Um pardal cata grãos espalhados sobre um piso gasto de mármore, ao lado de um pequeno altar de pedra sem enfeites; ao fundo, uma colunata na sombra e um morro de rocha nua na névoa da manhã.
Voltar para Estudos Bíblicos

Estudo Bíblico

A Palavra de que Atenas Riu

Em Atenas, Paulo era um homem esperando os amigos, incomodado com o que via e cortês mesmo assim. Um estudo de Atos 17:16–34: a praça, os filósofos, um altar sem nome, dois versos emprestados e a única palavra que os ouvintes não aceitaram.

Por Redação EmberKeeper 19 min de leitura

Texto bíblico Atos 17:16–34 · Atos 17:13–15 · 1 Tessalonicenses 3:1–2 · Atos 7:48 · 1 Reis 8:27 · Isaías 42:5 · 1 Coríntios 1:22–24 · 1 Coríntios 2:1–2 · Atos 18:1

Paulo não foi a Atenas para pregar. Foi mandado para lá porque corria perigo.

Uma turba de Tessalônica tinha ido atrás dele até Bereia, e os irmãos, “no mesmo instante”, o despediram “para que fosse ao mar” (Atos 17:14). Silas e Timóteo ficaram. Os que acompanharam Paulo o deixaram em Atenas e voltaram com o recado de que os dois viessem “o mais rápido que pudessem”. A carta aos tessalonicenses lembra esses dias sem nenhum brilho: “decidimos ficar sozinhos em Atenas” (1 Tessalonicenses 3:1). Paulo chegou sozinho à cidade mais famosa da Grécia, esperando, com tempo sobrando.

O que ele fez com esse tempo é uma das cenas mais conhecidas do Novo Testamento, e uma das mais achatadas. Há quem a transforme em modelo para toda conversa apologética. Há quem a chame de o grande fracasso de Paulo, o dia em que ele tentou a filosofia e aprendeu a lição. Lucas conta a história com mais cuidado do que as duas leituras.

Uma cidade entregue aos ídolos

E enquanto Paulo os esperava em Atenas, seu espírito se incomodava dentro dele, ao ver a cidade tão dedicada à idolatria. (Atos 17:16)

A palavra grega que a Bíblia Livre traduz por “tão dedicada à idolatria” é kateidōlos. Não aparece em nenhum outro lugar do Novo Testamento e é rara em todo o grego. Descreve uma cidade coberta de imagens, tomada por elas, como um terreno tomado pelo mato. A Atenas do século I já não era potência nenhuma. Vivia havia muito tempo como cidade livre sob Roma, da fama de pátria da filosofia e dos monumentos da sua época de ouro. Templos, santuários e estátuas de deuses, heróis e benfeitores ocupavam a praça, as ruas e a Acrópole lá no alto.

“Se incomodava” é tradução contida. O verbo grego, paroxynō, é forte; dele vem a nossa palavra “paroxismo”. A versão grega do Antigo Testamento o usa mais de uma vez para Israel provocando o SENHOR com ídolos. Paulo andou por Atenas e sentiu algo do que os profetas sentiram. Lucas não disfarça isso, e também não deixa virar desprezo. O versículo seguinte mostra o que Paulo fez com o incômodo.

Há uma ironia na cena. Um poema que Paulo vai citar dali a pouco começa assim: “Por Zeus comecemos”, e logo adiante diz que “cheias de Zeus estão todas as ruas e todas as praças dos homens”. Os atenienses concordariam. Paulo, olhando as mesmas ruas, via uma cidade entregue aos ídolos.

A sinagoga e a praça

Então ele disputava muito na sinagoga, com os judeus, e com os religiosos; e no mercado a cada dia, com os que vinham até ele. (Atos 17:17)

Os “religiosos” são os gentios que frequentavam a sinagoga e temiam o Deus de Israel sem se tornarem judeus. No sábado, Paulo ia aonde as Escrituras já eram lidas e argumentava a partir delas, como tinha feito em Tessalônica. Nos outros dias ia ao “mercado”, a ágora, a grande praça aberta ao pé da Acrópole onde os atenienses compravam, votavam, fofocavam e discutiam, e conversava com quem aparecesse.

