Esboço de Sermão
O Homem Que Não Tinha com Quem Falar
Um lavrador tem um ano bom e planeja o resto da vida numa conversa consigo mesmo. Em três versículos ele diz "eu" oito vezes e não encontra mais ninguém para consultar.
Texto bíblico Lucas 12:13–21 · Lucas 12:15 · Lucas 12:20–21 · Eclesiástico 11:18–19
Resumo para a pregação
- Verdade central
- A ruína daquele homem não está em ter colhido bem nem em ter construído armazéns. Está em ter organizado um futuro inteiro numa conversa fechada, sem próximo e sem Deus dentro dela, e então morrer devendo a vida a alguém a quem nunca se dirigiu.
- Ideia central
- Uma vida pode ser bem planejada e ainda assim ser a vida de um insensato, se o planejamento acontece numa sala com uma pessoa só.
- Objetivo
- Confrontar a congregação com uma forma de ganância que se parece exatamente com prudência, e abrir a pergunta sobre para que serve uma vida depois de estar garantida.
A interrupção
A parábola não começa como parábola. Começa como interrupção.
Jesus está falando à multidão sobre confessá-lo diante dos outros, e um homem grita do meio dela: “Mestre, dize a meu irmão que reparta comigo a herança.” Seja lá o que esse homem ouviu, ele ouviu alguém com autoridade suficiente para encerrar uma briga de família.
Jesus recusa. “Homem, quem me constituiu juiz ou repartidor entre vós?” As palavras ecoam Êxodo 2:14, onde o hebreu rejeita Moisés com quase a mesma frase. Vale notar esse eco antes de decidir de que lado a parábola está.
Cuidado com o pano de fundo aqui. É comum ouvir que um mestre seria a pessoa natural para resolver um caso assim, mas a evidência disso é sobretudo rabínica tardia lida para trás, e os documentos de Babata mostram disputas judaicas de propriedade indo a tribunais romanos. O texto sozinho já dá tudo de que você precisa: um homem queria uma sentença, e Jesus lhe deu um aviso.
A lei em jogo não é Números 27, que trata da herança quando um homem não deixa filho. É a situação comum de irmãos que mantêm um patrimônio em conjunto, que está por trás de Deuteronômio 21:17 e Deuteronômio 25:5.
A palavra que Jesus põe sobre a parábola
O versículo 15 dá o título: “Guardai-vos de toda pleonexia.”
A palavra significa, ao pé da letra, o querer-ter-mais. É mais ampla do que amor ao dinheiro; Paulo a usa em Efésios para apetites que nada têm a ver com prata. Lucas escreve “toda” espécie dela, o que amplia ainda mais.
A filosofia moral grega já havia pensado nisso. Na Ética a Nicômaco, Aristóteles define o injusto como o pleonektes, aquele que toma mais do que a sua parte. Existe, portanto, base antiga real para ouvir algo de soma zero nessa palavra, e nada disso exige importar um modelo cultural moderno.
Observações exegéticas
12:16. “A terra de um homem rico produziu com abundância.” Repare no que Lucas não diz. Não há fraude, campo tomado, trabalhador não pago. A terra produziu. Qualquer sermão que faça desse homem um trapaceiro está acrescentando um personagem à história.
12:17–19. É aqui que a parábola faz o seu trabalho, e o faz com gramática.
Nesses três versículos há oito verbos na primeira pessoa do singular: que farei, não tenho, recolherei, farei, derribarei, edificarei, recolherei, direi. Há quatro ocorrências de “meu”: meus frutos, meus celeiros, meus bens, minha alma. E há um reflexivo, “pensava consigo mesmo”.
Treze marcas de primeira pessoa em três versículos. E em todo o trecho dos versículos 16 a 19 não existe nenhum outro ser humano. Nenhuma esposa, nenhum administrador, nenhum vizinho, nenhum pobre à porta. Nenhuma menção a Deus. O único interlocutor que ele consegue encontrar é a própria alma, e precisa dirigir-se a ela diretamente para ter com quem falar.
O solilóquio é um recurso de Lucas. Ele o usa em 7:39, 16:3, 18:4 e 18:11, e 16:3 abre com as mesmas palavras: “Que farei?” Lucas o utiliza para deixar o personagem se condenar em voz alta.
12:20. Deus fala, e a primeira coisa que acontece é que o homem é tratado na segunda pessoa pela primeira vez na parábola. “Insensato. Esta noite te pedirão a tua alma.”
“Insensato” traduz aphron, que no Antigo Testamento grego é palavra moral e religiosa, não intelectual. É a palavra do Salmo 14: diz o insensato no seu coração que não há Deus.
O verbo traduzido por “pedirão” está na terceira pessoa do plural, ao pé da letra “estão exigindo de volta”, e o melhor é lê-lo como modo de falar da ação de Deus sem nomeá-lo. Uma nota textual que vale conhecer: testemunhos importantes trazem um verbo mais simples, sem o prefixo de “de volta”, então não construa um ponto inteiro sobre a ideia de um empréstimo sendo cobrado.
Depois vem a pergunta que a história não responde: “E o que preparaste, para quem será?”
12:21. “Assim é o que entesoura para si mesmo e não é rico para com Deus.” O reflexivo fecha um círculo. Ele deliberou consigo mesmo no versículo 17, e por isso entesourou para si mesmo no versículo 21. O contraste que Lucas traça é entre o eu e Deus, não entre o eu e o próximo.
O paralelo que vale mostrar ao seu povo
Eclesiástico 11:18–19 é quase uma citação:
Quando diz: “Encontrei descanso, agora vou desfrutar dos meus bens”, não sabe quanto tempo passará até deixá-los a outros e morrer.
