Estudo Bíblico
A Misericórdia que Jonas Não Perdoou
Jonas finalmente conta por que fugiu, e o motivo é uma frase de louvor. Um estudo de Jonas 4, da Assíria que ele tinha toda razão de temer e de um livro que termina entregando ao leitor a pergunta de Deus.
Texto bíblico Jonas 4:1–11 · Jonas 3:1–10 · Êxodo 34:6–7 · Êxodo 32:12–14 · Joel 2:13–14 · Naum 1:3 · Naum 3:19 · Mateus 12:38–41 · Lucas 11:29–32
Jonas só explica por que fugiu quando a história já está quase no fim.
No capítulo 1, os marinheiros o cercam de perguntas, e ele admite que está fugindo do Deus que fez o mar e a terra. O motivo, ele guarda. O motivo só aparece no capítulo 4, depois que Deus poupou Nínive. E é um credo.
Mas Jonas se desgostou muito, e se encheu de ira. E orou ao SENHOR, e disse: Ah, SENHOR, não foi isto o que eu dizia enquanto ainda estava em minha terra? Por isso me preveni fugindo a Társis; porque sabia eu que tu és Deus gracioso e misericordioso, que demoras a te irar, tens grande misericórdia, e te arrependes do mal. Agora pois, ó SENHOR, peço-te que me mates, porque é melhor para mim morrer do que viver.
Jonas não está confuso a respeito de Deus. Está furioso justamente porque acertou.
Uma palavra que muda de endereço
O versículo 1, no hebraico, diz algo como foi mal para Jonas, um grande mal, e ardeu nele. O substantivo é ra’ah, e ele atravessa o livro inteiro.
Quem lê a Bíblia Livre consegue enxergar boa parte desse fio, porque ela conserva a palavra “mal” em vários pontos onde outras traduções variam. É a “maldade” de Nínive que sobe diante de Deus em 1:2. É “este mal” que os marinheiros querem entender em 1:7 e 1:8. É o “mau caminho” do qual o rei manda todos se converterem em 3:8. Em 3:10 aparece duas vezes: os ninivitas se convertem do seu mau caminho, e “Deus se arrependeu do mal que tinha dito que lhes faria”. Jonas repete em 4:2: “te arrependes do mal”. E em 4:6 Deus faz crescer uma planta para aliviar Jonas do seu “mal-estar”, que no hebraico é, de novo, ra’ah. Só em 4:1 o “desgostou” da BLIVRE esconde a palavra.
O desenho é este. A maldade de Nínive sobe até Deus. A cidade se afasta dela. Deus se arrepende do mal que tinha anunciado. E exatamente nesse momento o mal cai sobre Jonas.
Ele não saiu da história. Mudou de endereço: saiu da capital assíria e foi morar no peito do profeta hebreu.
Um credo sem o final
A descrição que Jonas faz de Deus é uma citação, e qualquer israelita reconheceria a origem. Depois do bezerro de ouro, o SENHOR passa diante de Moisés e proclama o próprio nome:
SENHOR, SENHOR, forte, misericordioso, e piedoso; tardio para a ira, e grande em benignidade e verdade; Que guarda a misericórdia em milhares, que perdoa a iniquidade, a rebelião, e o pecado, e que de nenhum modo justificará ao malvado… (Êxodo 34:6–7)
A BLIVRE usa palavras diferentes aqui e em Jonas (“piedoso” lá, “gracioso” cá), mas no hebraico a confissão é a mesma. Jonas guarda o coração do texto. Tira o “e verdade”. Tira toda a segunda metade, inclusive a frase de que Deus de modo nenhum inocentará o culpado. E, no lugar disso, acrescenta algo que Êxodo 34 não diz: Deus “se arrepende do mal”.
Jonas não inventou essa fórmula. Joel 2:13 tem exatamente as mesmas palavras em hebraico, num chamado para Israel rasgar o coração e voltar para o SENHOR. A BLIVRE traduz a expressão de Joel de outro jeito, “que se arrepende de castigar”, o que dificulta perceber a coincidência em português. Nathan Lane, num estudo dos textos que retomam Êxodo 34:6–7, observa que Joel 2:13 e Jonas 4:2 são os únicos que usam essa expressão, e que são paralelos exatos. Se um livro dependeu do outro, ou os dois de uma fórmula do culto de Israel, não se sabe; a datação de ambos é discutida.