Aquela praça tinha história com gente que conversa. Sócrates passou a vida ali fazendo perguntas, quatro séculos e meio antes. No lado norte ficava o Pórtico Pintado, a Stoa Poikile, onde Zenão de Cítio ensinava por volta de 300 a.C.; os discípulos herdaram o nome do lugar e ficaram conhecidos como estoicos, a gente da stoa. Epicuro ensinava no seu Jardim mais ou menos na mesma época. No tempo de Paulo, as duas escolas eram antigas, respeitáveis e continuavam brigando entre si.

Duas escolas ouvindo

E alguns dos filósofos epicureus e estoicos discutiam com ele. (Atos 17:18)

Ajuda saber, em linhas gerais, o que cada um ouviria.

Os epicureus não negavam os deuses. Diziam que eles vivem em perfeita tranquilidade, sem se perturbar com o mundo e sem se meter nele. Tudo é feito de átomos que se movem no vazio; a alma também, e na morte ela se desfaz. O medo do castigo divino e o medo da morte eram os dois grandes inimigos da paz humana, e a filosofia existia para acabar com ambos. Um Deus que julga o mundo e um homem ressuscitado soariam, para um epicureu, como a volta exatamente dos medos que a escola nasceu para curar.

Os estoicos acreditavam numa razão divina, o logos, que atravessa e ordena todas as coisas. Deus não estava distante; era, de certo modo, o fogo e o sopro racional que percorrem o cosmo. Valorizavam a virtude, o domínio de si e a vida em harmonia com a natureza. Muito do que Paulo diria sobre Deus dar vida e respiração, e estar perto, um estoico ouviria concordando. O que ele não aceitaria com facilidade era um Deus distinto do mundo, um dia de juízo na história e um corpo que volta à vida.

Nenhuma das duas escolas tinha lugar para a ressurreição. Isso vai pesar.

O tagarela

e uns diziam: O que quer dizer este tagarela? E outros: Parece que ele é pregador de deuses estranhos. Porque ele lhes anunciava o Evangelho de Jesus e a ressurreição. (Atos 17:18)

“Tagarela” traduz spermologos, literalmente “catador de sementes”. Era o nome do passarinho que fica pulando e bicando grãos pelo chão e, daí, de quem cata migalhas de saber aqui e ali e as repassa como se fossem suas. Era insulto de rua, e a ágora era o lugar dele. Quando Demóstenes quis rebaixar o rival Ésquines no discurso Sobre a Coroa, chamou-o de spermologos e, na mesma frase, de coisa gasta de tanto rodar pela praça. Os atenienses diziam a Paulo, no idioma deles, que ele era um intelectual de segunda mão.

O segundo comentário é mais sério. “Pregador de deuses estranhos” ecoa a acusação feita contra Sócrates naquela mesma cidade. A Apologia de Platão e os Memoráveis de Xenofonte registram que ele foi acusado de introduzir divindades novas. Os leitores gregos de Lucas perceberiam o eco, e alguns lembrariam como aquele julgamento terminou.

Por que “deuses”, no plural? Lucas explica de modo breve: Paulo anunciava “Jesus e a ressurreição”. João Crisóstomo sugeriu, nas homilias sobre Atos, que os atenienses tomaram Anastasis, a palavra grega para ressurreição, pelo nome de uma deusa ao lado de Jesus. Os gregos personificavam ideias como divindades, e a hipótese é plausível. É um palpite, e o texto não o afirma. Mas, se Crisóstomo estiver certo, o mal-entendido já aponta para o centro da questão. A palavra que eles não conseguiam encaixar era ressurreição.