O contato verbal é próximo: encontrei descanso, meus bens, deixá-los a outros. Mas há uma diferença que vale nomear do púlpito. O homem de Ben Sira enriqueceu por sovinice. O de Lucas simplesmente teve uma colheita boa. Lucas pegou um aviso conhecido sobre a morte e retirou justamente a parte que deixaria o ouvinte confortável de fora.
Movimentos
1. A pergunta que Jesus não quis responder (12:13–15). Um homem pede o que é seu. Jesus não diz que a reivindicação é inválida. Diz que o homem está em perigo maior do que imagina, e dá nome a esse perigo.
2. Um homem sozinho com os próprios planos (12:16–19). Leia o solilóquio em voz alta e deixe a congregação ouvir o quanto ele é cheio de uma pessoa só. Este movimento sustenta o sermão.
3. A palavra que Deus usa (12:20). Não “ladrão”. Não “trapaceiro”. Insensato, no sentido bíblico: o homem que organizou a vida como se Deus não entrasse na conta.
4. Rico para com Deus (12:21). Lucas não define a expressão aqui. Ele a define doze versículos adiante, em 12:33, onde o tesouro que não falha se faz dando. Pregue a definição que Lucas fornece, e não uma que você forneça.
Implicações teológicas
A parábola localiza a insensatez numa relação, ou na ausência dela. O pecado deste homem não aparece na contabilidade. Aparece na sintaxe.
Segundo: a parábola trata a morte como questão de propriedade. A vida é exigida de volta, o que significa que nunca foi posse plena. Isso é mais duro e mais interessante do que “a vida é curta”.
Conexão cristológica, quando o texto a autoriza
Não force uma dentro da parábola; não há figura de Cristo nela. A conexão autorizada é contextual. Isto está dentro de um capítulo em que Jesus manda não se preocupar com comida e roupa, aponta para os corvos que não têm despensa nem celeiro, e depois manda vender os bens e fazer bolsas que não envelhecem.
Quem diz isso é o mesmo que, em Lucas 3:17, recolhe a própria colheita no próprio celeiro. A imagem não é condenada. A pergunta é de quem é o celeiro, e para quem.
Aplicação pastoral contemporânea
Mire na competência, porque é para ela que esta parábola foi feita. O homem não faz nada de burro. Avalia um excedente, identifica um problema de armazenagem e o resolve. Todos os instintos que demonstra seriam elogiados numa avaliação de desempenho.
A aplicação não é “não poupe”. Lucas acabou de mostrar Jesus elogiando administradores prudentes. A aplicação é a pergunta que a parábola deixa aberta: quem está na sala quando você faz os seus planos? Um homem pode construir um futuro inteiro sem consultar uma única vez Deus, o cônjuge, um amigo ou alguém que precise daquilo que ele está guardando, e nada no plano parecerá errado de fora.
Numa congregação mais velha, o que dói é a pergunta sem resposta do versículo 20 sobre os herdeiros. Numa mais jovem, dói que a recompensa de uma vida de boas decisões seja uma noite que ele não viu chegar.
Possibilidades de ilustração
A gramática é a ilustração. Projete os versículos 17 a 19 e marque cada “eu” e cada “meu”. Não custa nada, não inventa nada, e acerta o alvo.
Depois, contraste os dois celeiros de Lucas: o deste homem em 12:18 e o do Messias em 3:17.
Evite inventar a história de um homem rico da sua cidade que morreu de repente. As congregações reconhecem essas histórias, e a parábola não precisa de ajuda.
Direção de encerramento
Termine na pergunta sem resposta, e não numa aplicação. “E o que preparaste, para quem será?” é onde a parábola para, e ela para ali de propósito.
Se couber um apelo evangelístico, a porta é “rico para com Deus” entendido como relação e não como saldo. O homem da parábola nunca foi pobre. Ele só estava sozinho.
Onde este texto costuma ser mal conduzido
- Pregar que um ouvinte do primeiro século entenderia o armazenamento de grãos como algo vergonhoso, ou como roubo. Essa leitura vem de um modelo moderno de honra e vergonha no Mediterrâneo, que os próprios antropólogos desmontaram em boa parte durante os anos 1980. Lucas não a sustenta: em Lucas 3:17 o Messias recolhe o trigo no seu próprio celeiro, com as mesmas duas palavras de 12:18, e a imagem é positiva.
- Dizer que o homem enriqueceu enganando alguém. Lucas diz apenas que a terra produziu bem. Primeiro Enoque 97 condena riqueza obtida "na injustiça" e Lucas justamente omite essa marca. O rico do Eclesiástico é sovina; o de Lucas é um lavrador que teve um ano bom.
- Citar Números 27 como a lei por trás da disputa de herança. Aquela passagem trata da sucessão quando um homem morre sem filho. Dois irmãos dividindo um patrimônio comum está mais perto de Deuteronômio 21:17 e Deuteronômio 25:5.
- Afirmar que fontes do primeiro século mostram rabinos arbitrando disputas de herança com frequência. A evidência é rabínica posterior, e o arquivo de Babata mostra disputas judaicas de propriedade indo parar em tribunais romanos.
- Citar o homem dizendo "comamos e bebamos, porque amanhã morreremos". Ele não diz a última parte. Ela vem de Isaías 22:13, através de 1 Coríntios 15:32.
- Dizer à congregação que arqueólogos escavaram celeiros galileus do primeiro século como o da parábola. A evidência de armazenamento na Galileia é fragmentária, e essas construções não foram encontradas.