O contraste, porém, está à vista. Em Joel, as palavras são um convite a Israel. Em Jonas, são uma acusação, porque Deus as aplicou à Assíria.
E o livro vai além, num ponto que quase todo leitor deixa passar. Quando o rei de Nínive diz “quem sabe Deus mude de ideia e se arrependa, e se afaste do ardor de sua ira” (3:9), ele ecoa a oração de Moisés no Sinai: “Volta-te do furor de tua ira, e arrepende-te do mal de teu povo” (Êxodo 32:12). E a frase do narrador em 3:10 é quase idêntica a Êxodo 32:14. Leia as duas na própria BLIVRE:
Então o SENHOR se arrependeu do mal que disse que havia de fazer a seu povo. (Êxodo 32:14)
Então Deus se arrependeu do mal que tinha dito que lhes faria, e não o fez. (Jonas 3:10)
No hebraico, as duas frases diferem pouco além do nome divino e de “seu povo” trocado por “lhes”. A misericórdia que salvou Israel depois do bezerro de ouro é a mesma que salva Nínive, e o narrador conta os dois livramentos com a mesma frase.
A metade de Naum
Existe um segundo profeta, entre os Doze, que cita Êxodo 34 a respeito de Nínive. E ele cita a outra metade.
O SENHOR é tardio para se irar, porém grande em poder; e não terá ao culpado por inocente. (Naum 1:3)
Naum mantém “tardio para se irar”. Onde Êxodo fala em grande benignidade, ele fala em grande poder. E conserva justamente a cláusula que Jonas cortou; a BLIVRE a traduz aqui com outras palavras, mas no hebraico é a mesma expressão de Êxodo 34:7. Lane descreve esse uso como o único em que a fórmula se volta inteira para a ira, e contra outra nação.
Dois profetas, uma cidade, uma confissão. Jonas fica com a misericórdia e reclama dela. Naum fica com o juízo e o anuncia. A Escritura guarda os dois.
Jonas tinha seus motivos
É fácil ler Jonas como um nacionalista emburrado porque estrangeiros foram perdoados. Essa leitura é confortável demais. Nínive era cidade real da Assíria desde o século XIII a.C. Assurnasirpal II, que reinou de 883 a 859 a.C., e seus sucessores a renovaram com palácios e templos, e em 704 a.C. Senaqueribe fez dela a capital do império, com cerca de doze quilômetros de muralhas em volta da cidade principal. É o resumo que faz o projeto da Biblioteca de Assurbanipal, do Museu Britânico.
Os reis assírios faziam questão de contar o que faziam com quem resistia. Os anais de Assurnasirpal II, editados on-line a partir da tradução de A. K. Grayson, falam de cortar mãos, narizes e orelhas de prisioneiros, arrancar olhos, erguer pilhas de cabeças, empalar soldados em estacas ao redor das cidades e queimar meninos e meninas adolescentes. Depois de uma revolta, o rei registra que levou um chefe rebelde chamado Aḫi-iababa a Nínive, esfolou-o e estendeu a pele dele sobre a muralha de Nínive.
Inscrição real é propaganda: registra o que o rei queria que fosse lembrado e temido. E o ponto é esse. O terror era a mensagem.
Cerca de um século e meio depois, Senaqueribe mandou decorar uma sala do seu novo palácio em Nínive com o cerco de Laquis, cidade de Judá que ele tomou em 701 a.C. Os painéis estão hoje no Museu Britânico, e as fichas do próprio museu descrevem o que mostram: famílias judaítas seguindo para o exílio com seus pertences e animais; oficiais tidos como responsáveis pela rebelião sendo esfolados vivos; o rei no trono, assistindo à chegada e à execução de prisioneiros. Quem entrava naquela sala via a destruição de uma cidade de Judá como decoração de parede.