Morro ou conselho

E tomando-o, trouxeram-no ao areópago, dizendo: Podemos nós saber que doutrina nova é esta que tu falas? (Atos 17:19)

O Areópago, a “Colina de Ares”, é um afloramento de rocha nua logo a noroeste da Acrópole. O nome passou também ao conselho que se reunia ali desde tempos antigos, de início um tribunal para crimes de sangue e, no período romano, o órgão de maior prestígio de Atenas, com autoridade que alcançava assuntos de religião e de educação.

Então, quando Lucas diz que Paulo foi levado “ao areópago”, ele subiu o morro ou compareceu diante do conselho? A expressão permite as duas coisas, e os estudiosos se dividem. Alguns detalhes pendem para o conselho. No versículo 22, a Bíblia Livre diz que Paulo falou “estando no meio do areópago”, tradução literal do grego e um jeito natural de falar de alguém de pé diante de uma assembleia. Um dos convertidos é chamado de “Dionísio o areopagita”, membro do conselho. E a pergunta feita a Paulo tem tom formal: “Podemos nós saber que doutrina nova é esta?” Há historiadores que acham que, nessa época, o conselho costumava se reunir lá embaixo, na ágora, talvez no Pórtico Real; nesse caso Paulo nem teria subido o morro. Outros entendem que se trata do local antigo. A resposta honesta é que não sabemos com certeza onde Paulo estava.

Bruce Winter defendeu que a cena inteira se parece com o procedimento pelo qual Atenas avaliava se um novo deus devia ser recebido na cidade: alguém apresenta a divindade, o conselho investiga e, se o caso for aceito, a cidade providencia lugar e festa. Nessa leitura, os atenienses não estavam apenas curiosos. Queriam saber se os deuses de Paulo se qualificavam. A resposta de Paulo vira o procedimento do avesso. O Deus que ele anuncia não precisa de templo, nem de altar, nem de coisa alguma das mãos deles.

Ao Deus desconhecido

E Paulo, estando no meio do areópago, disse: Homens atenienses, eu vejo em tudo como vós sois muito religiosos; Porque enquanto eu passava pela cidade e via vossos santuários, achei também um altar, em que estava escrito: AO DEUS DESCONHECIDO. Este a quem vós prestais devoção sem conhecer, este é o que eu vos anuncio. (Atos 17:22–23)

“Homens atenienses” é a abertura clássica de um discurso em Atenas. “Muito religiosos” traduz uma palavra que pode puxar para “devotos” ou para “supersticiosos”, e é quase certo que Paulo a escolheu pela ambiguidade. O conselho ouviria um elogio. O leitor de Lucas, que acabou de ler o versículo 16, pode ouvir outra coisa.

E o altar? Aqui vale dizer só o que é seguro. Nenhuma inscrição com as palavras “ao deus desconhecido”, no singular, foi encontrada. A literatura antiga fala de altares a deuses desconhecidos, no plural. Pausânias, escrevendo no século II, menciona “altares dos deuses chamados Desconhecidos” perto do antigo porto de Atenas, em Falero, e “um altar dos Deuses Desconhecidos” em Olímpia. Filóstrato, na Vida de Apolônio, fala de Atenas como lugar onde se erguem altares até a deuses desconhecidos. Diógenes Laércio conta que o vidente Epimênides deteve uma peste em Atenas soltando ovelhas a partir do Areópago e oferecendo sacrifício onde cada uma se deitasse, e diz que ainda se achavam pela Ática altares sem nome gravado.

A prática, portanto, está bem documentada: os atenienses se precaviam, honrando qualquer poder que pudessem ter esquecido. Se Paulo viu um altar dedicado no singular ou adaptou uma dedicatória no plural, as fontes não permitem dizer. O uso que ele faz é claro. Parte de algo que a cidade construiu com as próprias mãos e lê aquilo como uma confissão. Vocês admitem que existe um deus que não conhecem. Eu vim dizer quem ele é.

