O decreto mandava “destruírem, matarem, e exterminarem a todos os judeus” (3:13), e o último desses verbos, no hebraico, vem da mesma raiz de “perecer”. Mardoqueu tinha avisado que ela pereceria se ficasse calada. Ela responde que pode perecer se falar. De um jeito ou de outro, ela está debaixo da mesma palavra que o seu povo, e escolhe ficar ali com eles.

Depois vem o jejum. É completo, sem comida e sem água, por três dias, “nem de noite nem de dia”, e é comunitário: os judeus de Susã de um lado do muro, Ester e suas servas do outro, todos jejuando juntos. Não se fala em oração. Mas nenhum leitor que conhecesse as Escrituras de Israel imaginaria um jejum de três dias antes de um pedido de vida ou morte como simples dieta. O narrador deixa a oração sem escrever, e o leitor a completa.

A data talvez aumente o peso. As cartas foram escritas “no primeiro mês, no dia treze do mesmo” (3:12), e a Páscoa cai no dia catorze. Se o jejum veio logo em seguida, atravessou a festa. O Talmude reparou nisso. O versículo 17 diz que Mardoqueu “se foi” (vaya’avor, literalmente “passou”), e Rav entendeu que Mardoqueu fez o primeiro dia da Páscoa passar em jejum (Meguilá 15a). O texto não dá as datas do jejum; é uma inferência, mas razoável, e significaria que naquele ano a festa da libertação do Egito foi guardada em pano de saco.

O que o silêncio ensina

Por que um livro bíblico deixaria Deus de fora de uma história de livramento? Os estudiosos não concordam, mas muitos, entre eles Michael Fox, entendem o silêncio como proposital: o leitor é posto onde os personagens estão, capaz de ver um desenho, sem que ninguém lhe diga com certeza quem o traçou.

Na noite seguinte ao primeiro banquete de Ester, “o rei perdeu o sono” (6:1), e o trecho das crônicas lido para ele é justamente o que fala de Mardoqueu (6:2). A própria mulher de Hamã e os sábios dele avisam que, se Mardoqueu é judeu, “tu não prevalecerás contra ele” (6:13). O mês sorteado para o extermínio dos judeus vira “o mês que tornou para eles de tristeza em alegria” (9:22). Ninguém na história anuncia que Deus fez essas coisas. O livro deixa o leitor ver as peças se alinhando.

Os Acréscimos gregos tornam o livro mais claramente religioso e, penso eu, um pouco menor. Quando o grego diz que Deus mudou o coração do rei, a pergunta está respondida. O hebraico a deixa aberta, e por isso fala a quem também vive sem vozes, sem visões e sem anjos: exilados que precisam decidir o que fazer dentro do império de outro, sem profeta que lhes diga.

Um trono de que se pode aproximar

Nenhum texto do Novo Testamento cita Ester, então qualquer ligação com Cristo aqui é teológica.

A lei de 4:11 descreve um trono que significa morte para quem se aproxima sem convite. Ester entrou assim mesmo, vestida “de vestes reais” (5:1), e só viveu porque o rei estendeu o cetro. A carta aos Hebreus fala de outro trono, e a instrução é a oposta: “acheguemo-nos com confiança ao trono da graça, para que possamos receber misericórdia e encontrar graça para sermos socorridos no tempo adequado” (Hebreus 4:16). O motivo, dado nos versículos anteriores, é um sumo sacerdote que atravessou os céus e sabe compadecer-se das nossas fraquezas.

Também é justo, como analogia, notar a forma do gesto de Ester: uma pessoa, com um acesso que os outros não tinham, arriscando a vida para interceder por um povo já condenado. Leitores cristãos ouviram ali um contorno tênue do evangelho, mas as diferenças contam tanto quanto a semelhança. Ester não sabia se sairia viva. E o rei de quem ela se aproximava era aquele cujo anel tinha selado o decreto.

Vivendo em Ester 4

Quase ninguém vive nos capítulos da sarça ardente. Vivemos em Ester 4: um decreto foi publicado, a notícia chega de segunda mão, e as escolhas são reais, arriscadas e vêm sem voz do céu.

O capítulo tem alguns conselhos para esse tipo de vida. Ouça do que a dor se trata antes de tentar calá-la. Diga a verdade sobre o perigo, como Ester disse, sem deixar que uma descrição exata do risco encerre a conversa. Trate qualquer posição que você tenha, principalmente uma que você não buscou, como algo que talvez tenha sido dado por causa de outros. Peça a outros que jejuem e orem com você antes de agir. E entre no pátio interno sem presumir que sabe como vai terminar.

A frase famosa fica melhor como Mardoqueu a disse: uma pergunta feita a alguém que está em lugar seguro enquanto outros correm perigo. Ela ainda pode ser feita.

Quem sabe?

Para refletir

  • Mardoqueu recusou as roupas que Ester mandou. Onde eu tentei calar a dor de alguém com conforto, quando o que a pessoa precisava era que eu ouvisse o motivo dela?
  • A primeira resposta de Ester descrevia o perigo com exatidão. Quais das minhas razões para ficar calado são verdadeiras e, mesmo assim, não bastam?
  • "Quem sabe" é uma pergunta sem garantia. Estou esperando ter certeza do propósito de Deus antes de fazer o que está claramente certo diante de mim?
  • Ester pediu que outros jejuassem com ela antes de agir. A quem eu peço que carregue uma decisão comigo, e quem eu deixo de fora porque prefiro parecer forte?
  • O livro nunca diz que Deus agiu, e nunca diz que ele esteve ausente. Onde, na minha vida, eu só enxerguei coincidência, e o que mudaria se eu lesse de novo?

Oração

Senhor, teu nome não aparece neste capítulo, e tu não estavas ausente dele. Ensina-me a confiar em ti nas páginas da minha vida onde não encontro o teu nome.

Onde fui posto perto do poder, livra-me de pensar que vou escapar do que acontece com os outros.

Quando o certo custar mais do que eu quero pagar, dá-me a coragem simples de Ester, e amigos que jejuem comigo.

Amém.

Mardoqueu não disse a Ester que Deus a tinha colocado ali. Perguntou quem sabe, e deixou a pergunta fazer o seu trabalho.

Fontes e notas

Consultado durante a escrita deste texto. Nada é listado aqui sem ter sido usado.

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