A cronologia pede cuidado. Segundo 2 Reis 14:25, Jonas filho de Amitai profetizou sob Jeroboão II, no século VIII, antes da Nínive de Senaqueribe e de Laquis. O livro não nomeia rei assírio nem dá data, e os estudiosos discordam sobre quando foi escrito. Mas nenhum leitor israelita, em qualquer século que se proponha, ouvia o nome Nínive com neutralidade. A Assíria tomou Samaria e levou Israel para o exílio (2 Reis 17:6). O profeta cuja palavra tinha alargado as fronteiras de Israel estava sendo enviado para oferecer misericórdia ao império que apagaria o seu reino. Naum a chama de “cidade sanguinária” (Naum 3:1).
A ira de Jonas tem a ver com justiça. O livro não zomba disso. Faz uma pergunta a ele.
Três dias, quarenta dias e cinco palavras
Jonas 3:3 diz que Nínive era “cidade extremamente grande, de três dias de caminho”; literalmente, uma cidade grande para Deus, uma caminhada de três dias. Como medida de largura, isso não bate com nada do que se conhece. Charles Halton, num levantamento das evidências, lembra que as muralhas tinham uns doze quilômetros de perímetro, número compatível com a circunferência de 21.815 côvados grandes que o próprio Senaqueribe registra.
Halton apresenta as soluções propostas. Donald Wiseman sugeriu que os três dias seriam o tempo de uma visita formal (um dia para chegar, um para tratar dos assuntos, um para partir), ou então que “Nínive” indicaria todo o distrito administrativo. Lutero entendeu como o tempo necessário para percorrer todas as ruas. Halton argumenta que cada hipótese exige pressupostos que o texto não dá, e lê a expressão como figura de linguagem para uma cidade enorme, como quando Aristóteles diz que parte da Babilônia só soube da tomada da cidade três dias depois. É a leitura menos forçada, e nenhuma das opções muda o que a passagem faz.
Então Jonas entra um dia de caminho na cidade e diz cinco palavras hebraicas: ‘od arba’im yom veNinveh nehpakhet. A BLIVRE traduz: “Daqui a quarenta dias Nínive será destruída.” O verbo é hafakh, literalmente “virar, revirar”. É o verbo de Gênesis 19:25, onde Deus “destruiu” Sodoma. E é também o verbo de 1 Samuel 10:9, onde, depois de Saul se despedir de Samuel, “mudou-lhe Deus seu coração”. Quarenta dias depois, Nínive tinha de fato sido revirada, no segundo sentido. O texto não comenta. Nem precisa.
Uma barraca, uma planta, uma lagarta, um vento
Jonas sai da cidade, senta-se a oriente dela, faz uma barraca e fica ali “até ver o que seria da cidade”. O leitor já sabe o que aconteceu. Jonas ainda espera.
Então Deus começa a “preparar” coisas. A BLIVRE repete o verbo onde o hebraico repete manah: o SENHOR “havia preparado um grande peixe” (1:17), e agora prepara uma planta, uma lagarta e um vento. O peixe salvou Jonas. Esses três vão ensiná-lo.
A planta. A palavra hebraica é qiqayon, que não aparece em nenhum outro lugar da Bíblia. A identificação mais antiga é a mamona, Ricinus communis. A Mishná proíbe acender a lâmpada do sábado com “óleo de kik”, e no Talmude (Shabat 21a) Resh Lakish liga esse óleo ao “qiqayon de Jonas”; outro sábio diz ter visto a planta na porta das lojas, dando sombra, e que das sementes se fazia óleo. Heródoto descreve os egípcios extraindo da mamona um óleo para lamparinas que chamavam de kiki. Os horticultores Jules Janick e Harry Paris concluem que qiqayon é a mamona.
A tradução seguiu outro rumo. A Septuaginta grega pôs kolokynthē, a coloquíntida, uma rasteira amarga que mal faz sombra; o latim acompanhou com cucurbita, “abóbora”, tradição que chegou até a King James inglesa, com “gourd”. Jerônimo, traduzindo do hebraico, escolheu hedera, “hera”.
Essa palavra deu confusão de verdade. Em 403, Agostinho contou a Jerônimo que um bispo de Oea, no litoral do norte da África, adotou a nova tradução, e quando a leitura chegou a uma palavra de Jonas diferente da que o povo conhecia, a congregação se revoltou, os de língua grega mais que todos. Os judeus da cidade, consultados, disseram que a versão antiga estava certa, e o bispo corrigiu Jerônimo para não ficar sem rebanho.