O que Paulo diz sobre Deus

Paulo começa pelo “Deus que fez o mundo, e todas as coisas que nele há”, que é “Senhor do céu e da terra” e, por isso mesmo, não mora em templos erguidos por mãos humanas (17:24). E continua:

E nem também é servido por mãos humanas; como que necessitasse de alguma coisa; porque ele é que dá a todos vida, respiração, e todas as coisas. (Atos 17:25)

Paulo falava com o Partenon à vista. A frase é tão bíblica quanto qualquer coisa que ele escreveu. Salomão, ao dedicar o templo, tinha perguntado: “Eis que os céus, e até o céu dos céus, não te podem conter; quanto menos esta casa que eu edifiquei!” (1 Reis 8:27). Estêvão tinha dito em Jerusalém que “o Altíssimo não habita em templos feitos por mãos” (Atos 7:48). E Isaías descreve o SENHOR como aquele “que dá respiração ao povo que nela habita, e espírito aos que nela andam” (Isaías 42:5). Paulo não cita capítulo nenhum, nem precisa. Fala o Antigo Testamento em palavras que um grego conseguia acompanhar. Um epicureu concordaria que Deus não precisa de nada nosso; um estoico, que Deus dá vida e respiração a todos.

Depois vem Gênesis: “E de um sangue ele fez toda nação humana, para habitarem sobre a face da terra” (17:26). A Bíblia Livre segue os manuscritos que dizem “de um sangue”; outros manuscritos antigos trazem apenas “de um”, e muitos entendem “de um só homem”, Adão. O sentido é o mesmo: todas as nações têm uma só origem, debaixo de um só Criador. E talvez isso cutucasse um dos maiores orgulhos de Atenas, o de que seu povo tinha brotado do próprio solo da Ática. E o propósito de tudo vem em seguida:

Para que buscassem ao Senhor, se talvez pudessem apalpá-lo e encontrá-lo, apesar dele não estar longe de cada um de nós. (Atos 17:27)

“Apalpá-lo” é uma tradução feliz. O verbo grego, psēlaphaō, é o de quem vai tateando, tocando, procurando com as mãos, como se anda no escuro. O retrato que Paulo faz da religião humana não é lisonjeiro nem cruel. As pessoas estão com as mãos estendidas, procurando Deus, e o triste é que ele está perto o bastante para ser tocado.

Dois versos dos poetas

Porque nele vivemos, e nos movemos, e somos; assim como também alguns de vossos poetas disseram; porque também nós somos descendência dele. (Atos 17:28)

O segundo verso tem origem segura. “Porque também nós somos descendência dele” vem da abertura dos Fenômenos, um poema sobre as estrelas escrito por Arato, que viveu no século III a.C. e era de Solos, na Cilícia, não muito longe de Tarso, a cidade de Paulo. Arato falava de Zeus. O grego de Atos reproduz o meio verso dele quase exatamente, mudando só a forma do verbo. Paulo diz “alguns de vossos poetas”, no plural, e uma ideia parecida aparece no Hino a Zeus do estoico Cleantes, embora esse verso seja mais difícil de estabelecer.

O primeiro verso é menos seguro do que muitas Bíblias de estudo dão a entender. A atribuição de “nele vivemos, e nos movemos, e somos” a um poema de Epimênides de Creta depende sobretudo de um comentário siríaco do século IX, de Isodade de Merv, muitos séculos depois de Paulo. Alguns estudiosos aceitam; muitos duvidam. Pode ser um dito que Paulo tomou de uma fonte que já não conseguimos rastrear, ou uma frase dele mesmo, em linguagem filosófica. A Bíblia Livre, sem aspas, deixa a questão em aberto, e nisso fica perto do grego, que também não tem aspas.

Mais importante é o que Paulo faz com as palavras emprestadas. Ele não adota a teologia de Arato. Pega um verso escrito sobre Zeus e pergunta o que decorre dele se for verdade a respeito do Deus vivo:

Sendo então descendência de Deus, nós não devemos pensar que a divindade seja semelhante a ouro, ou a prata, ou a pedra esculpida por artifício e imaginação humana. (Atos 17:29)

O argumento é quase bem-humorado. Se somos descendência de Deus, Deus não pode ser menor do que nós. Uma estátua não pode ser mãe de quem a esculpiu. O poeta dos próprios atenienses vira testemunha contra os ídolos dos próprios atenienses.

O dia e o homem

Então o tom muda, e muda depressa, porque era para lá que Paulo ia desde o começo. Deus, diz ele, até aqui tinha desconsiderado “os tempos da vossa ignorância”, mas agora anuncia a todos, “em todo lugar, para que se arrependam” (17:30). E dá o motivo:

Porque ele tem estabelecido um dia em que ele julgará ao mundo em justiça por meio do homem a quem determinou; dando certeza a todos, tendo o ressuscitado dos mortos. (Atos 17:31)

O Deus “desconhecido” se deu a conhecer, e conhecer traz responsabilidade. O tempo de fazer vista grossa acabou. A história vai para algum lugar: para um dia, um julgamento e um homem.

Repare que Paulo não diz o nome de Jesus em nenhum momento do discurso. Lucas já contou que Jesus era o que Paulo pregava na praça, então a ausência não é timidez. Talvez ele fosse dizer. Talvez tenha sido interrompido. O discurso, como o temos, termina num homem designado por Deus e numa prova: Deus o ressuscitou dos mortos.

Onde pararam de ouvir

E ao ouvirem da ressurreição dos mortos, alguns zombavam; e outros diziam: Nós ouviremos sobre isto de ti na próxima vez. (Atos 17:32)

Cinco séculos antes de Paulo, Ésquilo levou ao palco a fundação daquele mesmo conselho. Nas Eumênides, a deusa Atena institui o tribunal do Areópago para julgar Orestes por homicídio. Durante o julgamento, Apolo diz que correntes se desatam, mas que, quando o pó bebe o sangue de um homem, depois que ele morre, não há ressurreição. A palavra grega no fim do verso é anastasis, exatamente a que Paulo usou. O mito de fundação do conselho diante do qual Paulo estava continha uma negação seca daquilo que ele anunciava.

Esse é o ponto pelo qual quase todo leitor passa depressa demais. Os ouvintes não se ofenderam com um Deus criador, nem com um Deus que não precisa de nada, nem mesmo com o chamado para largar os ídolos. Filósofos já tinham dito versões dessas coisas. Muitos gregos conseguiam imaginar uma alma que sobrevive à morte. O que eles não aceitavam era um corpo morto trazido de volta à vida pelo Deus que vai julgar o mundo. Paulo podia ter parado uma frase antes e mantido o público. Não parou.

Uns zombaram. Outros disseram que o ouviriam “na próxima vez”, o que pode ter sido interesse sincero ou só um jeito educado de encerrar a sessão. Lucas não diz qual. “E assim Paulo saiu do meio deles.”

Dionísio, Dâmaris e outros

Porém, tendo chegado alguns homens até ele, creram; entre os quais estava também Dionísio o areopagita, e uma mulher de nome Dâmaris, e outros com eles. (Atos 17:34)

O resultado foi pequeno, e Lucas o registra sem constrangimento. Dionísio era membro do conselho, homem de posição. No século II, outro Dionísio, bispo de Corinto, escreveu que o areopagita tinha sido o primeiro bispo da igreja de Atenas; Eusébio preserva a informação na sua História Eclesiástica. Não há como confirmar. E é preciso cuidado com o que veio depois: por volta do ano 500 surgiu uma série de escritos teológicos e místicos com o nome de “Dionísio, o Areopagita”, e durante mil anos muita gente os tomou por autênticos. Não eram.

De Dâmaris só sabemos o nome. Lucas não diz quem ela era nem como foi parar ali, e toda teoria sobre ela é palpite. Um detalhe pequeno diz muito. Um manuscrito grego antigo e influente de Atos, o Códice de Beza, deixa o nome dela fora do versículo. Lucas não deixou. Numa cena cheia de “homens atenienses”, ele fez questão de registrar o nome de uma mulher que creu.

O que quase todo leitor deixa passar

Paulo se incomodou e continuou cortês. O versículo 16 é forte. A paciência dos versículos 22 a 29 também. Lucas põe as duas coisas lado a lado, e uma não anula a outra.