Agostinho nem disse qual era a palavra. Jerônimo adivinhou. Respondeu que o hebraico traz ciceion, um arbusto de folhas largas como as da videira, que cresce depressa até o tamanho de uma pequena árvore e se sustenta no próprio tronco. “Abóbora” simplesmente não estava no hebraico, e ele tinha posto “hera” para concordar com Áquila e os outros tradutores. Quanto aos judeus consultados, ou não sabiam hebraico, disse ele, ou quiseram se divertir às custas dos defensores da abóbora.
A BLIVRE diz apenas “planta”, e com razão: não dá para ter certeza da espécie. O texto diz o suficiente. Ela cresceu sobre Jonas para fazer sombra sobre sua cabeça e aliviá-lo do seu mal-estar, “e Jonas se alegrou grandemente por causa da planta”. É a primeira vez em quatro capítulos que Jonas se alegra com alguma coisa. O hebraico brinca com o som: a planta dá tsel, sombra, lehatsil, para livrá-lo.
A lagarta. “Mas Deus preparou uma lagarta no dia seguinte ao amanhecer, a qual feriu a planta, e ela se secou.” O amanhecer, que devia trazer alívio, traz a perda. A palavra hebraica, tola’at, é o termo comum para verme ou larva, e a BLIVRE escolheu “lagarta”.
O vento. “Ao levantar do sol, Deus preparou um quente vento oriental.” O adjetivo hebraico, harishit, só aparece aqui, e ninguém sabe ao certo o que significa. O Targum usa uma palavra ligada a silêncio. No Talmude (Guitin 31b), Rav Yehudá pensa num vento que ara sulcos no mar; Rabá responde que o versículo fala de calor: seria um vento que cala todos os outros e por isso esquenta. Ibn Ezra registra quem o achasse ensurdecedor. “Quente” segue o contexto, que é claro.
Para quem vivia em Israel, o vento oriental era o vento do deserto. É o que abate as espigas no sonho do faraó (Gênesis 41:6) e, em Oseias 13:15, vem “subindo do deserto” até secar a fonte. O Serviço Meteorológico de Israel chama hoje esses episódios de sharav, definidos por calor bem acima da média da estação com umidade muito baixa. A palavra é bíblica. Em Isaías 49:10 ela está por trás do “calor” que não afligirá o povo que volta, “porque aquele que se compadece deles os guiará”. Jonas recebe o calor e o sol, e ainda não entendeu a compaixão.
Tem mais um eco, e aqui a BLIVRE o preserva muito bem. A lagarta “feriu” a planta no versículo 7, e o sol “feriu” Jonas na cabeça no versículo 8. No hebraico é o mesmo verbo nas duas frases. Primeiro foi ferida a planta, depois o homem que ela protegia.
Jonas desmaia, e o narrador diz literalmente que ele pediu à sua alma para morrer. A mesma expressão hebraica é usada para Elias, sentado debaixo de um junípero no deserto (1 Reis 19:4), onde a BLIVRE diz “desejando morrer”. Elias queria morrer porque achava que o mal tinha vencido. Jonas quer morrer porque a misericórdia venceu.
O argumento da planta
Deus faz a Jonas a mesma pergunta duas vezes: “É correta essa tua ira?” Na primeira (4:4), Jonas não responde. Sai da cidade. Na segunda, Deus restringe a pergunta à planta, e Jonas responde na hora: “É correto eu me irar até a morte.”
Então Deus diz as últimas palavras do livro:
E o SENHOR disse: Tu tiveste pena da planta, na qual não trabalhaste, nem tu a fizeste crescer, que em uma noite nasceu, e em outra noite pereceu; e não teria eu pena de Nínive, aquela grande cidade onde há mais de cem e vinte mil pessoas que não sabem a diferença entre sua mão direita e a esquerda, e muitos animais?
A BLIVRE acerta ao repetir “pena” nos dois versículos, porque o hebraico usa um só verbo, hus: ter dó, comover-se a ponto de poupar. Deus reconhece que Jonas sentiu isso. Só mostra onde ele gastou o sentimento: com algo que não plantou, não cultivou e teve por um dia. “Em uma noite nasceu” é, no hebraico, filho de uma noite.