O discurso não foi um fracasso do qual Paulo se arrependeu. É comum ler 1 Coríntios 2:2, “Porque não quis saber coisa alguma entre vós, a não ser Jesus Cristo, e ele crucificado”, como se fosse o arrependimento de Paulo por ter tentado filosofar em Atenas. Paulo nunca diz isso, e Lucas não dá nenhum sinal disso. O discurso de Atenas termina na ressurreição, e a mensagem levada a Corinto é a mesma, contada a outra cidade. O próprio Paulo dá nome ao problema: “os gregos buscam sabedoria. Mas nós pregamos a Cristo crucificado” (1 Coríntios 1:22–23). Atenas ouviu o Evangelho, e a maior parte de Atenas não o quis.

O discurso é quase todo Antigo Testamento. A criação, o Deus que dispensa templos, uma só humanidade vinda de uma só origem, a tolice das imagens, o dia do juízo. Paulo cita poetas gregos duas vezes, e nas duas a serviço de um argumento que aprendeu com Moisés e os profetas.

A Bíblia Livre guarda a cena sem decidir por nós. “No meio do areópago”, “saiu do meio deles”: ela traduz ao pé da letra e deixa em aberto a questão do morro e do conselho, como o próprio grego deixa.

Falando na nossa Atenas

Quase ninguém vai falar diante de um conselho. Mas vivemos em cidades com seus próprios ídolos, muitos menos óbvios que o mármore: o dinheiro, a imagem, o controle, a suposição silenciosa de que não existe nada além do que se pode medir. É fácil se incomodar com isso, e mais difícil deixar que o incômodo nos mande para a praça.

Paulo se deu ao trabalho de andar e olhar. Conhecia os poetas de quem o ouvia. Achou na cidade deles algo verdadeiro sobre o qual construir, e disse isso de boa vontade. Nada disso o deixou vago. Quando chegou à parte do Evangelho que sabia que eles achariam absurda, disse assim mesmo, e deixou a conversa acabar ali.

Depois saiu, com um membro do conselho, uma mulher cuja história não conhecemos e mais alguns. Por certas contas, é pouco. Foi o bastante para Lucas escrever os nomes deles.

Para refletir

  • Paulo se incomodou com o que viu em Atenas, e a primeira coisa que fez foi ir conversar com as pessoas. No que costuma virar o meu incômodo com a cultura ao meu redor?
  • Ele conhecia os poetas dos atenienses a ponto de citá-los de cor. Que palavras, canções e perguntas eu precisaria aprender antes de falar com honestidade aos meus vizinhos?
  • Os ouvintes aguentaram até a ressurreição. Existe alguma parte da fé que eu deixo de fora, sem dizer, porque já sei onde as pessoas vão parar de ouvir?
  • Deus "não está longe de cada um de nós". Quem, perto de mim, está tateando atrás dele sem ter nome para o que procura?
  • Lucas cita dois convertidos e diz "outros com eles". O que mudaria se eu medisse a fidelidade por Dionísio e Dâmaris, e não pela multidão que foi embora?

Oração

Senhor do céu e da terra, tu não habitas no que nossas mãos fizeram, e não estás longe de nenhum de nós.

Quando os ídolos da minha cidade me incomodarem, guarda-me do desprezo e manda-me para a praça com paciência e com o teu Evangelho inteiro.

Dá-me coragem para falar do homem que tu ressuscitaste, mesmo quando essa é a palavra que faz os outros rirem.

Amém.

Paulo conseguiu encontrar Atenas em quase tudo, e encontrou. A única palavra que ele não amaciou foi a ressurreição, e foi dela que Atenas riu.

Fontes e notas

Consultado durante a escrita deste texto. Nada é listado aqui sem ter sido usado.

As Escrituras em português são da Bíblia Livre (BLIVRE), Copyright © Diego Santos, Mario Sérgio e Marco Teles, fevereiro de 2018. Licença Creative Commons Atribuição 4.0.