O argumento vai do menor para o maior, e repare no que Deus não diz. Não diz que Nínive era inocente, nem que os crimes da Assíria foram exagerados. Argumenta a partir da relação dele com a cidade, como quem de fato trabalhou nela e a fez crescer.
Quem são os que não sabem distinguir a mão direita da esquerda? Rashi, o comentarista judeu medieval, diz que são as crianças; outros veem ali a confusão moral da cidade inteira. O texto não resolve. De todo modo, Deus aponta para o que os ninivitas não sabem, e não para algum mérito deles.
E os animais. Eles já tinham aparecido no capítulo 3, quando o rei ordenou que “nem pessoas nem animais, nem bois nem ovelhas” provassem coisa alguma, e que pessoas e animais se cobrissem de saco. O leitor sorri diante do boi de pano de saco. Deus conta os bois. O credo que Jonas citou volta no Salmo 145:8, e o versículo seguinte diz: “O SENHOR é bom para com todos; e suas misericórdias estão sobre todas as obras que ele fez.”
O livro que para
E o livro acaba. Jonas não responde, e a gente nunca fica sabendo se ele mudou de ideia.
Dos doze profetas menores, só dois terminam com uma pergunta, e as duas perguntas são sobre Nínive. Jonas termina com Deus perguntando se não teria pena da grande cidade. Naum termina assim: “pois sobre quem tua maldade não passou continuamente?” A palavra hebraica ali é ra’ah, e a BLIVRE deixa isso visível. A última palavra de Naum sobre Nínive é a maldade dela. A última palavra de Jonas é a pena de Deus.
A pergunta de Naum não ficou no abstrato. Nínive foi arrasada em 612 a.C., no colapso da Assíria, e na Porta de Halzi os arqueólogos encontraram corpos de gente que morreu tentando fugir. O cânon não elimina nenhum dos dois profetas. Deixa as duas perguntas de pé.
Um livro que para numa pergunta obriga o leitor a responder. Os judeus leem Jonas na tarde do Dia da Expiação, costume que o Talmude já registra (Meguilá 31a). No dia dedicado a pedir que Deus se arrependa do mal, a sinagoga lê a história de um profeta que não suportou que ele se arrependesse.
O sinal de Jonas
Pedem um sinal a Jesus, e ele diz que não será dado nenhum, “exceto o sinal do profeta Jonas” (Mateus 12:39). Mateus e Lucas o desenvolvem de modos diferentes. Em Mateus, os três dias e três noites de Jonas “no ventre da baleia” (é assim que a BLIVRE traduz o termo grego, que designa um grande animal marinho) apontam para o Filho do homem “no coração da terra”. Em Lucas, “como Jonas foi sinal para os ninivitas, assim também será o Filho do homem para esta geração” (Lucas 11:30). O próprio profeta, chegando com uma mensagem, é o sinal.
Os dois Evangelhos dizem então a mesma coisa espantosa: “Os de Nínive se levantarão no Juízo com esta geração, e a condenarão; porque se arrependeram com a pregação de Jonas. E eis aqui quem é maior que Jonas” (Mateus 12:41).
E aquela pregação foram cinco palavras, de um homem que torcia para não funcionarem. Quem se arrependeu com tão pouco vira a medida para os ouvintes de Jesus.
Uma ligação a mais não está no texto, então fica como reflexão, e não como afirmação. Jonas saiu de uma cidade, sentou-se para olhá-la e esperou vê-la destruída. Lucas conta que Jesus, chegando a Jerusalém, “viu a cidade, e chorou por causa dela” (Lucas 19:41).
Sentado na barraca de Jonas
O livro nunca diz a Jonas que ele estava errado sobre Deus. O credo dele está certo, tirado direto do Sinai. De dentro do peixe ele tinha dito “A salvação vem do SENHOR” (2:9), e falava sério. O que ele não aceitava era Deus ser o mesmo Deus para gente que tinha feito o que a Assíria fez.
Quase ninguém tem uma Assíria. Temos algo menor: alguém que nos fez mal e nunca pagou, um arrependimento em que não confiamos, uma pessoa cujo perdão nos decepcionaria em silêncio. O livro leva essa ira a sério a ponto de lhe dar um capítulo inteiro, e nunca responde fingindo que o mal não aconteceu.
Responde com uma planta, uma lagarta, uma manhã de calor e uma pergunta que Deus faz e não responde por nós.
E não teria ele pena daquela grande cidade?
Para refletir
- O que Jonas diz sobre Deus está certo. O que ele não suportava era a quem aquilo se aplicava. Existe alguém que eu, sem dizer, deixo de fora de Êxodo 34:6?
- A crueldade de Nínive era real, e o livro nunca a nega. Como seguro juntas a fome de justiça e a fé num Deus que se arrepende do mal?
- Jonas teve pena de uma planta que não plantou. Que confortos pequenos recebem de mim mais cuidado do que pessoas?
- Deus fala de gente que não sabe a diferença entre a mão direita e a esquerda, e de animais. O que muda quando olho uma cidade do jeito que Deus conta?
- O livro acaba antes de Jonas responder. Se a pergunta fosse feita a mim, o que eu diria, e seria sincero?
Oração
Senhor, tu és gracioso e misericordioso, demoras a te irar e tens grande misericórdia. Eu me alegro disso quando me alcança.
Onde eu quis essa misericórdia guardada só para o meu lado, mostra-me a cidade como tu a vês.
Não me deixes sentado à sombra esperando a ruína de ninguém.
Amém.
Jonas não entendeu Deus errado. Entendeu exatamente, e não conseguiu perdoar que Deus fosse o mesmo Deus para Nínive.
Fontes e notas
Consultado durante a escrita deste texto. Nada é listado aqui sem ter sido usado.
- Bíblia Livre (BLIVRE), 2018 texto primário
- Texto hebraico de Jonas (Miqra segundo a Massorá), com Êxodo 32 e 34, Joel 2, Naum 1 e 3, 1 Reis 19 e Isaías 49, via Sefaria texto primário
- Assurnasirpal II 001 (os Anais, RIMA 2 A.0.101.1), edição e tradução inglesa a partir de A. K. Grayson, Royal Inscriptions of Assyria online (RIAo), Oracc texto primário
- Museu Britânico, painel do Palácio Sudoeste de Nínive, sala XXXVI: prisioneiros de Laquis e oficiais esfolados (BM 124909) ficha de acervo
- Museu Britânico, painel do Palácio Sudoeste de Nínive, sala XXXVI: Senaqueribe no trono diante de Laquis (BM 124911) ficha de acervo
- Museu Britânico, painel do Palácio Sudoeste de Nínive: prisioneiros judeus a caminho do exílio (BM 124907) ficha de acervo
- Jonathan Taylor, Areas of Nineveh, Ashurbanipal Library Project, The British Museum (2022) estudo histórico
- Charles Halton, How Big Was Nineveh? Literal versus Figurative Interpretation of City Size, Bulletin for Biblical Research 18.2 (2008) 193-207 estudo histórico
- Nathan C. Lane II, Exodus 34:6-7: A Canonical Analysis (tese de doutorado, Baylor University, 2007) comentário
- Jules Janick e Harry S. Paris, Jonah and the Gourd at Nineveh: Consequences of a Classic Mistranslation, Cucurbitaceae 2006, 349-357 estudo histórico
- Agostinho, Carta 71 a Jerônimo (403 d.C.), em Nicene and Post-Nicene Fathers, primeira série, vol. 1 texto primário
- Jerônimo a Agostinho, Carta 75 da coleção agostiniana (Jerônimo, Carta 112), em Nicene and Post-Nicene Fathers, primeira série, vol. 1 texto primário
- Mishná Shabat 2:1 e Talmude Babilônico, Shabat 21a, sobre o óleo de kik e o qiqayon de Jonas (edição William Davidson) texto primário
- Talmude Babilônico, Guitin 31b, sobre o sentido de harishit em Jonas 4:8 (edição William Davidson) texto primário
- Rashi sobre Jonas 4:8 e 4:11; Ibn Ezra sobre Jonas 4:8 comentário
- Talmude Babilônico, Meguilá 31a, sobre a leitura de Jonas no Dia da Expiação texto primário
- Heródoto, Histórias 2.94, trad. inglesa de A. D. Godley (Harvard University Press, 1920) texto primário
- Amos Porat, Between Khamsin and Sharav, Serviço Meteorológico de Israel (2021) estudo histórico
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